Ana Laíns: O seu mundo!

Ana Lains 1

Ana Lains 1

 

 

 

Depois de ontem termos apresentado a primeira parte da entrevista com Ana Laíns, a propósito do lançamento do seu novo disco, “Portucalis”, a 3 de Novembro, trazemos hoje a segunda e última parte de uma entrevista em que é abordado o disco, a família, o amor, a tauromaquia, o respeito pelos animais, e tantos outros assuntos que movem esta ativista nata.

 

 

 

O disco será apresentado, inicialmente, em três concertos a realizar a 18 de Novembro no Museu Nacional de Arqueologia ao Mosteiro dos Jerónimos (convidados especiais: Mafalda Arnauth e Luís Represas); 23 de Novembro na Casa da Música, no Porto (convidada especial: Mafalda Arnauth) e 24 de Novembro no Casino da Figueira da Foz (convidada especial: Mafalda Arnauth).

 

 

Há alguns temas polémicos sobre os quais tu tens posições públicas na tua página profissional e é importante referir que é na tua página profissional.

Claro.

 

 

 

Há alguns temas que te irritam em Portugal. Tivemos agora recentemente um acórdão que basicamente diminuiu as mulheres. Tu és uma defensora da igualdade, de um tratamento por igual de todos os seres humanos. Como é que tu reages a uma situação destas num país supostamente desenvolvido, em pleno século XXI, no ano de 2017?

Não dá para reagir bem. Não é?! E não é por e ser mulher. Eu acho que qualquer homem tem a obrigação de se indignar porque nós…o meu corpo não é de ninguém. Não é?! No máximo o casamento é um contrato e se desse contrato eventualmente faz parte a questão da fidelidade se nós quisermos ser frios. Analisar as coisas friamente. Aliás, o senhor…aquele senhor é um senhor muito frio. Vamos analisar as coisas friamente. O meu corpo é meu. Eu tenho um contrato, sou casada com o meu marido mas o meu corpo é meu. Não é?! O que pode acontecer se eu der o meu corpo a outra pessoa, é esse contrato ser anulado com as devidas consequências e essas consequências não passam por alguém chegar ao pé de mim, fazer-me uma espera e partir-me toda. Isso é tão bárbaro que não tem qualificação nem aqui nem em país nenhum deste mundo. É a antítese de tudo o que diz respeito ao respeito que nós temos que ter pelo outro. Eu nunca vou poder estar a favor de uma situação dessas. E felizmente o país tem-se revoltado e indignado com essa questão.

 

 

 

Mas tu não achas que nós somos um país de revolucionários facebookianos?

Acho.

 

 

 

E muito pouco práticos e até hipócritas?

Acho. Acho 100% e quando às vezes uso o Facebook e uso muitas vezes, não é, para dar as minhas opiniões, sou muito opinativa, com a real noção que essas opiniões têm consequências e está tudo certo, não há problema absolutamente nenhum mas muitas vezes eu pergunto-me ‘Será?!…’, também faz parte, também tenho as minhas questões. Não sou certa de tudo aquilo que faço. Questiono-me diariamente e pergunto-me muitas vezes se será o caminho.

 

 

Arrependeste muitas vezes?

Arrependo-me…muitas. Todos os dias. Todos os dias, e todos os dias volto a falhar nas mesmas coisas. Não. Isto. Uma pessoa…A perfeição exige muito trabalho.

 

 

 

Um dos temas polémicos do ano passado num post teu, segundo a pesquisa que eu fiz,…um dos temas polémicos na sociedade em geral e no qual tu tocaste…tauromaquia. Continuas a ter a mesma opinião?

Como é lógico. É um assunto sobre o qual eu evito manifestar-me muito…

 

 

 

Porém, contudo, fizeste um post…

Porém, contudo, fiz um post mas poderia ter feito muitos mais. Já tive vontade de fazer. Quer dizer, os posts que eu faço são 0,1% dos posts que eu queria fazer. A verdade é essa. Aliás, já pensei em criar um blogue para poder…anónimo, claro. Para poder dizer tudo aquilo que me apetece e não ser linchada na rua. Outra dualidade. Eu sou ribatejana, repara, a questão da tauromaquia é uma questão que me é muito sensível porque a tauromaquia é muito…temos muitos aficionados da tauromaquia no Ribatejo. Ribatejo e Alentejo maioritariamente. Muitos dos meus grandes amigos são pró tauromaquia. E não quero de todo, mas de todo, bater muito no ceguinho porque muitas dessas pessoas são óptimas pessoas e eu tenho que ter algum cuidado porque é uma questão que me toca a mim particularmente. Não consigo entender, acho que devia ser objecto de estudo. O que é que leva uma boa pessoa, uma pessoa com um coração bom que respeita os outros, que dá abraços, que sorri, que é generoso… O que é que leva uma boa pessoa achar que é normal viver num espectáculo medíocre como a tauromaquia…quer dizer, o touro não tem livre arbítrio absolutamente nenhum para estar ali. Se tu me dizes assim ‘Ok. O touro até que é um ser consciente  e ele quis estar ali naquela luta’. No wrestling tens dois bacanos a atacar-se como se fossem bulldogs mas eles sabem para o que estão. Ok. Acho uma perfeita estupidez mas eles estão ali porque querem estar ali. O touro não. Ninguém perguntou ao touro se ele queria estar ali. Acho que só por isso, só por esse motivo se torna uma luta completamente desigual.

 

 

 

Mas sabes que esta raça é criada especificamente para este efeito?

Estou-me nas tintas. Muito sinceramente.

 

 

 

Preferias que a raça se extinguisse e acaba-se com a tauromaquia?

Por exemplo. Não percebo qual é o problema que as pessoas têm com a extinção. Tudo se extingue. Nós inclusivamente extinguimos. O que não está certo de maneira nenhuma é tu alimentares uma raça para alimentar em simultâneo a barbárie. Não faz sentido, peço desculpa.

 

 

Circos…

Piorou. Olha…

 

 

Mas o Cirque du Solei vais ver?

Nunca fui.

 

 

 

Não tem animais.

Nunca fui.

 

 

Quer dizer, irracionais.

Sim. Nunca fui, nunca calhou. Quem sabe, um dia. O circo comum não. Cães com trela, animais dentro de gaiolas…

 

 

Cães com trela. Mas então, queres que os cães andem livres na rua? Mesmo que sejam perigosos?

Oh pá, se são perigosos lá esta…

 

 

Tu até tens medo de cães!

Muito medo e já fui mordida. Por exemplo, há uma série de raças que são cruzamentos. Verdade? Não são naturais. Foram cruzamentos e são esses cruzamentos que geneticamente, muitos desses cruzamentos acabam por crise animais muito mais perigosos.

 

 

É como a nossa parte esotérica de signos.

Epá, etc. Mas isso é outro assunto. Se tu me perguntares ‘também queres que se extingam os animais…os cruzamentos?’. Porque não? Eu acho que nós continuamos a ter, enquanto humanos, um desrespeito gigante pelo nosso ecossistema e todos esses animais fazem parte do nosso ecossistema. Não acho que nós devamos utilizar a nossa racionalidade para criarmos uma supremacia ilusória sobre a natureza. Nós não mandamos em nada aqui. Percebes? E essa falta de respeito pela vida, que em qualquer circunstância me vai sempre incomodar, eu sei que não vou mudar nada nunca.

 

 

 

Esse activismo, essa luta constante pelos teus ideais, essa ansiedade constante de achares que podes mudar o mundo. O Paulo Loureiro continua a ser o gelo que de vez em quando arrefece minimamente, quando possível, esse vulcão?

O Paulo…não tenhas a menor dúvida, que o Paulo é o meu lado racional. Não tenhas a menor dúvida e…

É ele que te consegue dar equilíbrio?

100%.

 

 

Mas com muito jeito?

Basta ele estar. é tão simples como isso. Basta ele estar e basta a mão dele. É o meu porto seguro e isso sim é uma questão que para mim é sensível e eu sei que me deixaria completamente desequilibrada a falta que ele um dia me poderá, ou não fazer, porque nós não sabemos…

 

 

Achas que nós temos…enquanto seres humanos temos medo de ficar reféns do amor?

Eu não tenho. Não sei. Acho, acho sim, acho que esse medo alimenta também muita discórdia nas relações. Eu não tenho, sinceramente. Não tenho medo de ser refém do amor. Eu tenho medo de mim. Não é medo. Não sei como é que lidaria com a minha vida se não existisse um Paulo Loureiro. Provavelmente de outra forma qualquer. Não é? Mas eu gosto muito da forma…da fórmula que existe na minha relação com o Paulo, a fórmula que nós encontrámos para constantemente nos respeitarmos e sermos felizes. Aliás, fizemos ontem [26 de Outubro] 9 anos de casados. Estamos juntos há 18 anos.

 

 

Tantos quase os que tens de carreira.

Exactamente. Tantos quantos tenho de carreira. Exactamente. Tenho tanto de vida pessoal com ele como tenho de carreira profissional. O Paulo é a minha bengala. Podemos pôr as coisas assim. Todos precisamos de uma bengala. Não é?

 

 

Principalmente quando começamos a ficar muito velhinhos. Quando chegares à minha idade vais perceber.

Que disparate!

 

 

 

Eu há um ano, aproximadamente…10 meses, fiz-te uma entrevista no primeiro aniversário do Infocul, foste uma das convidadas. Foi uma entrevista que deu brado, aliás. Em que falámos muito do teu lado mais pessoal, em que falámos muito da mulher por detrás da artista embora não haja nenhuma desconstrução ou uma construção de um personagem.

Elas confundem-se.

 

 

 

Elas confundem-se. Para este disco, e agora voltando um bocadinho mais ao campo profissional, estão a ser preparados, já foram anunciados, são públicos três concertos de apresentação: Lisboa, Porto e Figueira da Foz, se não me engano. O que é que está a ser preparado para estes espectáculos em termos de produção, em termos de alinhamento. Vais só levar este disco? Vais fazer uma viagem pelo teu percurso em termos de outros temas? O que é que está a ser preparado?

Nestes três concertos em concretamente, pela primeira vez na história da minha vida discográfica eu vou fazer todos os temas do disco, sem excepção. O que só por si dá quase um espectáculo. São 14 temas. Todos eles dinmicamente…se pensarmos no espectáculo num todo, porque no espectáculo tem que ter dinâmica. Não são só as convicções da Ana Lains, não é? Temos que agarrar as pessoas.

 

 

 

A direção artística é do Paulo?

É minha. Nos concertos é minha. A direção musical é que é dele. Todo este disco é dinâmico porque tu tens desde o fado, neste caso revisitado à minha moda, a minha maneira, baladas de piano, depois tens muito ritmo.

 

 

 

Abre com um instrumental.

Abre com um instrumental. Lá está. Os músicos e o respeito pelos músicos. Fiz questão que um disco de cantora abrisse com um instrumental em que eu sou apenas e só um instrumento, como os outros. Enfim. Todo este disco é muito dinâmico e permite-nos, por si só, o seu alinhamento fazer um espectáculo dinâmico. É lógico que sendo, como eu já te disse,…este disco é um sumário, e celebra os meus 18 anos de carreira e as minha vivências, é lógico que nós vamos visitar pelo menos um ou dois temas de cada um dos discos anteriores até porque faz sentido enquanto fio condutor que as pessoas também possam compreender o que é que leva uma coisa às outras, não é? E com isso tudo se tu fores ver temos 14 temas nestes disco mais dois cada disco são 18 temas. Temos o alinhamento feito. Não vai haver show off, não vai haver cenários, não vai haver o meu nome em letras gigantes, não vai haver nada nem coisa nenhuma.

 

 

 

Vai haver apenas uma arrumação de palco?

Vai haver apenas uma arrumação de palco com os músicos extraordinários que me acompanham a ter todo o destaque possível e estes dois convidados, o Luís Represas e a Mafalda Arnauth, infelizmente o Ivan Lins não vai cá estar.

 

 

 

Em Lisboa é Luís Represas e Mafalda e nos outros e só Mafalda.

E nos outros é só Mafalda, exactamente. Por incompatibilidade de agendas. O Filipe Raposo eu não contemplei nestes concertos porque tenho outros planos, outras coisas que eu gostaria de levar para a frente e não faria sentido fazer tudo ao mesmo tempo e o Ivan Lins não está cá. Só vem em Janeiro. Com quem também tenho grandes planos mas isso depois é outro assunto.

 

 

 

Vais abrir esta digressão, se assim podemos chamar, em Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos.

Museu Nacional de Arqueologia. E pergunta-me lá porquê que eu te digo já.

 

 

 

Porquê…Primeiro, porquê abrir em Lisboa?

Onde normalmente se fecha.

 

 

 

Num dia em que há a escassos quilómetros um espectáculo também de fado e de música portuguesa?

Essas coisas nós não controlamos. Este concerto está marcado há muito tempo. Não tenho como controlar os meus colegas.

 

 

 

Depois, porque é que tu abres a tua digressão na cidade em que habitualmente…

Se fecha a digressão….Porque naturalmente aconteceu assim, de acordo com a disponibilidade das salas. Não sou metódica a esse nível.

 

 

 

Porquê da escolha deste espaço? Tu não escolhes os espaços ao acaso.

Não.

 

 

Pronto. Não é porque era a sala que estava disponível, não é porque está junto ao rio e se a pessoa estiver com falta de ar pode apanhar um bocadinho de ar .Porquê esta sala?

A palavra de resposta é simples….História. História. Museu Nacional de Arqueologia. História. Esse Museu foi fundado por Leite de Vasconcellos, um dos maiores estudiosos da nossa etnografia portuguesa. Ora eu dedico este disco à língua portuguesa, a etnografia portuguesa, às nossas formas de expressão cultural de norte a sul do país. Não há neste país sitio mais simbólico onde este concerto pudesse acontecer que não seja na casa da história da etnografia portuguesa.

 

 

 

Tu projectas constantemente o teu futuro relembrando o passado?

Sempre. Já reparaste, não é? Eu gosto de história. Eu acho que nós não sabemos para onde vamos. Isto não é um clichê. Não sabemos para onde vamos se não soubermos de onde vimos. Não é um clichê. Naturalmente, há de haver antropólogos e filósofos e sociólogos que explica isto melhor do que eu.

 

 

 

Mas não te agrada o facto de o futuro ser um perfeito desconhecido e muitas vezes caminharmos sem direção?

Sim. Isso aí é onde entra o livre arbítrio do universo, não é, mas eu gosto de homenagear o passado. Eu sou muito presa às coisas boas que já vivi, às más também e sou mesmo apaixonada pela nossa história com todos os defeitos que humanamente ela possa ter. Como qualquer história de qualquer povo. Guerras e afins. Mas eu sou muito apaixonada. Tu não tens noção. Eu sou apaixonada ao ponto de, sei lá…em Janeiro todos os anos eu faço um retiro no início do ano e vou passar uns dias a alimentar o meu amor por Portugal. É quase como rezar. Vou aos meus santuários, estás a perceber? Os meus santuários são os vários pontos do país que são os meus preferidos: Trás-os-montes, as Beiras, Minho, o meu Ribatejo (claro). Todo o país de um modo geral. Mas normalmente no inverno gosto muito de ir para cima. Isto é tão grave, o que se passa dentro de mim é tão grave ao ponto de eu me ajoelhar no chão, pôr as mãos na terra e chorar. Eu sou apaixonada por este país de uma forma que eu não sei explicar e não quero saber. E não quero saber. É grave a esse ponto. Que não é grave, claro que não é grave mas percebes? É uma paixão arrebatadora.

 

 

 

Sentes esse amor retribuído?

Não. Muitas vezes não mas também não me preocupo. Já me preocupei mais.

 

 

 

Mas já pensaste em desistir desse amor?

Já. todos os dias.

 

 

 

E porque é que não desistes?

Como é que nós desistimos de nós? Às vezes as pessoas colocam-me a questão. ‘Tu tens tanto amor um país que te trata tão mal’. Eu não acho que o meu país me trate mal. Eventualmente não corresponde às minhas expectativas em muitas situações. Claro que não. Também tenho sonhos, tenho os meus sonhos, tenho os meus desejos e fico triste quando muitas vezes eles batem com o nariz na porta e eu não consigo concretizá-los. É logico que sim mas o que este país me dá é tão maior. Repara, quando estou nestes dias de retiro eu não estou em palco. Portanto o meu país não tem nada para me dar. Tem mas não é a esse nível. A única coisa que eu quero que o meu  país me dê naquele momento é o cheiro. Sabes? E o toque. É o peso da história e esse país nunca me desilude. Esse país nunca me desilude. O país que me desilude é o país que é feito por pessoas actualmente. Na actualidade. E eventualmente daqui a 100 anos vamos chegar à conclusão que na história que foi a história que teve que ser. Não é? Isto é tudo muito mais complexo do que parece.

 

 

 

Não achas que nós às vezes habituamo-nos muito à ideia que é assim porque tem que ser?

Acho e isso incomoda-me tanto. Isso é que me incomoda.

 

 

 

E se este disco não se chamasse “Portucalis”. E se este disco não se chamase “Dual”. E se fosse um sentimento, qual seria?

…Amor. Pode parecer um clichê mas é…uma profunda relação de amor.

 

 

Continuas a amar a vida?

Muito.

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Notícia publicada a 02/11/2017


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