Uma entrevista Mano a Mano

_MG_0136_Paulo Segadães

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André Santos e Bruno Santos são irmãos e guitarristas. Juntos fazem o Mano a Mano, projecto que tem novo disco a sair a 13 de Outubro. Trabalham juntos faz tempo, mas o primeiro disco apenas saiu em 2014. Em entrevista ao Infocul abordam o percurso enquanto projecto e também o que esperar deste novo disco.

 

 

 

Quando começou a ser pensado este disco, “Mano a Mano”?

BS – O disco começou a ser pensado no início deste ano. O anterior foi editado em 2014, sentíamos necessidade de pôr cá fora um novo disco dos Manos.

AS – Sentíamos essa necessidade e quando eu voltei do meu mestrado no conservatório de Amesterdão, há cerca de um ano, começámos a debater ideias e decidimos que este disco seria somente em duo, ao contrário do anterior, que era maioritariamente em quarteto.

 

 

 

Por entre composições próprias e outras de autores conceituados como Tom Jobim, quais os critérios usados para a construção deste alinhamento?

BS – Há só um critério, escolher canções que nos dizem algo, e que de alguma maneira nos ligam. O Tom Jobim foi um compositor importante nas nossas vidas, com ele aprendemos o que é construir uma boa melodia, rigor harmónico, bom gosto, uma série de qualidades que são transversais a todos os grandes músicos. Mas, essencialmente, tocamos aquilo que nos preenche e aquece a alma, e tentamos que as pessoas que nos ouvem vão para casa felizes e nos queiram ver ou ouvir outra vez.

AS – É só mesmo esse critério, canções que nos movam de alguma forma. Muitas delas têm histórias por detrás e desvendam um pouco da nossa história, por exemplo, gravámos um tema chamado ‘Trinkle Tinkle’, do grande compositor e pianista Thelonious Monk, que é a primeira faixa do primeiro disco de Jazz que o meu irmão me ofereceu.  

 

 

 

Qual a mensagem, ou as principais mensagens, que pretendem transmitir com este disco?

BS- Eu diria que não há nada pensado de antemão para passar. Aquilo que queremos transmitir é o nosso amor pela música e o modo despretensioso e desprovido de protagonismos com que tocamos. A música pela música. A principal mensagem é que ainda vale a pena sair de casa para ver e ouvir um bom concerto, e nós acreditamos que quem nos ouve vai para casa bem disposto. Queremos que se sintam na nossa sala de estar, oiçam as canções de que gostamos, as histórias que vamos contando e que queiram sempre voltar, ou que levem o nosso disco para casa.  

AS – Embora sem pensarmos nisso previamente, a principal mensagem que nos dizem receber quando nos veem é a da bonita empatia que temos um com outro, tanto musical como pessoal. Temos de facto uma óptima relação e ficamos contentes que isso passe de forma natural e que as pessoas saiam dos nossos concertos mais alegres.

 

 

 

Quais são as vossas grandes referências na música?

BS – Há tantas. As grandes referências são os músicos que fazem música com alma, coração e amor. A música ainda é, e tem de ser sempre alma e coração, e não uma sequência de notas ou de acordes. Tem que ter um caminho, ir para algum lado, tem que ter concretização. Se juntarmos a isso o respeito pela música e por quem nos gosta de ouvir e ver, não pode falhar! Eu posso citar alguns nomes, que estão de alguma maneira relacionados com fases importantes na minha vida, mas não são necessariamente mais ou menos importantes que os que não constam aqui: Tom Jobim, João Gilberto, Pat Metheny, Bill Evans, Herbie Hancock, Stan Getz, Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Percebo que escrevo estes nomes e estou a deixar muitos e muitos de lado. Não valeria a pena continuar.  

AS – Há de facto músicos que estudei de forma mais aprofundada, mas as minhas grandes referências são músicos com personalidade, que tocam com honestidade e que tocam das entranhas mais profundas do ser. É isso que me interessa na música!

 

 

 

Quais as grandes diferenças deste disco para o vosso primeiro, lançado em 2014?

BS- Essencialmente, o uso de efeitos aliado ao som acústico e a inclusão dum instrumento tradicional madeirense, que se chama braguinha ou machete.

AS – A grande diferença é a de ser somente em duo. A partir daí, tivemos de pensar em formas de tornar o repertório interessante, e aí surgiu o Braguinha, um de três cordofones tradicionais madeirenses que tenho vindo a explorar ultimamente. Começámos também a trabalhar mais o nosso som eléctrico, usando mais alguns efeitos (wah-wah, delays, loops, distorção, etc.) para ampliar a nossa panóplia de recursos. Foi tudo feito de uma forma natural, sendo que para este disco trabalhámos muito mais tempo em conjunto, qual banda de garagem que se reúne para experimentar ideias, compor e arranjar por tentativa e erro. Por essa razão, acho que temos arranjos e composições mais polidas do que no disco anterior. Está um disco forte!

 

 

 

Em termos de espectáculos o que podem revelar? Quais as próximas datas?

BS- Em Outubro, estaremos na Ilha Terceira para três concertos inseridos no AngraJazz (dias 3, 4 e 7); no dia 12 é no Teatro Municipal de Bragança (Bragança Jazz) e no dia 13, em Castelo Branco, no Centro de Cultura Contemporânea. Voltamos à acção em Novembro: dia 4 no Cineteatro Grandolense; dia 11 no pequeno auditório do CCB e dia 24 na nossa terra, no Teatro Municipal Baltazar Dias (Funchal). Fechamos o ano no dia 7 de Dezembro, no Museu Nogueira da Silva, em Braga, inserido no ciclo Rum com Jazz e no dia 9, na cidade de Luanda.

AS – Podemos também revelar que teremos um bonito cenário, com reminiscências para a nossa sala de estar, onde tudo começou. No fundo, será como receber o público em nossa casa!

 

 

 

E para quem não vos conhece, onde pode o público interagir convosco e saber mais sobre o vosso trabalho?

BS- Temos a nossa página youtube, com muitos vídeos e o nosso facebook, também com vídeos e muitas imagens. E na plataforma bandcamp podem ouvir o nosso 1º disco na íntegra, e, claro, comprá-lo se gostarem. Procurando por mano a mano e com os nossos nomes é fácil lá chegar. E podem sempre aparecer nos concertos!

AS – A melhor forma de interacção é sempre nos concertos, para poderem ter uma noção completa do que são os manos. No entanto, temos essas plataformas digitais onde temos muita informação disponível. Basta irem ao google e escreverem Mano a Mano Santos e chegarão a bom porto.  

 

 

 

Com 10 anos de idade a separar-vos, como se complementam na criação deste projecto?

BS- É muito fácil. A diferença de idades vai-se esbatendo ao longo dos anos. Com 15 anos mudava fraldas ao André, com quase 42, ainda mudo. Estou a brincar. Mas não sinto essa diferença, nem nunca penso nisso quando tocamos. Sempre nos demos bem enquanto irmãos e musicalmente temos os mesmos princípios. Além disso, somos só dois. É muito mais fácil marcar ensaios :) Mas o trabalho é feito basicamente a meias. Eu sou mais velho, naturalmente já passei por mais coisas, o André tem a inteligência de ouvir conselhos quando acho que tenho de dizer alguma coisa, porque já passei por sítios por onde ele não tem de passar, mas raramente o fiz ou faço. Até me recusei a dar-lhe aulas! Disse para aprender sozinho, ouvir e ver música. Muita! O autodidactismo tem de ser incentivado. Essencial na música e na vida. E tem perdido terreno pelas imposições académicas. É preciso lutar contra isso.

AS – Mais fácil não poderia ser. A nossa relação sempre foi boa e, embora com personalidades fortes, sabemos ouvir e respeitar o outro. Sinto-me em casa a tocar com o meu irmão, conhecemo-nos bem e isso dá confiança e liberdade. Em tempos, tremia quando tocávamos juntos, mesmo na sala-de-estar, agora, tenho mudado as fraldas ao meu irmão depois dos concertos.  

 

 

 

Quais as características que distinguem este disco?

BS- Acho que o principal é mesmo a cumplicidade dos manos e o modo genuíno com que tocamos aquilo de que gostamos. Não há truques, tudo puro e duro!

AS – Decidimos assumir a formação de duo em Mano a Mano por acharmos que isso é o que nos torna especiais. À primeira vista, são só duas guitarras. À segunda, são dois irmãos, um esquerdino e outro destro, o que visualmente já torna a coisa interessante. Um olhar (e escuta) mais atento percebe que há uma empatia, pessoal e musical, muito grande entre nós e que ‘só’ duas guitarras afinal é todo um mundo.

 

 

Fotografia: Paulo Segadães

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Notícia publicada a 09/10/2017


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