Maria das Dores Meira e a tauromaquia: “Nem se deve acabar com a tauromaquia, como defendem os seus mais radicais opositores, nem os aficionadas devem radicalizar posições em defesa de velhas tradições da lide”

 

 

Numa parceria editorial os sites Infocul e Toureio.pt levaram a cabo uma série de entrevistas todos os municípios que integram a Secção de Municípios com Actividade Taurina, através dos respectivos presidentes de Câmara.

 

 

O objectivo desta iniciativa, mais do que basear ideias em suposições, foi dar palavra ao máximo representante de cada município sobre a questão tauromáquica e também sobre as restantes vertentes culturais identitárias de cada município e a importância da cultura para o desenvolvimento local.

 

 

A Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, a quem agradecemos a disponibilidade, referiu que “a tauromaquia continua a ser parte importante das nossas tradições culturais que importa preservar” e que quanto a pressões dos grupos anti taurinos, “não lhes chamaria pressões, mas apenas o exercício do direito que todos têm a ter opinião”.

 

Em termos orçamentais esclareceu que “não temos nenhuma verba destinada à promoção da tauromaquia no nosso orçamento” e que em termos de valor que a tauromaquia leva para o concelho, a mesma está “neste momento, com a redução da actividade tauromáquica na Praça de Touros, que a autarquia adquiriu para remodelar e transformar num espaço polivalente que suporte outras iniciativas, além da actividade tauromáquica, não podemos avaliar que valor traz a tauromaquia para o nosso município”.

 

 

Se a tauromaquia é uma das marcas identitárias do município, há mais cultura para descobrir pois “temos, em Setúbal, um vasto conjunto de colectividades promotoras de cultura que desenvolvem variadíssimas actividades culturais e também desportivas. Setúbal tem uma identidade muito marcada que não se resume, contundo, apenas às actividades culturais. Temos uma forte relação com o mar e dessa relação resultam múltiplas expressões culturais, seja na música, seja em alguma literatura que aqui se produz sobre este tema. Temos, além disso, forte identidade gastronómica ligada aos produtos do mar e à forma de os confeccionar, o que resulta, naturalmente, de sermos, desde sempre uma terra de pescadores. O mar será, assim, o aspecto mais identitário de Setúbal, a parte de uma forte tradição industrial e operária”.

 

Tem enorme importância, seja pelos variadíssimos apoios financeiros e logísticos que concedemos às nossas colectividades, seja pela promoção de actividade cultural pelo próprio município. Nos últimos de anos investimos de forma muito significativa na criação ou recuperação de equipamentos culturais que permitem, hoje, que tenhamos um enorme fluxo de actividades ligadas às artes. Reabilitámos e modernizámos a maior sala de espectáculos da cidade, o Fórum Municipal Luisa Todi, que está agora no roteiro dos principais artistas portugueses, o que antes não acontecia, criámos uma Casa da Cultura, verdadeiro pólo de divulgação artística no centro da cidade, reabilitámos o Convento de Jesus e ali criámos uma nova galeria de exposições para o Museu da Cidade, transferimos para o espaço nobre do edifício do antigo Banco de Portugal a nossa valiosa colecção de pintura quinhentista, criámos mais uma galeria de exposições no antigo edifício do Quartel do Onze, reabilitámos a nossa Biblioteca Municipal e ainda fizemos importantes obras na Casa do Corpo Santo, que alberga também algumas exposições permanentes. Sem correr o risco da imodéstia, posso afirmar que temos hoje em Setúbal, quer promovida pela autarquia, quer por variadas instituições, uma actividade cultural de referência”, disse quando questionada sobre a importância da cultura no município e de que modo essa importância se reflectia no orçamento.

 

Regressando à temática tauromáquica e quando questionada sobre os movimentos para acabar com a tauromaquia, recomendou equilíbrio. “Tem de haver equilíbrio entre as posições em causa. Nem se deve acabar com a tauromaquia, como defendem os seus mais radicais opositores, nem os aficionadas devem radicalizar posições em defesa de velhas tradições da lide que hoje não se coadunam com a visão que temos do relacionamento com os animais”. Esta questão, divergência entre anti taurinos e aficionados deve, deve, na sua opinião, ser gerida com  “diálogo e com a procura dos consensos possíveis, mas sem confrontos. Um diálogo que permita a continuação, em moldes que se adeqúem mais ao pensamento contemporâneo sobre  a forma como devemos relacionar-nos com os animais”.

 

Questionámos Maria das Dores Meira se com a descentralização e as transferências de competências para os Municípios, existe a possibilidade de serem os municípios a tutelar toda a área cultural, inclusive o espectáculo tauromáquico, tendo a autarca referido que “essa é uma matéria que depende das decisões do Governo. Estamos, naturalmente, disponíveis para analisar as propostas que nos sejam feitas”.

 

Já quanto à capacidade dos municípios em gerir as várias áreas culturais, disse que “os municípios têm muitas responsabilidades e podem vir a ter ainda mais. Neste contexto, desde que haja a correspondente transferência de meios financeiros, estou convicta de que termos a capacidade e o saber para tutelar novas áreas. É, contudo, fundamental que estas transferências de competências sejam consensualizadas e não impostas”.

 

Caso os municípios venham a tutelar a área tauromáquica, questionámos o que poderia mudar, com a presidente do município de Setúbal a esclarecer que “não sou aficionada ao ponto de conseguir fazer propostas nesta matéria. Creio, contudo, que, mantendo o essencial do espectáculo tauromáquico, devem ser adoptadas práticas que introduzam o respeito possível pelos animais”. Quanto a eventuais melhorias no espectáculo tauromáquico, esclareceu, “como lhe digo, não sou aficionada. Contudo, insisto na ideia de proteger mais os animais evitando sofrimento desnecessário”.

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Notícia publicada a 01/05/2018


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