Teresa Salgueiro: “Foram 20 anos da minha vida que eu dediquei aos Madredeus e vice-versa e portanto é um percurso extraordinário que fizemos juntos”

teresa salgueiro

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Teresa Salgueiro na Aula Magna em Lisboa a 18 de Novembro, pelas 21:30. O Horizonte e a Memória serão o fio condutor de um alinhamento que passará por quase 30 anos de carreira. Ao Infocul, Teresa Salgueiro aborda o concerto a carreira, os Madredeus, o seu lado mais pessoal e ainda o que pensa sobre o futuro.

 

 

 

Teresa, o que está a ser preparado em termos de espectáculo para 18 de Novembro na Aula Magna?

 

No dia 18 na Aula Magna vou apresentar “O Horizonte e a Memória”. O repertório baseia-se num álbum que foi publicado o ano passado, um álbum de originais que se chama “O Horizonte” e também na interpretação de uma série de arranjos ou de arranjos que fiz para uma série de temas que pertencem à nossa cultura musical e poética. Temas que pertencem à nossa memória, que para mim são estruturais e com os quais presto homenagem a autores, a intérpretes que muito admiro entre eles, claro está haverá um lugar para a interpretação de temas dos Madredeus.

Comigo no palco estarão: na bateria, percussão e guitarra o Rui Lobato, no contrabaixo o Óscar Torres, no acordeão o Nelson Almeida e na guitarra, para minha grande alegria, vai estar comigo no palco ao fim de 11 anos de um período em que não nos cruzámos nunca mais, vou ter a alegria e a honra, de ter na guitarra o José Peixoto.

 

 

 

Além da sua discografia a solo, irá revisitar temas dos Madredeus?

Bom esta resposta já foi dada com a pergunta anterior, sim vou apresentar alguns temas dos Madredeus. É uma coisa que já acontece, nos meus concertos há cerca de 2 a 3 anos. Comecei a tocar 1 ou 2 temas. Neste concerto em particular “O Horizonte e a Memória”, há um lugar um bocadinho maior para re-visitar essa memória que me é tão próxima, que faz parte do meu ADN e que não é só próxima a mim, felizmente há muita gente que partilha da lembrança da música dos Madredeus.

 

 

 

Sente que os Madredeus serão sempre associados a Teresa Salgueiro e vice-versa?

Não é uma questão de sentir, é a realidade e será sempre a realidade. Foram 20 anos da minha vida que eu dediquei aos Madredeus e vice-versa e portanto é um percurso extraordinário que fizemos juntos. Os Madredeus foram, durante 20 anos, a minha grande escola de música e para sempre farão parte da minha memória e da minha personalidade artística. Inevitavelmente dediquei, como dizia 20 anos, de corpo e alma à música dos Madredeus e 20 anos não se apagam, é uma parte da história da música portuguesa que existirá para sempre e portanto serei sempre associada aos Madredeus e eles serão sempre associados a mim. Estranho seria que não fosse dessa forma.

 

 

 

Como reage a esta ligação quase automatizada que o público faz?

Eu não reajo de nenhuma forma particular. Não é uma questão de reagir, esta é a realidade e portanto muito naturalmente as pessoas associam-me ao grupo e eu faço parte dele e ele faz parte de mim, portanto reajo com naturalidade. Não é uma questão de reagir, é a minha natureza, também está na minha natureza, essa história e estará para sempre.

 

 

 

Neste espectáculo prestará homenagem a nomes como Amália Rodrigues, José Afonso, Carlos Paredes, entre outros. Quem são as suas grandes referências musicais em termos nacionais?

São estas três, precisamente as minhas grandes referências na música portuguesa, claro que há outras e muitas delas estarão representadas nesta memória que é partilhada com o público, neste concerto. Mas são realmente estas três figuras: a Amália Rodrigues, Carlos Paredes e o Zeca Afonso, que me ajudaram desde muito jovem a criar uma imagem da portugalidade, imagem essa que sempre me inspirou e continua a inspirar nesta procura do meu caminho na música. Deixaram uma obra vastíssima e revolucionaram o estilo da música que faziam: no caso da Amália o Fado, o Carlos Paredes a forma como toca a guitarra portuguesa e como compõe para esse instrumento e o Zeca é um poeta e um compositor muito original e que faz uma música de raíz portuguesa profunda e que também consegue fundir a música portuguesa com outras músicas, como é o caso da música Africana, onde ele também viveu algum tempo. E estas três figuras deixaram-nos um manancial de inspiração, que é extraordinário.

 

 

 

E em termos internacionais?

Eu gosto de escutar todos os estilos de música, portanto em termos internacionais, desde a música barroca aos compositores clássicos românticos, ópera, depois às músicas de cada país, como por exemplo a música brasileira ou a música da América Latina, em geral, tem um papel muito importante para mim. Vários compositores brasileiros, vários intérpretes, cantores como exemplo como a Elis Regina, ou se formos falar do jazz da música americana, Ella Fitzgerald, a Piaf na música francesa, são muitos os músicos, os intérpretes e os compositores. Eu amo profundamente a música e como disse ouço música de todos os géneros.

 

 

 

Há algum artista com quem gostasse de fazer um dueto e ainda não tenha sido possível? Se sim, qual ou quais?

É curioso que esta pergunta têm sido recorrente em todas as entrevistas que tenho feito ultimamente e penso que os duetos estão na moda, por assim dizer. Eu fiz vários duetos ao longo da minha vida, mas curiosamente todos eles partiram dos artistas que me convidaram para fazer esses duetos. Eu nunca tive essa iniciativa e na minha cabeça não existe muito essa… admiro muito muitos artistas, mas normalmente não imagino gostava de cantar com ou vou convidar para… Já tenho falado de alguns artistas com quem gostava de participar, mas de facto não é essa a minha… não quer dizer que isso não venha a acontecer, mas também se acontecer acho que é mais interessante que seja uma surpresa.

 

 

 

Quem é Teresa Salgueiro fora do palco? O que gosta e lhe dá prazer fazer quando não canta?

Fora dos palcos, eu sou uma pessoa bastante normal, ou seja, no sentido em que tenho uma vida muito dedicada à música, à preparação daquilo que apresento nos palcos, portanto são muitas e muitas horas em ensaios ou em retiros para preparação da música ou para a escrita das letras. E acabo por ter muito pouca vida social, tenho alguns amigos que mantenho ao longo dos anos, com quem gosto muito de estar, mas depois, quando tenho tempo livre, gosto de estar com a minha família e amigos, gosto de conversar, ouvir outras pessoas, gosto de ouvir entrevistas de pessoas que admiro, por exemplo de músicos e de actores. Tenho um grande respeito pelos actores, penso que são pessoas de um valor extraordinário e de uma coragem e de um abandono à vida, que são um exemplo. Gosto de ler, de passear, de fruir a vida, eu tenho um grande amor pela vida… De fruir, de passear ao ar livre, seja à beira mar, seja no campo, em contacto com a natureza. Gosto muito de estar em contacto com a natureza e que me inspira muito. Sou uma pessoa bastante ligada com a natureza, que me sinto muito feliz, facilmente, com muito pouco, estando em contacto com o mar ou pudendo estar em contemplação ou mesmo nas cidades, indo a uma exposição, quer dizer, sou uma pessoa que acho que a vida nos dá tanto e que nós podemos…no fundo não há tempo que chegue para podermos fazer tudo aquilo que.. entrar em contacto com tanto conhecimento, com tanto… com toda a realidade. Gosto de observar e pensar o mundo e imaginar formas de tornar este mundo num mundo melhor, mais justo, com uma melhor distribuição dos bens essenciais, é uma coisa que me faz muita confusão, esta perpétua condição humana, em que perante uma natureza tão extraordinária da qual fazemos parte, nós não conseguimos… há traços do carácter humano que continuam a impedir ao longos dos séculos que a distribuição dos bens essenciais seja mais igual e isso é também uma das coisas que faz com que faça música, portanto voltamos ao mesmo, há toda esta fruição do mundo para depois fazer música e escrever.

 

 

 

É possível olharmos o horizonte sem refletirmos sobre as nossas memórias?

O horizonte representa o sonho, a nossa capacidade de sonhar e o caminho que empreendemos em direcção aos nossos sonhos. O nosso contacto com o mundo tangível e com aquilo que nós tocamos e que nos toca a nós, que nos modifica; a nossa mudança constante em direcção aos nossos sonhos. O sonho é aquilo que eu acredito que é o motor da existência humana, ou seja, sem sonhos, sem essa capacidade de sonhar e sem uma expectativa de transformar o mundo, já não existiríamos enquanto raça. E realmente sem a memória também seriamos muito pouco, porque as memórias são as nossas raizes, que constituem o nosso corpo e a nossa identidade é aquilo que nos somos é muito a nossa memória que nos estrutura nas nossas escolhas, as nossas boas e mas memórias vão-nos construindo a nós mesmo e ajudam-nos a projectar aquilo que queremos construir no futuro e aquilo que não queremos voltar a encontrar.

 

Esta ligação é feita através da interpretação de temas tanto do álbum O Horizonte, como eu digo, representa os nossos sonhos, o nosso olhar para o futuro, o nosso caminho para o futuro e a interpretação de temas que pertencem a todos nós, que fazem parte da nossa memória colectiva e que eu gosto de reviver para os quais fiz arranjos ou adaptações; muitos deles são arranjos originais, portanto é uma re-leitura desses temas, estando a falar de temas de memória, estamos também a ver uma leitura actual e a vivência em palco; o facto de cantar essas músicas que tem algum tempo, umas são mais actuais e outras são mais antigas, do continuar a fazer com que elas tenham vida, é precisamente a ideia que atravessa, no fundo, todo o meu percurso e a visão que tenho sobre a vida. A importância que é sonharmos e acreditarmos que podemos transformar o mundo para melhor e termos uma consciência do lugar de onde vimos e de quem somos, porque nos estruturamos precisamente também nas nossas memórias, não só, mas a memória esta constantemente acontecer. A partir do momento que vamos avançando no tempo, claro que a memória se torna, não estamos a falar da memória de detalhes sem importância, a memória, nos também a escolhemos, nós também de certa forma elegemos aquilo que vale a pena lembrar. mas é precisamente esse exercício também daquilo que nos achamos que vale a pena fazer parte da nossa estrutura, a escolha de quem somos. porque nos também vamos escolhendo quem somos ao longo da vida, ou pelo menos estamos nessa aprendizagem.

 

 

 

 

Para 2018, quais as novidades que Teresa Salgueiro terá?

Eu não faço projectos a muito longo prazo, portanto todo um ano é um espaço de tempo bastante vasto em que podem acontecer muitas coisas. Eu espero ter saúde para continuar a fazer este concerto aqui em Portugal e noutros países; eu com O Horizonte eu já estive na Turquia, na Suiça, no Brasil, em Taiwan, na Macedónia, em Itália e em Espanha. Portanto esta viagem há-de continuar com este concerto e entretanto há surpresas, ha coisas que vão acontecendo na nossa vida de viagem, que é possível que dêem origem as outras musicas e depois certamente algures no próximo ano vou procurar um momento em que me vou dedicar à criação de novo repertório para depois voltar a gravar, não sei ainda quando, mas é vivendo um dia após o outro e essa é a minha forma de estar na vida, valorizar o momento. Cada vez mais aprender a valorizar o momento em que estou e as inúmeras lições que às vezes os mais pequenos detalhes contém para que nós possamos aprender a caminhar com o coração sempre cheio de esperança.

 

 

 

Como convida o público a ir ao espectáculo na Aula Magna?

Convido todos aqueles que queiram estar presentes a partilharem comigo e com os músicos que são na bateria, percussão e guitarra o Rui Lobato, no contrabaixo o Óscar Torres, no acordeão o Nelson Almeida e na guitarra para grande alegria minha e pela primeira vez ao fim de 11 anos, o extraordinário músico que é o José Peixoto, para virem connosco partilharem momentos de música, de escuta, de reflexão, de sonho e de lembranças de Horizonte e Memória.

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Notícia publicada a 14/11/2017


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