Nelo Carvalho: O Homem e o Artista

Las Voces Y Los Cantos (Capa)
Las Voces Y Los Cantos (Capa)
Las vocês y Los Cantos” é o terceiro disco e que completa trilogia onde se inserem também os discos “Encontros” e “Reencontros”. Neste terceiro disco conta com convidados de luxo como Pablo Milanés, Maria Berasarte, José Debray, Uxía ou Jacob Desvarieux.

Em entrevista ao Infocul, que foi uma conversa onde se falou de Angola, Portugal, música e amor, Nelo Carvalho dá a conhecer o seu trabalho e também o lado mais pessoal. A importância das emoções em tudo o que faz na sua vida.
No seguimento dos dois discos anteriores, Nelo Carvalho permite-nos uma viagem pelas músicas de Angola, Cabo Verde, Brasil, Portugal, Cuba, República Dominicana, Guadalupe e Espanha numa fusão bem conseguida.
Este disco completa uma trilogia. Esta trilogia estava pensada desde início, “aliás, isto começa por um projecto de um disco, começou por um disco. Eu comecei a reunir os temas só que de repente os temas que eu tentei seleccionar eram para ser  12, depois passou para ser 15 e os meus produtores disseram que era demasiado. Eu quis muito oferecer…. Nós os angolanos temos uma coisa: Oferecemos da nossa casa tudo o que temos de bom. Vamos buscar a melhor loiça, os melhores copos, os talheres… menos a mulher, mas a comida também vamos buscar o melhor que temos. Então eu quis dar o melhor de mim, das minhas composições, da minha escolha, do meu disco e então houve um bate-papo com os meus produtores” começa por desvendar em entrevista ao Infocul.
Sobre os produtores acrescenta que “felizmente eles sempre foram muito meus amigos e sempre deixaram fazer o que eu queria, que é uma sorte para mim. Então passaram a ser 15. Depois desses 15 apareceram 16, 17,18 e depois eu ia para casa e começava a pensar ‘onde eu os vou pôr. São tão lindos!‘. Pensámos num disco duplo mas disco duplo era impossível ser em Angola porque não resulta, o preço também não resultava. Nunca resultou um disco duplo em Angola. Então pensou-se em dois e como o primeiro nome foi ‘Encontros’, que era encontros de artistas, encontros de produtores, eu trabalhei com vários produtores, trabalhei com vários artistas, com vários arranjadores, com vários músicos e geralmente de cada país que eu quis, que eu me propus… O que é que acontece…aparece um “Reencontros” que era para ser editado um ou dois anos depois e então passaram a ser 15+12 mas depois apareceram mais e mais. Eu entretanto vou a Cuba. Ah!…Entretanto, no meio da gravação do outro o Mindo, o meu produtor disse-me ‘Nelo…‘, eu estava a cantar a morna do primeiro disco, ‘canta lá isso em espanhol’ e comecei a cantar em espanhol. Foi lindo! Pronto, e a minha vertente, e o meu jeito de cantar. Disse ‘Não, vamos fazer um disco latino’, ‘Eh pa, faz favor, não faças isso“, Então começamos a pensar no terceiro disco que é este ‘Las Voces y Los Cantos, sendo que conseguimos reunir seis temas originais. Precisávamos apenas dos outros e então o que pensámos, fazer versões dos dois primeiros discos em espanhol sendo que eu adoro duetos, se eu pudesse cantava sempre duetos mas a produção e a minha agente agora já não me deixa” refere, esboçando um sorriso perante a sua agente.
O próximo disco tem mesmo que ser sozinho mas eu gosto de duetos pela emoção, pelo momento, por estar à frente da pessoa que eu me propus. Imagine eu a pensar assim, estou a ouvir a música e a pensar assim ‘gostava muito que esta música fosse cantada pelo Pablo Milanés’. ‘Tás maluco pá. O Milanés?!’ e de repente as coisas começam a ser uma realidade. Eu a cantar à frente dele, eu estava gago. Não estava a conseguir. Ele é uma pessoa que tem um astral enorme, é uma pessoa fantástica e é um ser humano de outro mundo então tudo isso foi que teve este resultado bonito que é o “Las Voces y Los Cantos'”.
O Nelo fora do palco é um bocado tímido sendo que quando tenho confiança e quando consigo estar com as pessoas passo a ser uma pessoa divertida. Sou extremamente sisudo quando as coisas não me correm bem e sou muito rigoroso em tudo o que eu faço. Eu acho que ninguém tem o direito de ser enganado nem com a minha música, nem com os meus músicos, nem com a minha voz. Portanto, sempre que eu me apresentar em palco ou fizer qualquer coisa, vai ser sempre bem feito porque eu mesmo, o meu rigor também tem a ver comigo e com as pessoas que estão ao meu lado e que fazem parte do meu projecto” diz-nos quando questionado sobre quem é Nelo fora do palco, antes de acrescentar que “eu tenho uma coisa que me caracteriza: adoro fazer pessoas felizes. O que me inspira é eu estar a cantar e ver uma pessoa a sorrir e estar a cantar e ver uma pessoa a emocionar-se porque me está a ouvir e porque as palavras chegaram ao coração. É o que mais me inspira”.
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Eu tenho visto algumas excepções, mas sim, ainda vamos a tempo de apreender. A minha educação desde a minha mãe, desde o meu pai, a educação que eu dou aos meus filhos…eu vou contar aqui uma coisa que podes não publicar mas é bonito. O meu filho diz que na escola dele, porque nós o educamos ele sempre estudou em Angola, ele é o único que cumprimenta a porteira e a porteira diz ‘ai meu rico filho, que bem que és educado’. Ele cumprimenta e quando sai despede-se. Ele diz que ninguém faz isso quando entram e saem. Eu tenho uma rua que tem quatro casas. Os meus vizinhos, cumprimento-os todos. Seja de manhã, seja ao fim da tarde. Tenho o lançamento do meu disco e vou a casa deles e ofereço um disco e digo ‘vão ao meu lançamento’, porque eu gosto de ser assim. E mais. Eu faço as minhas caminhadas e cumprimento as pessoas que se cruzam comigo sendo que 80% não me cumprimenta. Mas eu vou continuar a cumprimentar até as pessoas perceberem que esse é que é o caminho” diz-nos quando questionado se com o avanço das redes sociais nos preocupávamo-nos menos em fazer os outros felizes.
Portugal representa muito na minha vida. Recebeu-me quando eu tinha 15 anos, não consinto que ninguém fale mal de Portugal, dos portugueses. Gosto da maneira como sou tratado. Gosto…infelizmente tive que me ausentar agora cerca de nove anos mas vinha no verão sempre. Acho que a música portuguesa está muito bem, faz parte da minha playlist. Gosto imenso de ouvir artista e hoje em dia os artistas portugueses já têm um grande sentimento e felling. Ainda agora fiquei estupefacto, fui ver o show de Los Van Van e vejo professores de português a dançar salsa que eu fiquei de boca aberta. Bom felling. Portanto, somos campeões da europa. Não há nada que a gente não consiga fazer se quiser. É o que eu acho do português” diz-nos, abrindo o coração sobre Portugal.
Sentimento” é a palavra escolhida por Nelo Carvalho para descrever este disco. O mesmo sentimento que transmite em cada olhar e em cada palavra que nos disse.
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Notícia publicada a 11/07/2017


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