Diogo Picão: “Não creio que haja uma hierarquia entre letra e música”

diogo picao

 

 

 

Diogo Picão apresenta “Cidade Saloia”, um disco surpreendente (para quem não conhece Diogo Picão) e que nos leva numa viagem musical , que atinge momentos sublimes. Das letras às melodias, o menino, tendo em conta a tenra idade, mostra que o talento é muito e que os grandes palcos serão seus a breve trecho.

 

 

 

O disco, agora editado, foi apresentado em Lisboa no final de Fevereiro. Ao Infocul, Diogo Picão falou sobre o disco, o seu percurso na música, os locais onde viveu e ainda sobre o seu lado mais pessoal.

 

 

Num disco inteiramente escrito por si, conta com algumas participações especiais, destacando-se Salvador Sobral.

 

 

 

Nasceu na Lourinhã. Fora dos dois grandes pólos culturais do país. É mais difícil o acesso à música para quem nasce longe dos dois grandes pólos?

Sim, porque os concertos eram/são bem mais raros e era mais difícil ter acesso a discos. Como tive sorte, em casa tive acesso aos discos que os meus pais, e mais tarde o meu irmão, compravam.

 

 

 

Quando começou este amor pela música?

Não me lembro quando começou. Lembro-me de ouvir música desde criança e de como me fascinava. Ficava sentado junto à aparelhagem com o livrinho dos discos na mão, a seguir as letras.

 

 

 

Começou por aprender saxofone. Porquê este instrumento?

Um grande amigo meu começou a estudar trompete no fim do 9o ano. Eu achei interessante, e ele e o pai dele, que é um melómano com um biblioteca musical gigante, começaram-me a passar vários discos, principalmente de jazz. Não sei porquê, liguei-me mais ao som do saxofone e a escolha foi fácil.

 

 

 

Há quem defenda que a letra é mais importante que a música e há quem defenda o inverso. Sendo filho de professora primária, qual a sua opinião?

No mundo das canções acho que o interessante é que os dois mundos se combinem bem. Para mim é isso que faz uma boa canção. Não creio que haja uma hierarquia entre letra e música.

 

 

 

Tendo começado a estudar em Torres Vedras e seguindo depois para o Porto, quando surge a possibilidade de vir para Lisboa?

Depois do Porto, vivi em Évora e depois no Equador. Quando voltei a Portugal, pareceu-me a melhor opção para me estabelecer. Tem boa música, sol, rio, algumas opções de trabalho e fica mais perto da minha família do que qualquer outro lugar onde vivi desde que saí de casa.

 

 

 

Escreveu as doze canções e todas em português, excepto uma. É uma forma de valorizar uma língua por vezes tão mal tratada ou expressa-se melhor, musicalmente, em português?

Não foi uma coisa pensada. Escrevi em português simplesmente porque me expresso melhor na minha língua materna e porque uma grande parte das canções que ouvi no meu percurso musical são em português. E além disso tenho um prazer muito grande a fazer jogos de palavras, coisa que consigo fazer melhor em português. Quanto à canção em espanhol, deve-se à minha vivência no Equador. Não ponho de parte escrever em inglês também, que é a outra língua que sei, mas até agora ainda não aconteceu

 

 

No seu disco há um convidado que se destaca, Salvador Sobral (até pela projecção mediática). Quando surgiu a possibilidade de ter o Salvador no seu disco e qual a relação entre ambos?

Eu conheci o Salvador em Lisboa, antes da “explosão” do Festival da Canção e ficámos amigos. Como ele gostou das minhas canções e eu gostei da maneira como ele canta, o convite surgiu naturalmente. Na verdade, foi dessa maneira que surgiram quase todos os convites às pessoas que tocam no álbum. Além do Salvador, os seguintes músicos fazem parte do “Cidade Saloia”: Anders Perander, Olmo Marín, Matteo Bowinkelmann, Otto Pereira, Timoteo Grignani, Alberto Becucci, André Galvão, João Fião, Johannes Krieger, João Lencastre, Yannick Nolting, Gonçalo Pratas, João Fragoso, Daniel Neto e Miguel Fernández.

 

 

 

Como descreve este seu disco em termos de sonoridade?

Este disco é uma viagem musical, pelos estilos que tem dentro e pelas proveniências geográficas e musicais dos músicos que nele participam. É também o reflexo da variedade de estilos que eu já estudei/toquei e do meu amor pela mistura. Creio que o meu tipo de escrita e a mão mágica do Paulo Machado, produtor do disco e mago do som, são o cimento que unifica tudo.

 

 

 

Quais as principais mensagens que tenta transmitir?

É difícil resumir mas tento puxar a atenção do ouvinte para a vida quotidiana e o que a compõe: natureza, amor, amizade, sociedade, viagem, eu/o outro, etc. Seja contando uma história, descrevendo um sentimento ou homenageando algo. Creio também que a ironia e algum sentido do humor me ajudam a fazer chegar melhor as várias mensagens.

 

 

 

Quais foram os maiores desafios na produção deste disco?

Claramente a falta de recursos e a organização de todo o processo.

Há algum tema que falte?

Sim, tenho mais alguns temas compostos que não foram gravados e ficarão para o próximo álbum.

Dos temas aqui gravados, qual o que mais gosta (bem sei que é difícil…) e porquê?

Respondo com uma pergunta: de que filho gosta mais?

 

 

 

 

Quem são as suas grandes referências?

As referências são sempre muitas mas ficam aqui as principais. Nos cantautores portugueses os que mais me influenciaram foram o Sérgio Godinho e o José Afonso. Nos cantautores brasileiros o Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Bosco. Nas voz a Billie Holiday. No saxofone o Stan Getz e o Cannonball Aderley. Nos multi-instrumentistas o Hermeto Pascoal.

 

 

 

Na música portuguesa com quem gostaria de fazer um dueto?

Com os bons músicos que for encontrando pelo caminho.

 

 

 

Como analisa o actual momento a música em Portugal? Há oportunidades para todos?

Das vivências que tive no Porto, Évora e Lisboa percebi que há muita gente a criar boa música mas essa música raramente chega aos meios massivos de divulgação (rádios,televisões, jornais), a não ser no caso de artistas mais conhecidos. Creio que há uma falta de pesquisa muito grande de parte dos meios de comunicação. Por outro lado, existem hoje mais ferramentas acessíveis aos músicos, tanto de produção como de divulgação e partilha, o que faz haver cada vez mais nichos onde se consegue encontrar público próprio. A outra questão é conseguir sobreviver com isso porque raramente a divulgação do trabalho musical se traduz em retorno financeiro palpável. Em duas palavras: corda bamba.

Em termos de apresentação deste disco, fê-lo no Teatro do Bairro em Lisboa. Quais os próximos espectáculos que já possa revelar?

O próximo espetáculo será na Lourinhã, Auditório da AMAL, no dia 19 de Maio às 21:30. Temos também marcados para já showcases na FNAC Chiado, dia 29 de Abril às 18:00, e na FNAC Colombo, dia 13 de Maio às 17:00.

 

 

 

Nas redes sociais, onde pode o público interagir consigo?

Pode interagir no facebook, no twitter, e no Instagram. Pode ainda ouvir a música no Spotify,  ver os vídeos no canal de Youtube  e ler o meu blog .

 

 

Dedica muito tempo às redes sociais?

O necessário.

Qual a importância das mesmas no seu trabalho?

Hoje em dia creio que são essenciais pois são uma das únicas maneiras de um artista pouco conhecido fazer a sua música chegar ao público.

 

 

 

Quem é Diogo Picão fora dos palcos. O que gosta de fazer?

Um homem comum. Estar com a família e com os amigos e fazer música, se possível ao mesmo tempo.

 

 

Qual a mensagem que pretende deixar aos leitores do Infocul?

Que procurem e que oiçam nova música, que a carreguem no bolso e a partilhem com mais gente que possa gostar de ouvir. Ah, e sejam felizes.

 

 

Fotografia: Olmo Marin

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Notícia publicada a 18/03/2018


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