Paulo Pessoa de Carvalho: “E por isso eu estar tão angustiado e amargurado…”

paulo pessoa de carvalho- toureio.pt

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Depois de ontem termos apresentado a primeira parte da entrevista com Paulo Pessoa de Carvalho, chegou altura de desvendarmos a restante conversa com o empresário. Começamos por Vila Franca de Xira, passamos pela demissão na APET e terminamos com uma declaração pessoal e emocional de Paulo Pessoa de Carvalho sobre a Festa Brava.

Recordamos que pode ler a primeira parte da entrevista em…(colocar link), em que o empresário terminou a falar sobre Vila Franca de Xira e é mesmo por ai que continuamos a entrevista. E sobre as polémicas corridas da feira de Outubro, em que houve contestação aos touros apresentados.

 

 

 

T/I – Quando os touros chegaram à praça porque não os recusou? Mesmo havendo o risco de não haver corrida, porque não “partiu a corda” por ai?

PPC – As situações foram todas avaliadas. Não haver corrida penso que não seria a melhor solução. E o que aconteceu foi que dos oito touros que foram, só três puderam entrar na corrida. Negados por falta de peso, falta de trapio e falta de idade. Portanto, estes foram os motivos, há um relatório e oportunamente também se falará.

 

 

 

T/I – Relativamente a todas as praças que geriu, o que faria de diferente caso tivesse agora a iniciar a temporada?

PPC – O que faria de diferente? Neste momento nem sei o que faria, quanto mais o que faria de diferente.

 

 

 

T – Ficaria com a praça de Portalegre?

PPC – Não, não ficaria com a Praça de Portalegre.

 

 

 

T – Porquê?

PPC – Porque a Praça de Portalegre carece de um empenho profissional que eu não sou capaz de dar.

 

 

 

T – Mas tem a ver com o público, com os proprietários, com a conjuntura da festa?

PPC – Acho que tem a ver com tudo. A relação com os proprietários não é se calhar muito simples, acho que são pessoas, que têm aquele equipamento, têm aquela praça de touros, mas se calhar não estão muito conscientes da actualidade da tauromaquia. Gente simpática com quem me dou muito bem e de quem gosto. Em termos de negócio, acho que estão um bocadinho alheados da realidade actual. O público de Portalegre, é uma zona do país que tem algumas dificuldades, em termos económicos e sociais, portanto não é fácil, não pode haver um bilhete caro. Eu não sei o que o público de Portalegre gosta ou não gosta, mas hão-de saber com certeza, hão de ter o gosto deles. A própria localização da praça não é fácil, pelo facto de estar fora, tem que se criar ali uma envolvente qualquer para que mobilize as pessoas de Portalegre a ir aos touros. Alguém que vá para a Praça de Portalegre tem que ir com outro empenho, outra motivação, algo que inicialmente avaliei mal e não percebi. Acho que passa um bocadinho por aí…

 

 

 

T/I – Em 2018 vai concorrer a praças? Vila Franca por exemplo?

PPC – Sobre 2018 é tabu. O que eu vou fazer não faço ideia. Agora está a apetecer-me fazer férias.

 

 

 

T/I – Férias também da tauromaquia ou em 2018 estará cá novamente?

PPC – Não faço ideia mesmo.

 

 

 

T/I – Passando agora para o apoderamento. Anunciou no início da temporada o apoderamento de João Maria Branco, ele toureou algumas corridas mas a meio da temporada desapareceu…

PPC – Esse apoderamento neste momento continua, não falámos para fazer balanço final da situação, e portanto neste momento sou o apoderado do João Maria Branco.

 

 

 

T/I – E continuará apoderado de Branco em 2018?

PPC – Não faço ideia. Não faço mesmo ideia. No final do ano há sempre avaliações das situações e portanto as pessoas têm que falar. A verdade é que as coisas não correram nem como eu nem como o toureiro desejaríamos, e portanto as coisas não fluíram. O propósito que ambos tínhamos, era de as coisas serem em crescendo. Houve 5/6 corridas numa fase inicial, onde as coisas deveriam ter corrido melhor, não correram e portanto as coisas não fluíram.

 

 

 

T/I – Não fluíram da parte do toureiro ou do apoderado?

PPC – Nem do toureiro nem do apoderado. Os triunfos não se arrancaram em praça, portanto aqui há uma equipa, não é do toureiro nem do apoderado. Portanto as coisas não correram como a equipa desejaria. E isso faz com que não engrene. Um jogador não titular não está tão bem posto como um que é titular. Neste projecto tanto o toureiro como o apoderado não conseguiram aquilo que pretendiam. Se o toureiro não arrancou o triunfo aqui ou acolá, se calhar o apoderado não arranjou a corrida que ele gostaria ou sei lá que mais, percebes?! Há um projecto conjunto que não funcionou como nós queríamos. E isso não permitiu entrar numa velocidade cruzeiro e que as coisas fossem surgindo. Houve cinco a seis corridas, não houve os resultados desejados e isso não trouxe o embalo previsível.

 

 

 

T/I – Depreendo que portanto por parte de Paulo Pessoa de Carvalho, este apoderamento não continua.

PPC – Essa é uma depreensão tua. Este apoderamento ou encontra uma resolução que permita rever o propósito para 2017 e ser eficaz para 2018 ou não continua. Portanto, não continua nem deixa de continuar.

 

 

 

T/I – Perante tudo o que já falámos, em que situação fica a presidência da APET?

PPC – A presidência da APET não é para aqui chamada. É chamada na APET. Eu como estou demissionário desde Maio mas não houve resposta para a minha demissão…

 

 

 

T/I – Não há ninguém que oficialmente queira ser líder da APET, mas será que há quem queira liderar na retaguarda?

PPC – Exactamente, oficialmente ninguém quer ser líder da APET, oficialmente.

 

 

T/I – Mas há sempre alguém para mandar…

PPC – Eu espero que sim, para quando eu me vier embora, fique lá alguém para mandar.

 

 

 

T/I – Mas agora em Outubro haverá uma assembleia da APET…

PPC – Porquê? As assembleias são no final do ano. As assembleias são até 31 de Março. Eu agora quando parar um bocadinho vou propor, porque até ao final do ano quero este assunto resolvido, como muitos assuntos na minha vida, e essa da APET será mais um. Mas não tem que haver uma assembleia, a assembleia pode ser até 31 de Março. E tem que haver uma resposta por parte do presidente da assembleia geral, da Sociedade Campo Pequeno, sobre a minha demissão. Isto tem estado em autogestão praticamente, e portanto é basicamente isso.

 

 

 

T/I – O que tem faltado à APET?

PPC – Eu acho que acima de tudo tem faltado união da classe empresarial. Eu neste momento nem sei bem o que dizer, acho que as pessoas funcionam muito numa perspectiva individual, muito centradas naquilo que são os seus problemas e as suas necessidades, e a APET nunca conseguiu ser na realidade uma estrutura corporativista. As pessoas não estão ali a trabalhar em conjunto. As pessoas estão ali quando a APET lhes convém ou quando a APET precisa está tudo bem, mas quando a APET toma uma decisão ou quando a APET vai contra algo que são as suas reais necessidades, parece que APET é altamente contestada e portanto tem sido um trabalho inglório.

 

 

 

T/I – Há muita tensão nas assembleias da APET como é divulgado por vários OCS?

PPC – Eu acho que isso é um bocadinho especulado. Obviamente que em alguns momentos há tensão e as pessoas gostam de pôr em cheque…

 

 

 

T/I – O que é que gostam de pôr em cheque?

PPC – Questionar tudo. As pessoas gostam de questionar tudo: decisões, coincidências de datas, estava a tentar lembrar-me quais as ultimas solicitações para as ultimas assembleias gerais mas nem me lembro…

 

 

 

T/I – A relação entre APET e Associação Nacional de Grupos de Forcados também poderia ser melhor…

PPC – A relação entre APET e ANGF é boa. Mas é boa porque os problemas e divergências não se levam até ao fim, porque se levassem até ao fim… O problema da nossa festa de touros é que as coisas funcionam aos soluços e são inconsequentes, e aqui eu terei que dar mão à palmatória. Às vezes as situações acomodam-se e as pessoas preferem não entrar em conflito e deixar as coisas andar.

 

 

 

T/I – Fazendo uma comparação, há uma ferida, toma-se um analgésico, mas não sara…

PPC – É basicamente isso. Metemos uma pastilha para as dores mas não se trata a maleita. E aqui como nos conhecemos todos, como isto é um meio muito pequeno, não queremos chatear com a associação de toureiros, não queremos não sei o quê com os ganadeiros, depois não queremos arranjar conflitos com a ANGF, e vice-versa… Atenção, isto não é a APET, são todos um bocadinho com os outros, e as coisas acabam por ir continuando a acontecer e as verdadeiras razões de fundo não serem resolvidas. O que eu sinto nesta nossa festa é o deixa andar…

 

 

 

T – E isso compromete o futuro da festa?

PPC – Eu acho que obviamente compromete o futuro da festa, porque as pessoas cansam-se…

 

 

 

T – Sente que neste momento que quem organiza um espectáculo e basicamente a maioria dos intervenientes pensa em tudo menos no público?

PPC – Isso discordo em absoluto.

 

 

 

T – Pode-se pensar no público mas minimamente…mas….

PPC – Mas pensar no público em que aspecto? Eu se organizo um espectáculo, penso que o público vai gostar do espectáculo. Pensar no público em que aspecto?

 

 

T – O público paga o seu bilhete e merece um espectáculo de qualidade. E segundo os comentários dos aficionados, às vezes os intervenientes…

PPC – Engana-se o público? É isso? Eu penso no público. E se eu porventura sinto o público defraudado fico triste por não ter sido capaz de fazer aquilo que era preciso e noutras situações quando as pessoas analisam o resultado final mas não sabem o que é que se passou. E isto reporta-se directamente ao caso de Vila Franca…Obviamente que não me dá qualquer tipo de satisfação que quem paga o seu bilhete saia da corrida insatisfeito. Porque esse cliente muito provavelmente irá a menos uma corrida a seguir. Eu não estou a pensar na minha relação directa. Quer acredites ou não, eu penso sempre na festa dos touros no seu todo.

 

 

 

T – Está a corroborar com a minha questão. Considera que em Vila Franca o ganadero pensou no público?

PPC – Eu nem comento essa vergonha. Nem quero comentar. Obviamente que não. E a corrida só foi por diante, como perguntaste à bocado, porque achei a determinada altura que o melhor era levar a corrida por diante. E pensei ter-se encontrado uma solução melhor que suspender a corrida.

 

 

 

T/I – Como vê o estado actual e geral da tauromaquia portuguesa?

PPC – Eu não gosto nada de ser pessimista mas também…

 

 

 

T/I – Não vale a pena colocar um analgésico na ferida.

PPC – Não vale a pena! Acho que a tauromaquia portuguesa tem um enorme potencial. Tem uma afición e um gosto que se as coisas forem bem-feitas que ela consiga sobreviver com saúde mais uns anos. Mas de facto há muitas coisas que têm que ser mudadas e como eu tive muito envolvimento na festa, fazem-me pensar que sair do palco e dar a direcção de orquestra a outros se calhar é melhor…

 

 

 

T/I – E esse possível outro maestro faria um trabalho melhor ou pior?

PPC – Muito provavelmente não sei mas tenho esperança que pudesse fazer melhor. Eu não faço ideia nem vou ajuizar. Eu acho que tudo o que é tempo demais é mau, e às vezes o sangue novo…

 

 

T/I – E acha que há sangue novo na festa?

PPC – Eu não sei se há sangue novo na festa. Não me perguntes qual é a solução ideal para aqui ou para ali porque eu não sei. Agora, o que eu acho é que mais do mesmo às vezes é mau. Pode ser que se encontre uma solução que seja positiva e diferente e venha alguém com outra motivação acrescida. O que eu penso? Não digo. Eu acho que isto está tudo…eu não quero dizer viciado, mas com hábitos instituídos, e pouco focados no resultado final de quem vai aos touros, eu não queria voltar aí.

 

 

T/I – Considera que todos os intervenientes da festa pensam apenas no lucro imediato e não a longo prazo?

PPC – Eu acho que se pensa um bocadinho mais no lucro imediato do que num plano projectado. Não estou a falar do meu caso concreto porque devo ser muito… Porque com o resultado deste ano devo ser mesmo muito… Mas eu penso que no geral, as pessoas pensam mais no dia-a-dia do que no amanhã.

 

 

 

T – Notei ao longo da entrevista que falou com sentimento. A festa brava toca-lhe mesmo nesse sentimento?

PPC – Obviamente que me toca. E por isso eu estar tão angustiado e amargurado… (emociona-se).

 

Entrevista: Toureio.pt/Infocul

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Notícia publicada a 16/10/2017


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