Carlos Leitão: “Este é um ano especial, cheio de mudanças boas na minha vida e com a cabeça embrenhada em mil ideias para um disco novo num futuro próximo”

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Fotografia: Artepertinace- Nuno Silva

 

 

Carlos Leitão está a celebrar o primeiro ano do lançamento do seu segundo disco, “Sala de Estar”, e irá fazê-lo, em Abril, com concertos em Lisboa e Ponte de Sôr. E se em Abril de 2017 nos abriu as portas de “Sala de Estar” para sobre ele falar, agora regressámos à conversa para anunciar as novidades que se avizinham, e não são poucas.

 

 

 

Podemos já revelar, e o fadista confirma na entrevista, que Carlos Leitão além de actuar no Museu de Lisboa, no FestFado e no Museu do Fado, tem já assegurada a presença no Montepio Fado Cascais, em Julho.

 

 

Mas além do disco “Sala de Estar” e os espectáculos que se avizinham, Carlos Leitão abordou ainda outros assuntos da actualidade como a recente digressão que fez à Áustria e ainda o fenómeno ‘plágio’ que colocou a palavra em diversas manchetes da imprensa nacional.

 

Convidamos, assim, o leitor a desfrutar da entrevista e caso seja apreciador…acompanhando a leitura, com um bom tinto de Arraiolos.

 

 

 

Já passou um ano desde a apresentação o teu segundo disco, “Sala de Estar”. Qual o balanço?

Os balanços fazem-se no fim, e a verdade é que este caminho começou numa ‘casa’ que se construiu a partir “Do Quarto” (2013) e, mais recentemente desta “Sala de Estar” (2017). A realidade é-me muito simpática. Estou muito feliz com os passos dados nesta caminhada que conta com muita gente, e esse é um factor que me deixa particularmente realizado. O meu avô dizia que “todos é que sabem tudo” e essa é uma das matrizes (e dos matizes) da minha vida.

 

 

 

Já estiveram todas as pessoas que querias nesta sala de estar ou ainda falta alguém?

Há pessoas que eu gostaria de convidar para jantar e tertuliar, mas como te disse, este é um caminho que está a ser feito, logo eu vou estando na cozinha a preparar os petiscos e a abrir um tinto de Arraiolos. Algumas dessas pessoas que eu gostava de receber já se instalaram confortavelmente, quem sabe para me ajudarem a construir um terceiro disco…

 

 

 

Em Abril regressas a Lisboa, desta feita ao Museu de Lisboa. É uma responsabilidade acrescida actuar na capital ou todos os locais merecem a mesma entrega e a mesma ambição na subida a palco?

Eu não consigo estar na música ou na vida em regime de expediente. Por vezes corre bem, outras nem por isso, mas não me deixo depender de deslumbramentos mais ou menos ridículos. Não fui educado dessa forma. Cantar em Lisboa tem sempre, no entanto, uma responsabilidade acrescida, na minha opinião. Mais do que o local do meu nascimento, é o berço do Fado e respira-se sempre uma atmosfera diferente, especial… No Museu de Lisboa, não será excepção seguramente, ainda por cima será um concerto acústico, logo, mais cru e mais despido.

 

 

 

Para este espectáculo no Museu de Lisboa o que estás a preparar em termos de alinhamento?

O alinhamento está definido e não foge à linha que me tem caracterizado. Mesclar o fado tradicional – que é o meu colo – com os originais que gravei nos dois discos, alguns meus, outros de gente que me diz muito, pessoal e profissionalmente. E essa é a matéria de que sou feito, por consequência, é a verdade que eu tenho para apresentar, o reflexo mais prático da minha ‘sala de estar’.

 

 

 

Em palco estarás acompanhado pelo teu trio habitual: Henrique Leitão, Carlos Menezes e Luís Pontes?

Os meus companheiros de estrada e de vida. É de amor que nos construímos, dia após dia.

 

 

 

Ainda este mês, participas também no FestFado Alentejo. Quando surgiu o convite e qual o sentimento do regresso ao teu (tão) amado Alentejo?

O convite surgiu há poucos meses, e na verdade agrada-me bastante mais a vertente do concerto que farei no FestFado, em detrimento da componente de júri, para a qual – receio – não estar talhado. Mas numa fase em que não tenho a disponibilidade desejada para ir ao “meu” Alentejo, eis uma excelente oportunidade para conciliar o trabalho e o lazer, e aproveitar para passar uns dias na minha terra, com a minha gente e matar as saudades que são muitas.

 

 

 

Penso também que participas num espectáculo do Custódio Castelo, ele que é um dos nomes mais importantes neste teu percurso…

O Custódio é responsável por eu ter acreditado em mim, por me descobrir a mim mesmo e ganhar a coragem de trocar o jornalismo pelo fado. Faz parte da família que a vida me tem proporcionado construir, é uma questão de gratidão profunda, camaradagem e, sobretudo, amor. Eu nunca me esqueço de quem me faz bem.

 

 

 

Contudo, e permite-me que regresse um pouco atrás no tempo. Começaste 2018 com uma digressão muitíssimo bem conseguida na Áustria. Salas esgotadas, público entregue e o regresso já está marcado. Como foi a digressão e num breve resumo como a definirias?

Ao fim de 7 anos, confesso que me faltam os adjectivos para um público que roça o sublime. É superior a forma bela e respeitosa com que os austríacos nos brindam e nos mimam, sem subserviência e sem falsas modéstias. São práticos e não menos afectuosos, e têm o condão de nos demonstrar inequivocamente que nos respeitam, ao artista e ao trabalho que se apresenta. E esse é, em minha opinião, o compromisso perfeito em qualquer relação artística.  

 

 

 

A cultura do povo austríaco permite-lhe ter uma sensibilidade extra para a música, que outros povos terão mais dificuldade?

Eu viajei muito enquanto jornalista e, com atenção inerente, conheci muita gente, muitos países e muitas culturas. Um árabe é naturalmente diferente de um europeu ou de um japonês. Há aspectos que os atravessam e outros que os diferem. A predisposição cultural não nasce de geração espontânea, e isso é muito mais uma questão política e educacional que se deseja séria e precocemente enraizada.  Por exemplo, os austríacos têm aulas de música desde os 2 anos de idade. Noutros países, a cultura é encarada como um luxo. Reflicta-se então.

 

 

 

Entretanto sei que há algumas novidades que já posso revelar: terás concerto no Museu do Fado, actuarás em Arraiolos, no Montepio Fado Cascais e há mais novidades a caminho. Em termos de datas quais as que já podes revelar para que as pessoas possam também já a preparar agendas?

Além do Museu de Lisboa, junto da igreja de Santo António, já no próximo dia 19 de Abril (18h30), temos encontro marcado no dia 23 de Maio, no Museu do Fado, dia 10 de Junho na Feira do Tapete, em Arraiolos, e a 21 de Julho, o concerto no Montepio Fado Cascais. Este é um ano especial, cheio de mudanças boas na minha vida e com a cabeça embrenhada em mil ideias para um disco novo num futuro próximo.

 

 

 

Qual é a sala que gostavas mesmo de actuar e nunca tenhas tido oportunidade de lá estar?

Gostava de voltar ao mítico Concertgebow, em Amesterdão, depois de lá ter cantado a convite da Cristina Branco, em 2006. Por outro lado, gostava muito de fazer um concerto na Festa do Avante.

 

 

Como músico estás sujeito à crítica. Tendo em conta que foste jornalista, é mais fácil aceitar essa crítica quando não é positiva?

Francamente, recebo as duas com a mesma naturalidade. Se por um lado, não me revolto com as opiniões negativas, também não salto de nenúfar em nenúfar ao mais rasgado elogio. Talvez essa aprendizagem tenha vindo, muita dela, do jornalismo. Mas creio honestamente que o seu âmago reside na extraordinária educação que os meus pais e a minha família me proporcionaram.  A crítica é, per si, motivo consequente da exposição pública. Ou lhe dás a importância capital dos teus dias, ou dás apenas a que a mesma merece. Pode ajudar-te e castrar-te, depende muito do teu equilíbrio e das tuas convicções. Se estiveres certo do caminho e fores coerente com ele e contigo, então a crítica é “apenas” o alerta periódico que serve de barómetro para o teu ego ou para o teu fracasso. Não é da crítica que dependemos, mas de nós, do que fazemos e, principalmente, do que somos.

 

 

 

Além de cantares, também escreves, tocas e compões. A palavra plágio tem estado muito em voga ultimamente. Qual a tua opinião sobre este ‘fenómeno’?

Como em tanta coisa má e perversa que acontece em Portugal, o aproveitamento “chico esperto” de uma franja oportunista é absolutamente repugnante. É sintomático de alguma pequenez que ainda nos caracteriza. Acredito piamente que o plágio é uma realidade de percentagem diminuta e, em contraponto, deixa-me realçar o carácter e a verticalidade do Diogo Piçarra, por exemplo. Grata lufada de ar fresco no bafio de onde se alimentam tantos…

 

 

 

Sentes que estas polémicas, algumas surreais, prejudicam o que de muito bom existe na música portuguesa?

Não sei. O público, como sempre, é soberano. Ele decidirá. Eu acredito numa meritocracia pautada por valores inabaláveis, na música e na vida, sempre.

 

 

 

Qual a mensagem que gostarias de deixar aos leitores do Infocul?

Pensem na última resposta e não vejam a árvore, mas antes a floresta. Cultivem-se para que a floresta seja cada vez maior e mais bela.

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Notícia publicada a 16/04/2018


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