Cristina Branco: A entrevista sobre o “Menina”

cristina branco9

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O “Menina” de Cristina Branco é um dos mais recentes discos da música portuguesa, tendo sido editado a 16 de Setembro pela Universal Music Portugal e o Infocul foi falar com a artista para saber um pouco mais de um trabalho que tem conseguido obter as melhores criticas por parte da imprensa e do publico.

 

 

Este disco é uma viagem pelo que de melhor se faz na música portuguesa apresentada de forma sublime. Cristina Branco é uma interprete sublime que sem amarras nem preconceitos canta o que sente, o que gosta e que tem a capacidade de transformar as suas canções, nas nossas canções.

 

 

Esta viagem começou a ser preparada em “Outubro/Novembro do ano passado, gravámo-lo em Maio e sai para a rua agora. Mas todo o processo mental, o nascer deste disco começou há dois anos”, revelou-nos no inicio da conversa, formalmente chamada de entrevista, ao Infocul.

 

 

“Menina” ao contrário do que o nome possa indicar não terá como público alvo a mulheres. “Não. O meu público-alvo são todos. É toda a gente. Não, não, não, nada disso…Até porque eu cada vez acredito mais que nós temos que caminhar para um bem comum, não é eu defender ali aquele reduto das mulheres ou dos homens, neste caso o caminho do meio é o certo”.

 

 

Para este trabalho discográfico Cristina Branco convidou ‘malta da nova geração’, muitos deles com quem nunca tinha trabalhado em termos de composição e escrita. Mas isso não torna, na opinião da artista, este disco menos pessoal. “Antes pelo contrário. Há coisas que temos em comum, depois são pessoas que desde algum tempo a esta parte eu tenho ouvido com mais assiduidade, portanto não são de todo pessoas que me sejam estranhas. Nunca nos tínhamos cruzado, conhecemo-nos vagamente e a partir desse momento as coisas começaram a nascer, conhecemo-nos numa festa, e vou ouvindo como hoje em dia toda a gente ouve e foi assim que a ideia surgiu. Mas não são assim tão estranhos”, revela-nos.

 

 

Questionámos a artista se teria havido algum pedido expresso aos letristas e compositores ou se eles teriam tido total liberdade para criarem, tendo Cristina Branco nos dito que “houve uma ideia, que de facto de onde se partiu era o feminino, porque eu quando começo a pensar num trabalho novo vou escrevendo textos ou ideias que nos vão ajudando a interiorizar que é um trabalho novo que está a surgir e desta vez o que eu construi foi um texto à volta da minha pessoa, que é um texto que fala de alguém que em determinada fase da vida está bem e então? Qual o problema? Pode cair ali aquela montanha e eu sei que estou ali naquela plataforma e é ali que me sinto bem. O texto fala disso, de alguém que está bem, que tenho dois filhos, etc, etc, faço uma descrição quase física, da minha identidade e foi isso que eu lhes pedi, que falassem da mulher, ou de uma mulher que está bem consigo própria”.

 

 

E será que algum a surpreendeu? Para Cristina Branco, “todos me surpreenderam. Sabes porquê? Porque basicamente eu não sabia o que ia aparecer. Havia uma ideia de escrever sobre a mulher, ma depois dentro do género a que eles pertencem, que é quase o mesmo, mas todos eles com um universo bastante diferente…Acho que é isso que é bom, passado todo este tempo que tudo te possa surpreender. Foram todos surpreendentes, houve coisas que não entraram, que entrarão noutro disco, porque são todos criativos e muito jovens. Acabámos por fazer uma selecção coerente, do género, vamos lá ver o que se enquadra”.

 

 

Este disco conta já com dois espectáculo onde foi apresentado ao vivo em Portugal, no Festival Bons Sons e na Festa do Avante. Neste último, o Infocul esteve lá e questionámos a artista sobre se tinha ficado surpreendida de ver o público a cantar já os temas novos. A resposta sai naturalmente: “Felizmente já não tanto. Eu sei que há ali dois ou três temas que as pessoas já cantam comigo e isso é muito…reconfortante. Sabe muito bem. Mas lá está, são músicas que vêem ao encontro do que está a ser feito agora, da tal renovação do fado que tu falavas no início da tua entrevista, algumas nem serão fado certamente”.

 

 

Um dos temas mais divertidos do disco, é “Boatos” com letra e musica de Jorge Cruz. Será este tema ainda bastante actual no nosso país?. Para a artista “É, é, é, é…Porque somos o pais das alcoviteiras, do diz que disse, em todo o lado, independentemente do tamanho da cidade. Nós temos grandes letristas mas há uma geração que se está a impor. O Jorge é um excelente observador. Sabes aquelas histórias que tu vês ou ouves e que não consegues sintetizar? Ele consegue fazer num poema em três minutos”.

 

 

Cristina Branco ao longo do seu percurso tem apresentado uma liberdade apreciável na musica que canta. Fizemos uma questão já várias vezes repetida sobre a historia do fado novo e fado velho, se é que isso alguma vez existiu. Mais uma vez e de forma descontraída, a resposta sai rápida, factual e esclarecedora: “Não há fado novo e fado velho. Há o Fado. O Fado é uma coisa tradicional, que tem regras e que tens que cumprir. Quando sais dessas regras deixa de ser fado e passa a ser outra coisa. O que tenho feito, tal como outros colegas, gente de grande qualidade tem feito, se calhar neste espaço dos últimos 20 anos, são temas que provavelmente não são considerados fados e no futuro serão, tal como aconteceu com o repertorio de Amália e outros cantores. Por agora não são fados, poderão vir a ser. Porquê discutir isso? É claro que há coisas mais ousadas, há coisas que não são fados. Mas é feito por fadistas a quem apetece fazer outras coisas e que têm e sentem essa liberdade de o fazer” acrescentando que essa liberdade deverá continuar a existir porque “de outra forma o fado não evoluiria. Nem o fado nem outro género qualquer. Tens que acompanhar a sociedade em que vives de modo a dar-lhe voz, para que daqui a não sei quantos anos se perceba o que estava a acontecer nesta fase. A música tem essa capacidade. A arte tem essa capacidade!”.

 

 

Este disco tem sido descrito como o mais leve de Cristina Branco. Opinião com a qual concorda mas a que acrescenta uma ideia. “É. É e não é, porque se tu fores escrutinar os texto tens coisas densas. É quase como quando entras no Facebook. Todas as pessoas têm vidas fantásticas, estão em sítios incríveis, mas depois a realidade fora do ecrã é outra coisa. E ali também é isso, o disco é super brincalhão, histriónico, como lhe quiseres chamar, já ouvi alguns adjectivos sobre o disco, mas também tem o outro lado, é um disco que fala de gente”.

 

 

Neste disco temos tudo. Temos o universo dos seus autores, temos indie, temos pop, está tudo lá. Houve musicas que quando nos chegaram, pensámos ‘como é que vamos pegar nisto?’. Porque tinha o nosso lado melancólico mas também tinha outras coisas e depois no fim vermos a volta que a musica deu, é muito bom. Não fizemos grandes alterações mas depois eles quando ouviram o resultado final, diziam, ‘epá, o que aconteceu, isto está totalmente diferente’ e nós víamos que não tínhamos feito nada de especial” remata, não sei antes de elogiar os músicos que a acompanharam neste disco: Bernardo Moreira (contrabaixo), Luis Figueiredo (piano) e Bernardo Couto (guitarra portuguesa). Sobre eles foi também esclarecedora: “Quando tu tens três grandes músicos não sei se precisas de mais”.

 

 

Os próximos espectáculos de apresentação do disco em Portugal são:

 

22 de Outubro- Teatro de Vila Real

29 de Outubro- Cine-Teatro Constantino Nery em Matosinhos

18 de Novembro- CAE Figueira da Foz

07 de Dezembro- Theatro Circo em Braga

08 de Dezembro- Teatro Aveirense

17 de Dezembro- Teatro Micaelense nos Açores.

 

 

Neste disco importa ainda destacar as presenças de Cachupa Psicadélica, Peixe, Nuno Prata, Ana Bacalhau, Kalaf (Buraka Som Sistema), Jorge Cruz (Diabo na Cruz), Luis Severo (Cão da Morte), Filho da Mãe, André Henriques, entre outras parcerias já repetentes como o caso de Mário Laginha, Pedro da Silva Martins e António Lobo Antunes.

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Notícia publicada a 27/09/2016

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