Pedro Mestre e Chico Lobo: 10 anos de amizade celebrados em Castro Verde

DVD Encontro de Violas 05 - Credito copyright Cineviola Filmes

DVD Encontro de Violas 05 - Credito copyright Cineviola Filmes

 

Castro Verde acolhe a 3 e 4 de Junho o VII Encontro de Violas de Arame. Pedro Mestre e Chico Lobo em entrevista ao Infocul abordaram este evento e também a actualidade musical no Portugal e Brasil.

 

 

A ideia da realização deste encontro, surgiu em Setembro de 2009, impulsionada por Pedro Mestre, no âmbito do Festival Planície Mediterrânica – Festival Sete Sois, Sete Luas, em Castro Verde. Reunindo-se quatro músicos portugueses, Pedro Mestre (Viola Campaniça), José Barros (Viola Braguesa), Vítor Sardinha (Viola de Arame da Madeira) e Rafael Carvalho (Viola da Terra/Açores), a eles juntaram-se três dezenas de tocadores da região, em espectáculos, oficinas conversas onde se partilharam experiências.

 

 

O sucesso desta primeira edição levou estes quatro músicos até aos Açores (São Miguel), onde decorreu o II Encontro de Violas de Arame, contando com a participação especial da Viola Caipira dedilhada por Chico Lobo (Minas Gerais/Brasil), o qual passou a integrar este Encontro.

 

 

A III e IV edição do Encontro de Violas de Arame, decorreram em Castro Verde, em 2011 e 2013 respectivamente, contando com a presença dos cinco músicos e de participantes que vieram de várias regiões do país, entre os quais, músicos, etnomusicólogos, tocadores e construtores de cordofones e de muitos curiosos que se deixaram seduzir pelas violas de arame. Depois, em 2015 e 2016, foi a vez do Brasil (Minas Gerais) receber a V e VI edição deste Encontro de Violas de Arame, onde foi aclamado pelo público.

 

 

Primeiro, é um grande prazer poder estar nesse sétimo encontro de violas de arame sendo que desses sete dois foram no Brasil. Um sonho realizado, um sonho que eu e o Pedro Mestre sonhamos desde o nosso encontro há 10 anos atrás e então o que eu quero trazer para esse encontro é a realidade que a viola tem hoje no Brasil. Após 10 anos de relacionamento com Pedro Mestre, das nossas violas se reencontrarem, porque é o reencontro da filha com a mãe, porque a nossa viola caipira brasileira descende das violas de arame de Portugal e em 2006 elas se reencontraram” começa por nos dizer Chico Lobo sobre o evento.

 

 

Acrescentou que “elas já se conheciam mas eu e o Pedro Mestre não nos conhecíamos e de lá para cá muita coisa tem acontecido. Tanto aqui em Portugal, mas disso o Pedro fala super bem,  mas a gente também consegue perceber quando a gente voltou para poder gravar o dvd “Do Alentejo para Minas Gerais”. Era muito claro a evolução das violas de arame a partir do encontro e no Brasil a mesma coisa. O Brasil é uma outra realidade. A viola caipira é um instrumento que carrega o símbolo de um brasil interior, de um Brasil que eu gosto de dizer ‘Brasil profundo’. A gente hoje vive um momento onde o meu estado, a minha região que é Minas Gerais, está a fazer um trabalho para salvaguardar a viola como bem material de Minas Gerais. Então essa experiência, a partir das idas do Pedro para o Brasil, a partir das duas mostras internacionais de violas de arame, a partir dos violeiros brasileiros se interessando pelas violas portuguesas, essa experiência que eu quero trazer para a minha fala. Depois e poder reencontrar os amigos e que as violas possam tocar juntas de novo para que as pessoas possam entender que é possível a partilha das culturas sem uma cultura se sobrepor a outra”.

 

 

 

A viola caipira, a gente tem que entender antes dela ser chamada caipira, quando ela descende da viola de arame de Portugal, foi uma viola da corte. Foi uma viola no Rio de Janeiro onde na época do imperador D.Pedro II se tocava os lunduns imperiais, as modinhas imperiais. Tudo começa a chegar, o que é chamado no Brasil de violão, vocês conhecem como guitarra clássica. A viola foi então saindo do grande centro urbano, da corte que era o Rio de Janeiro e entrando no Sertão. Então, ela hoje é reconhecida como um instrumento que fala o quotidiano do homem do interior. Por isso que eu acho que me apaixonei tanto pela viola campaniça. Porque o significado de campaniço, aquele que lida com a terra, o homem do campo, é muito próximo ao do caipira. Então a gente tem vários ritmos. A chamada música caipira brasileira é tocada nas cordas da viola só que a viola vive um momento onde a juventude lá no brasil se interessa em tocar a viola, em se reconhecer enquanto identidade cultural porque a viola é campeã nisso e o jovem chega com a sua leitura no Rock, no Chorinho, no Jazz… Então a viola hoje também e vista como um instrumento que tem muitas possibilidades e que essa geração nova começa a partir das suas vivências, dos seus estudos, a mostrar essas potencialidades que a viola tem. Então ela rompe o Sertão, chega com muita forca nos grandes centros urbanos do brasil. Hoje a gente tem no Brasil todas as pessoas tocando viola, acabámos de ter um grande seminário de viola lá em Belo Horizonte, a minha cidade, e a própria mostra de violas de arame que aconteceu em 2015/2016 é prova disso porque despertou interesse de tantos e tantos violeiros que foram conhecer as violas portuguesas. Ela reflete a cultura do interior, a cultura chamada caipira, a cultura daquele homem que lida com a terra mas hoje ela também já se aplica nos grandes centros urbanos com novas leituras que a juventude vem trazendo e eu como uma pessoa que abraça a viola há mais de 30 anos posso dizer o seguinte, isso tudo é muito saudável mas só é possível uma árvore crescer, o seu tronco, a sua copa agigantar para que a viola possa ter varias experiências, se as raízes estiverem bem fundas no solo, no caso da viola no solo da tradição. É necessário que o jovem chegue com a sua experiência, chegue com a sua vontade de tocar viola, colocar a sua digital mas que ele reconheça e aprenda a cultura e a história, tradição e as crenças de um instrumento que para mim é o instrumento que tem a alma do Brasil” acrescenta sobre as potencialidade da viola caipira e sobre os géneros onde a mesma se pode enquadrar.

 

Pedro Mestre será o anfitrião deste encontro. “A minha viola campaniça e a anfitriã de todas estas violas. A viola campaniça que leva mais uma vez as suas parentes e trazendo mais algumas, que o encontro acaba por ter como objectivo ao longo das varias edições crescer enquanto violas convidadas e há-de chegar a uma altura em que pretendemos ter todas aquelas que existem. Porque há algumas que nos não nos devemos de esquecer daquelas que estão e são conhecidas de todos mas sobretudo daquelas que são cada vez menos faladas e que acabam por se perder. E ao longo destas edições a intenção do encontro começa com o cruzamento da campaniça com a caipira , é que possam todos os anos se trazer violas. A família vai crescendo. Este ano tem uma particularidade que é de todo interessante, vamos com este encontro comemorar em Castro Verde 10 anos do encontro de violas com da campaniça com a caipira. Nesses 10 anos nós fazemos esta festa de comemoração e então trazemos os parentes, as nossas violas desde a braguesa, a amarantina, a beiroa… Acrescentamos esta ano a toeira da região de Coimbra e o cavaquinho que é mais um instrumento que é de todos o mais conhecido há mais tempo mas fazemos questão de o convidar também a estar presente. A campaniça vai este ano apresentar para este encontro também um espaço que está a crescer em Castro Verde, que é o Centro de Artes e Ofícios da Viola Campaniça. É um projecto criado dentro de pouco tempo sendo inaugurado enquanto espaço para a viola campaniça. Mas apresentar esse espaço às outras violas, nos objectivos a alcançar com aquele edifício, com aquele projecto. Vamos também, de certa forma, lançar o desafio a todas as outras violas de uma temática e de uma preocupação nossa desde há uma serie de encontros a esta parte que é sempre abordada nas nossas conversas, nas nossas discussões e é a nossa intenção e estamos a trabalhar nesse sentido. Cada um no seu espaço, no seu território enquanto organização daquilo que existe, daquilo que se possa vir a fazer para cada uma das violas e que todas juntas se possa apresentar uma candidatura a uma Unesco. Porque não a viola de arame portuguesa como património da humanidade? Neste caso cultural material e imaterial, porque é de todo importante perceber que o instrumento deve continuar a ser construído de acordo com os requisitos da tradição e que não passa a ser uma construção universal e que na verdade o que muda é o nome. As características de cada um dos instrumentos também enquanto construção do mesmo devem ser também salvaguardadas porque a campaniça, que tem vindo a crescer nos últimos 20 anos. A campaniça tem vindo a ser instrumento de interesse por parte da juventude e de músicos. Temos desta forma, com este encontro, também perceber que é necessário ajudar outras parentes que precisam desse crescimento e são essas que estamos a chamar para o encontro. recentemente a beiroa tomou uma dimensão muito grande na região de Castelo Branco, nos últimos 3 anos o instrumento tem vindo a crescer, tem vindo a trazer juventude para aprender a tocar este instrumento. Vamos ter um dos mestres que vem de Castelo branco, vamos ter o Ricardo Fonseca que desenvolve também um trabalho numa outra perspectiva em relação à viola beiroa e também a campaniça e este ano trazemos a toeira, que no meu entender parece ser um dos instrumentos também pouco falados e desta maneira há-de haver um dia em que todas estão juntas, há-de haver um dia em que todas elas serão reconhecidas a nível internacional e nesse sentido que nós queremos avançar e estamos a convidar para este encontro gente que tem conhecimento e que nos pode ajudar muito na elaboração desta candidatura das violas de arame portuguesas à Unesco” refere.

 

 

Pedro Mestre que de alguns anos a esta parte desenvolve o projecto “Cante nas Escolas” que incentiva e dá a conhecer o Cante Alentejano aos mais novos. O músico revela que no seu “entender desde muito cedo que a viola campaniça é parte integrante do cante. É preciso perceber que era um dos instrumentos que durante muitos anos acompanhou o cante coral, o cante do Alentejo seja ele colectivo ou individual, e também o improviso. E faz todo o sentido e de certa forma foi para mim nessa época, há 10 anos atrás quando eu começo este projecto, uma ferramenta importantíssima para a sensibilização das crianças para com uma realidade cultural que era de certa forma desprezada e pouco apreciada pela juventude e o facto de mostrar que na verdade existe mais para além daquilo que vocês conhecem, o cante que vocês conhecem não é só o cante local da taberna ou da discrição que era feita por muitos alunos meus ‘o meu avô canta quando esta com os copos’. Não é só isto. Há muito mais e a campaniça é uma viola solista, é uma voz que se junta as outras vozes como eu lhe chamei, então ela canta. Eu ensino o cante e apresento a campaniça e quer queiramos, quer não, as várias opiniões surgem. Foi também por essa via que o cante alentejano conseguiu conquistar a juventude e é esse um dos planos de salvaguarda importantes para o cante, o ensino através também das escolas e com a tal ferramenta que é a viola campaniça. Nesse sentido eu passo também a sensibilizar as crianças para o instrumento e passei a ter alunos e começam a surgir projectos nas escolas, começam a surgir outras pessoas a dinamizar este tipo de projectos e a juventude a chegar mas antes disso há um trabalho que é de todo importante, que é o dar a conhecer o instrumento. É que nos não podemos fazer e gostar de uma coisa que não conhecemos. E eu com o mestre Manuel Bento, durante uma década corremos todos os festivais do país a tocar viola campaniça, a fazer workshops de viola campaniça, as tais oficinas de viola campaniça em que demos a conhecer o instrumento para uma comunidade de músicos que frequentava este tipo de festivais e que depois passaram a adoptar este instrumento nos seus trabalhos e então hoje encontramos a viola campaniça a tocar outras realidades musicais em que o instrumento é respeitado com a sua base, na sua raiz e há assim esse interesse por parte da gente que estuda a música da tradição e que a partir da música da tradição, criam outro género musical seu mas há sempre esse interesse em querer saber as raízes da tradição da campaniça. É por isso mesmo que hoje encontramos gente a tocar campaniça no Minho, por todo o norte do pais, no sul até. Que não seja só a tradição mas também a evolução do instrumento e a fusão dele em outras realidades. É um trabalho feito de preocupação, não só de…é importante tocar a campaniça com a técnica tradicional mas também é importante dar a conhecê-la e se nos não a levarmos para os palcos, se não a levarmos para as rádios, para os meios de comunicação que existem cada vez mais, até mesmo a internet tem sido fundamental nos últimos anos, não estamos a conhecer aquilo que existe, não estamos a dar a possibilidade de conquistar outras pessoas, outros públicos, outras gentes e casa vez mais se percebe que o instrumento tem vindo a crescer e hoje em termos de construtores, eles provam isso porque o instrumento é uma peça que faz parte dos espaços comerciais da música. A campaniça passou a ser um dos instrumentos a ser comercializado nesses espaços. Uma realidade completamente diferente. Quando eu queria campaniça para mim não tinha. Era um instrumento velho dos mestres que depois fomos obrigados a construir e a querer desenvolver , a querer estruturar a construção com uma serie de gente que chegara e hoje temos violeiros. Nós chamamos de violeiros aos construtores dos instrumentos tradicionais portugueses quem passaram também a construir a campaniça, e felizmente a comercializar a viola campaniça para o pais inteiro. Claro que não vamos ser perfeccionistas ao ponto de ‘não é a mesma coisa, não são instrumentos construídos no Alentejo’. As características é importante referenciá-las para que se possa respeitar o instrumento enquanto instrumento de tradição, enquanto instrumento que se chama campaniça. Não é chamar campaniça a uma viola qualquer” refere.

 

 

Este encontro acontece em Castro Verde, ao invés de acontecer num dos grandes centros urbanos, Lisboa e Porto. Pedro Mestre explica que “no meu ponto de vista enquanto alentejano, para já é fazer perceber as pessoas que este encontro não foca só a inovação, o instrumento, mas também é importante saber que o instrumento existe na tradição e é importante ir beber na fonte. A campaniça, que é a anfitriã, a campaniça que é na verdade aquela que cria toda esta dinâmica e todos estes encontros, tem a ir levar gente à sua terra para perceber que sim, é aqui que esta cultura existe e é desta forma e maneira que é por isso que tem a importância que tem. Ela é um instrumento de uma música local, não de uma música clássica, elaborada, estudada. É algo do povo e é preciso perceber isso. O objectivo deste encontro e fazer com que ele aconteça nas várias regiões em que a viola de arame está presente e depois por um outro motivo que é o fundamental de todos eles” antes de acrescentar que “Castro Verde tem sido, sem dúvida nenhuma, o município, das violas que estão envolvidas, que dá a cara, que paga para acontecer este evento lá. Não é só por questões culturais, é sim uma Vila, uma série de entidades culturais, parceiros que se juntam a nós e que apostam nesta iniciativa que tinha de começar por algum lugar e eles pagam para que a viola caipira venha a Castro Verde, para que a viola braguesa, minhota e amarantina vá até Castro Verde e oferecem-nos condições porque nós não podemos deixar de perceber que não é de todo fácil que isto aconteça. Tem que haver alguém que nos apoie e felizmente temos tido estes parceiros, que é precisamente a Câmara Municipal de Castro Verde que financia a 100% este encontro”.

 

 

 

Pedro Mestre acrescenta ainda que “aproveitamos e convidamos todos a estarem presentes, principalmente os aficionados, os apaixonados por este tipo de música e por cultura porque é o que se vai beber naquele espaço. Aquele momento é cultura e troca de experiências para que todos nós possamos poder aprender e transmitir alguma sabedoria daquilo que é a nossa labuta do dia-a-dia no trabalho de transmissão, aprendizagem, salvaguarda desta questão da tradição das violas de arame”.

 

 

Neste encontro participam:

 

OS TOCADORES

PEDRO MESTRE – Tocador de Viola Campaniça (Alentejo )

VÍTOR SARDINHA – Tocador de Viola de Arame (Madeira)

RAFAEL CARVALHO – Tocador de Viola da Terra (Açores)

JOSÉ BARROS – Tocador de Viola Braguesa (Minho)

CHICO LOBO – Tocador de Viola Caipira (Minas Gerais/Brasil)

 

CONVIDADOS

ALÍSIO SARAIVA – Tocador de Viola Beiroa (Beira Baixa)

RICARDO FONSECA – Tocador de Viola Beiroa (Beira Baixa)

JOÃO VILA – Tocador de Viola Toeira (Beira Baixa)

EDUARDO COSTA – Tocador de Viola Amarantina (Douro Litoral)

JÚLIO PEREIRA – Tocador de Cavaquinho (Minho)

 

ORADORES

-Prof. Domingos Morais – Professor/Etnomusicólogo –  IELT, Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa

– Prof. Manuel Morais – Musicólogo/Professor Associado Jubilado da Universidade de Évora

– Dr.Paulo Lima – Antropólogo/ Diretor da Casa do Cante de Serpa / Coord. da Candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

– Profª Salwa Castelo – Branco – Professora e Etnomusicóloga / Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança – Universidade Nova de Lisboa 

Partilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Notícia publicada a 01/06/2017


About the author /


Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

_