Rão Kyao: “Aventuras da alma” em entrevista

RAO KYAO

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João Maria Centeno Gorjão Jorge mais conhecido como Rão Kyao lançou recentemente o seu último trabalho discográfico, intitulado “Aventuras da Alma”. O seu percurso artístico é reconhecido por todos e a flauta de bambu e o saxofone dois instrumentos que fazem parte da sua carreira. É também um exímio compositor e uma referência para muitos músicos da nova geração.

 

 

Neste disco flautas de bambu e a sua voz  criam uma ligação espiritual com a viola clássica e a braguesa de Toni Lago Pinto, os teclados e acordeão de Renato Júnior, a bateria de André Sousa Machado, as percussões de Ruca Rebordão e a voz de Rita Maria, convidada no tema “Sete Sóis”.

 

 

Rão Kyao começa por nos revelar que “eu quando faço um disco gosto sempre de ter um fio condutor” e que em “Aventuras da Alma”, “andei um tempo à procura do fio condutor e esta ideia depois de mais ou menos, não sei se o meu amigo está mais ou menos familiarizado com o que terão revelado, mas um bocado esta coisa do mundo mágico que foi descoberto através de um conto imaginário entre os duendes da floresta e os gnomos e a música tradicional de uma festa da aldeia. O que é que acontece, o que eu acho que despoletou realmente esta ideia de fio condutor foi eu ter ouvido, não sei se terá sido completamente mas em grande parte talvez um poema do Antero de Quental chamado “As Fadas“, antes de acrescentar que este poema é “um tesouro poético da infância dele, do poeta Teófilo Braga, onde ele descreve as fadas de uma maneira absolutamente extraordinária. Uma incursão ao espírito infantil, uma coisa riquíssima, extraordinária. Então este processo depois de certa maneira modelou os temas porque comecei a imaginar uma série de entidades da floresta e da natureza que no fundo tem uma certa maneira de nos fazer penetrar na sua sensibilidade e os temas foram surgindo a partir dai”.

 

 

O músico e no fundo qualquer tipo que se confronta com algo e que o põe em contacto com o mundo criativo ou com o processo criativo está-se a encontrar com o infinito de certa maneira. Uma coisa extraordinária porque a gente compreende que as possibilidades da música são infindáveis. Ninguém pode sondar, não pode conceber o infinito com uma mente finita, não é?! Mas as possibilidades são extraordinárias e então o que é que acontece? Nós estamos sempre a ver o que é que nós temos ou fizemos, se a gente olha para o nosso passado como aquilo que já fiz ‘o que é que já fiz? Já fiz isto e contento-me ir por aquele caminho porque já o explorei’. Mas vendo tudo o que fiz comparado com as possibilidades que a música tem para me dar não é nada. É muito pouco. Está tudo em aberto” diz-nos quando questionado o que lhe falta fazer na música.

 

RAO KYAO PARQUE DE MONSERRATE SINTRA 09-04-2017

 

Eu acho que é completamente universal até porque eu até tenho discos mais debruçados ou sobre o fado ou sobre a música tradicional portuguesa, mais especificamente para este lado mas a coisa mudou toda. Sabe porquê? Porque numa certa noite os gnomos e os duendes entraram na festa e a partir desse momento começa a abrir. Alice fez de repente o país das maravilhas e então é muito difícil a gente estar a pôr barreiras e fronteiras no país das maravilhas. Portanto tem uma universalidade muito grande até porque eu vou buscar uma série de entidades espirituais a vários sítios. Não quis buscar só, por exemplo ao Hinduísmo ou ao povo Urubá, quer  dizer… Todas juntas no fundo vão mostrar que esta abertura dada pelos gnomos e pelos duendes foi bastante universalista mas nunca esquecendo que o encontro foi com uma festa portuguesa. Portanto com isto quer dar um sentido que não é uma festa qualquer de música que entram. Não! É uma festa portuguesa. Há sempre um substrato português que eu quero sempre pôr mas no fundo aponta um pouco também para o português no mundo. Acaba à sua maneira a apontar para isso” diz-nos sobre este disco.

 

 

Eu espero que tenha uma marca no sentido que representei, que apresento a combinação de dois elementos fundamentais enquanto para mim. Para alguém dizer ‘sou fã do músico’, para mim deve ter dois pontos fundamentais. Estou a falar de um músico improvisador que compõe dois aspectos: deve ter uma consciência muito grande das suas raízes e da possibilidade que há à volta disso mas ao mesmo tempo estar com um sentido apurado de encontrar e descobrir coisas novas. E portanto é uma contradição, a pessoa tradicionalista com a pessoa inovadora e o inovador com o tradicionalista. A combinação destas duas para mim é um momento muito importante e é isso que eu quero que as pessoas pensem de mim nesse aspecto” diz-nos sobre a marca que pensa deixar na música portuguesa.

 

 

Eu tenho imensa pena mas qualquer elogio que eu tenha dos meus pares vale mais que os outros. Eu ouvi dizer uma vez que se a gente faz uma certa e determinada prestação musical num concerto e o nosso mestre diz que gosto, venha quem vier a partir dai. Bom…quando certos músicos, eu há certos músicos que são músicos dos músicos e eu gosto de pensar que sou isso. Quer dizer, há músicos que são só músicos do público, não é?! E depois há uma combinação dos dois: Músicos e do público. Eu gosto de pensar que na realidade os meus pares sentem que eu tenho qualquer coisa a dizer que possa influenciar no bom sentido e isso para mim é uma grande alegria” comenta sobre o facto de muitos músicos o terem como referência.

 

 

Depende. Para mim é a composição porque sou músico mas se estiver a falar com um poeta…” diz-nos quando o provocámos sobre se numa música era mais importante a letra ou a melodia. Acrescentou ainda que “a letra é muito importante porque evidentemente estou a contar uma história através da letra e tenho que a contar bem. Agora evidentemente que eu puxo para o meu lado mas dou muita importância, inclusivamente a interpretar o fado. Eu gosto muito de estudar bem a letra do fado para perceber, porque é a letra que vai dar o conteúdo emocional à canção que nós vamos cantar e então através da letra tocamos as notas de uma certa maneira para corresponder a emoção lançada pela letra”.

 

 

 Raiz voadora” é a definição que encontra para o seu percurso na música quando foi por nós desafiado a escrever toda a vida artística numa única palavra. Depois de muito pensar disse-nos duas, e nós aceitámos, porque para Rão Kyao, tal como a sua música, não pode nem deve haver barreiras.

CAPA_ RAO KYAO

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Notícia publicada a 04/07/2017

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