Cláudia Leal: “Não sou 100% tradicionalista mas se calhar sou 98”

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FullSizeRenderCláudia Leal é fadista e encontra-se a promover o seu primeiro disco, “Quarto Crescente”, que conta com 12 faixas. Nele participam nomes importantes da cena musical portuguesa como Pedro Jóia, Rão Kyao além de letristas como Ricardo Maria Louro, Mário Raínho, Fernando Girão ou mesmo a própria Cláudia Leal que escreve e compõe a última faixa do disco, “O Sal vem da Saudade”.

 

 

Em entrevista ao Infocul, Cláudia Leal abordou não apenas este disco mas também o espectáculo que irá dar no dia 12 de Julho, na Charneca da Caparica, e que tem como convidada Marta Pereira da Costa.

 

 

Quarto Crescente” porque tem talvez a ver com o momento. É um pouco simbólico. A vida é feita de ciclos. Uns simpáticos, outros nem por isso e eu senti que a determinada altura se culminava um ciclo e se iniciava outro quase em simultâneo e senti nessa altura, quando gravei o disco , no ano passado, que estava a entrar num bom ciclo e que era altura então de gravar o disco pelo qual esperei tantos anos para gravar e nada melhor do que poder chamar “Quarto Crescente” ao disco também porque uma das letras, do Mário Rainho, o tema “A nossa Lua”, de Rão Kyao, fala precisamente disso. Fala de uma história de dois apaixonados num quarto em que a lua os visita pela janela e então diz ‘minguante quarto tão crescente’ e então dai também ter surgido a ideia em paralelo para que este disco se chamasse assim” começa por revelar sobre o título dado a este trabalho discográfico.

 

 

O meu disco não tem só fados tradicionais. Eu tentei dar a este disco uma sonoridade toda ela de fado embora hajam canções…haja fados-canção também e fados tradicionais mais antigos. Talvez essa lua cheia, o Rui se esteja a referir aqueles fados que me acompanharam desde sempre no meu repertório, como é por exemplo o “Fado das Horas”, “Fado da Defesa”, o “Fado e Lisboa”, o “Bairros de lisboa”… O “Fado e Lisboa”, curiosamente é o fado que eu decidi marcar como pioneiro em que eu toco e canto em que no disco, em gravação mas foi na verdade o primeiro tema, o primeiro fado que eu aprendi a tocar e a acompanhar. Por isso nada melhor que também inclui-los neste novo disco e dai talvez haja uma segurança mais acentuada do que nos outros” diz-nos quando afirmámos que em alguns momentos deste disco a sua interpretação é de ‘lua cheia’, tal a qualidade patenteada.

 

 

 

 

Em primeiro lugar o fado conta histórias. O fado fala da vida, conta histórias de alegria, tristeza, de amor, desamor, de amor a outrem, a Lisboa. E eu tentei neste disco reunir todos os meus anos já de percurso, não só no fado mas também na música, e como era o primeiro disco tentei reunir tudo aquilo que eu gostasse de cantar. Nem todas as histórias que estão no disco eu as vivi, outras posso ter vivido e outras até poderia ter vivido. Penso como tal, que as posso ter vivido mas o disco, como disse, é um disco que conta histórias, umas minhas e outras de outras pessoas. E o amor, por exemplo, é algo que é universal. Tu sentes assim, eu vou sentir também. Se calhar uma pessoa na China vai sentir de igual forma. Isso é curioso que esses sentimentos muitas das vezes são transmitidos a outras pessoas que não entendem a nossa língua e que entendem o sentimento que nós estamos a imprimir e isso é maravilhoso. Este disco conta histórias. Foi o reunir do repertório, foi algo que demorou algum tempo, mais ou menos cerca de 3 anos em que quando eu comecei a pensar o disco, pensei em convidar em primeiro lugar pessoas que eu admirasse. Em primeiro lugar surgiu na minha cabeça o poeta Mário Rainho, surgiu Rão Kyao, Pedro Jóia, o Rui Manuel também tem um tema no meu disco e procurar rodas as minhas referências ou algumas delas, como é o caso de Fernanda Maria, Maria Teresa de Noronha, que fazem parte deste meu disco com fados das minhas referências. Tive algumas ofertas, como foi o caso do Fernando Girão que há uns anos atrás me disse se eu alguém dia grava-se gostaria imenso de escrever e de compor para mim e eu não mais me esqueci desse convite e quando a oportunidade do disco surgiu eu fui imediatamente bater à porta do Fernando Girão e ele com todo o seu carinho abriu-me a porta de sua casa e então nasceu o fado “Maria Girão”, que ele dedica a sua mãe, a fadista Maria Girão, que se chama “Luz” e o “Mesmo mar” que são os dois temas do Fernando Girão. Depois o Rãoo Kyao… nós temos amigos em comum. Não o conhecia pessoalmente a não ser de o ir ver a espectáculos. Liguei-lhe e perguntei-lhe se o Mário Rainho podia escrever uma letra para esta melodia já com 33 anos, na altura, que se chamava…que se chama “Tróia”. Ele disse que era algo diferente, que nunca tinha pensado nisso em tantos anos e disse para eu seguir em frente que tinha muito gosto em participar no meu disco. O Pedro Jóia foi realmente a primeira pessoa a quem eu…nós somos, não somos extraordinariamente amigos, mas eu conheço o Pedro Jóia, já gravei com ele é algumas vezes e tenho sorte de poder dizer que ele também é um dos músicos amigos que tenho e pedi-lhe se ele podia musicar um poema de António Botto que é “Quem não ama não vive” e imediatamente ele aceitou e eu costumo dizer que só posso ser uma pessoa muito feliz com o resultado deste disco. A historia também do Rui Manuel também foi uma oferta. Antigamente os poetas estavam nas casas de fado. A actividade do fadista desenvolveu-se maioritariamente na Casa de fado e antigamente os poetas iam às casas de fado e escreviam muitas vezes letras nos papéis das mesas, nos guardanapos. Ofereciam ao fadista porque ouviam uma história ou porque eles mesmos lhes cantavam uma história. Muitas das coisas que cantamos hoje em dia foram verdade, são historias que aconteceram mesmo verdadeiramente, e portanto, foi o Rui Manuel que foi à casa de fados onde eu estava na altura e ofereceu-me três poemas e eu apaixonei-me imediatamente por “À procura de amor”, que Ricardo Ribeiro musicou” revela-nos sobre a escolha de letristas, compositores e convidados deste disco.

 

 

 

A fadista revela-nos que “não sou 100% tradicionalista mas se calhar sou 98. Eu gosto muito de respeitar aquilo que foi feito e se foi feito daquela maneira porque é que eu vou fazer diferente?! Eu também sou compositora e autora e não gostaria nada de oferecer um tema meu a um colega, por exemplo, ou a um cantor ou a uma cantora e deturparem aquilo que eu fiz. Portanto, eu quando canto fados tradicionais antigos como o “Fado Menor”, que tem por acaso neste disco a letra de um jovem poeta de Elvas, Ricardo Maria Louro, com um talento absolutamente incrível, como os “Bairros de Lisboa”, como “O Fado em Lisboa”, o “Fado da Defesa”, o “Fado das Horas”…. Ora se o compositor assim o fez eu tenho que respeitar a melodia que ele fez e não fazer outra qualquer. Para isso, eu decidi gravar fados tradicionais como é o caso do “Fado Cláudia”, que obedece a uma métrica tradicional. É um versículo com uma melodia nova que o Ricardo Ribeiro fez em que eu posso dar o meu cunho se calhar mais contemporâneo do meu fado, digo eu. “As meias verdades” é também um fado, se o podemos chamar assim, que Rogério Ferreira e Rodolfo Godinho, os dois músicos que assinam maioritariamente o acompanhamento deste disco, tem também o Carlos Manuel Proença e o José Manuel Neto em dois dos temas, um do Fernando Girão e um no meu, mas ele são de facto aqueles que assumem a maioritariamente o acompanhamento do disco e ai eu posso dar o meu cunho pessoal e depois nas canções posso sair completamente fora mas eu acho que o meu disco, modéstia a parte e sou sempre suspeita para falar disso, sabe a fado em qualquer das vertentes. Não só pela minha interpretação enquanto fadista mas também pela interpretação dos excelentes músicos que me acompanham” acrescenta.

 

 

 

Rui, eu antes de saber que sabia cantar pedi uma guitarra clássica aos meus pais. E disse assim ‘quero aprender guitarra clássica’. O meu pai tendo sido músico durante a sua juventude na Sociedade Filarmónica Barrilense, na sua terra, na Rendalva, e o meu avô também. O meu pai tocou saxofone na sua juventude e o meu avô tocou até ao fim da vida clarinete. Eu ao pedir uma guitarra clássica estava completamente fora dos parâmetros normais e assim foi. A minha avó materna ofereceu-me essa guitarra e eu comecei a aprender guitarra clássica com o professor Rogério Gouveia, tinha 12/13 anos. Mais tarde, esse professor faleceu infelizmente e eu estive muitos anos sem tocar. Tocava aquilo que eu já tinha aprendido sempre no clássico, nunca para me acompanhar. Comecei a cantar, desenvolvi a minha carreira enquanto cançonetista e mais a frente enquanto fadista e tive a sorte, mais uma vez digo que sou uma mulher cheia de sorte, de poder trabalhar com pessoas que me trouxeram muito e onde eu fui beber muito como é o caso de José Carvalhinho que é o meu Mestre, filho de Francisco Carvalhinho, uma figura da guitarra portuguesa incontornável do nosso fado. Referência de muitos guitarristas da nova geração e também do seu tempo. Ele percebeu que eu tinha algumas bases de guitarra e teve toda a vontade do mundo de me ensinar novamente e pronto, não mais parei. Enquanto que na casa de fados se cantava eu tinha sempre a vontade de estar a acompanhar ou de levar a minha guitarra e isso nasceu naturalmente. Comecei a acompanhar-me, como disse no “Fado e Lisboa” que é do pai do José Carvalhinho. Comecei a aprender um Fado, dois, três e assim comecei a acompanhar naturalmente e hoje faz parte da minha forma de estar enquanto fadista. Acompanhar-me também enquanto canto” diz-nos sobre a sua versatilidade artística, pois além de cantar e tocar, também escreve e compõe.

 

 

 

Aproxima-se um grande espectáculo que juntará em palco a guitarrista Marta Pereira da Costa e Cláudia Leal. “Eu e a Marta já estivemos também juntas em algumas situações nas casas de fado e não só e sendo ela a única mulher que toca guitarra portuguesa e sendo eu uma das poucas mulheres, não sei quantas haverá mas creio que profissionalmente deve haver  muito poucas e eu pensei ‘porque não juntar?’, fazer um momento talvez único na história do fado, que é juntar duas mulheres que tocam. Neste caso eu canto e a Marta toca. Vamos tocar guitarradas. Eu decidi convida-la para o espectáculo de dia 12. Então vai acontecer um momento singular, digo eu, em que vamos tocar algumas guitarradas, vamos tocar fados onde eu também canto e me acompanho e também se irá juntar a nós um músico que se chama Duarte Nunes, quem eu admiro imenso não só como músico mas também como pessoa. Um jovem talento no Oboé” diz-nos sobre o espectáculo de dia 12 de Julho na Charneca da Caparica.

 

 

Essa é uma pergunta muito difícil. Aquele disco tem tantos sentimentos que dizer uma só palavra, talvez Amor porque o Amor abrange várias…como e que eu hei-de dizer?…O amor abrange varias coisas que nós queiramos dizer não só amizade. Posso ter muito amor por um amigo, pela minha filha, pelo meu pai, pelo meu companheiro, pela minha mãe ou mesmo ate a minha cidade de Lisboa. Eu não nasci em Lisboa mas gosto muito da cidade de Lisboa” disse-nos quando desafiada a descrever este disco em apenas uma palavra.

 

 

O meu objectivo principal e fazer aquilo que eu gosto” diz-nos sobre o seu objectivo no fado, acrescentando que “sou profissional, sou fadista, estou a apresentar neste momento o meu disco, faço o meu percurso da maneira que eu sei que é passo-a-passo, degrau a degrau no tempo exacto para que as coisas tenham a maturação necessária tal como este disco teve que ter a maturação necessária e também a maturidade necessária para o fazer e o meu percurso no fado ira ser esse mesmo. Passo-a-passo, fazendo os meus fados, as minhas canções, cantando os poetas que eu admiro” antes de revelar o seu agradecimento a “quem goste daquilo que faço”.

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Notícia publicada a 03/07/2017

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