João Couto: O novo disco pretende transmitir “que a experiência vem do erro e que crescer vem na confiança que depositamos uns nos outros”

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Lembram-se de João Couto? Sim, o menino que venceu uma das edições do Ídolos. Acaba de lançar “Carta Aberta”, o seu primeiro disco. Um disco que transpira emoções, portugalidade e denotam a maturidade, acima da média, para a sua idade.

 

Com doze faixas, João Couto surpreende em cada uma delas. É um artista completo, que sabe o quer , como transmitir as suas ideias e que escreve incrivelmente bem. João Couto lança, até ao momento, um dos discos mais surpreendentes do ano. Dia 3 de Maio sobe ao palco do Hard Club para apresentar este trabalho, mas antes concedeu uma entrevista ao Infocul onde fala do disco, de si, do Ídolos, da música portuguesa, das suas referências e até da sua infância.

 

Quando começou a pensar neste disco?

Acho que nunca houve um dia em que não sonhasse com o lançamento deste trabalho, e agora que finalmente está cá fora é uma sensação mesmo surreal. Com a vitória no Ídolos então, em que este sonho se tornou tangível, desse dia em diante este disco em concreto passou a ser a primeira coisa que pensava quando acordava e a última quando me ia deitar. Foram dois anos e meio de muito trabalho e culminou nestes 12 temas, e dediquei-me a 100% nele.

 

 

Assina todas as letras a músicas deste disco, excepto “Balada do Cidadão” (João Martins), “Dois Mil e 16” (Letra de Janeiro e Música de João Couto e Janeiro), “Inês” (Letra de Pedro de Tróia e Música de Pedro de Tróia e João Couto), “O melhor de mim” (Letra de Samuel Úria e Música de João Couto). Quais foram as grandes inspirações?

A solidão, a fuga, o amor e desamor, a rotina, a promessa, as insónias leves mas acima de tudo, o carinho que as cura. Também as dores de crescimento, porque todos passamos aquela fase estranha em que ainda não és adulto, mas também já não és um miúdo e tens certas responsabilidades para contigo próprio e com os outros e neste disco quis explorar a linha que separa o “choramingo” imaturo de um adulto de peito cheio que sabe o que está a fazer e saltar entre um e outro sem regra.

Questiono, também, porquê a escolha dos restantes nomes que assinam as letras e/músicas do disco?

Com a oportunidade de ouro que tive de gravar este disco quis colaborar com alguns artistas que eu admiro, que achava que fariam sentido na estética musical que estava a construir. Que sentisse que até a nível de letras iam acertar em cheio e realmente foi o caso. Estou super satisfeito com o resultado final. O João Martins, por exemplo, que produziu o disco, ofereceu-me este tema e eu nem sabia que ele compunha e foi uma surpresa, adoro a canção e achei que era um desvio brutal que o disco precisava. O Samuel, o Janeiro e o Pedro contactei-os de forma mesmo casual, falamos um bocado e construímos as canções à distância, por mensagens e emails e cada canção foi realmente o “recreio” perfeito para cada um exercitar os seus músculos criativos. Conseguimos três temas que me orgulham imenso e que fazem todo o sentido no universo que construí para o restante alinhamento. Não podia pedir melhor.

 

O que mudou entre o vencedor do Ídolos (sexta edição) e o João Couto que agora edita o disco?

Em essência são a mesma pessoa, têm o mesmo sonho, a mesma missão. A diferença é que o João que agora edita disco é um artista mais completo, crescido, com um pouco mais de estrada e que agora, mais do que nunca, sabe exatamente o que quer.

Como foi o percurso entre o vencer o programa e a concretização do disco?

De muito trabalho, de voltar às raízes, de entender os caminhos devo desbravar na música nesta fase da minha vida e isso requer paciência, prática e visão, e acima de tudo as pessoas certas, de bom génio e verdadeiro profissionalismo a ajudar-te.

 

Quando surge o gosto, ou até mesmo amor, pela música?

Desde miúdo. Ouvir música e cantar sempre foi uma coisa muito natural, tinha tendência desde pequeno a preferir tudo o que tivesse a ver com música. Nessa altura a música que consumia era tudo o que recebia da televisão e da rádio, desde o Top+ na RTP1, a tudo o que era programas de telediscos (desde MTV a VH1 por exemplo), a sintonizar estações de rádio dependo do dia e hora porque sabia qual os programas que mais gostava de ouvir no momento (o “Hotel California” na Renascença que dava ao sábado de manhã por exemplo passava pop/rock dos anos 70 que adorava já em miúdo). Decorava as tracklists dos cd’s que havia no carro dos meus pais em particular a do best of do Rui Veloso, que foi o disco que de longe mais ouvia e é a minha memória musical mais antiga. A música do Rui Veloso foi o que me fez acreditar que era possível ser músico porque ele não tinha aspecto de estrela, cantava em português, identificava-se como portuense (e eu estava a uma breve viagem de carro da Serra do Pilar) e toda gente sabia quem ele era. Fosse outro disco a tocar nesse carro e a história teria sido outra.

 

Quem são as suas grandes referências?

As minhas referências a nível musical são artistas como Rui Veloso, Beatles, Paul McCartney (a minha maior referência), Bruce Springsteen, Jorge Palma, Elvis Costello, Miguel Araújo, Samuel Úria, Brian Wilson, Sting, Los Hermanos, Virgem Suta, Paul Simon, Fleetwood Mac, Ben Folds Five, Clã, Deolinda, Luísa Sobral, Bob Dylan, Arcade Fire, Stevie Wonder, Elton John, Carole King, Marcelo Camelo, entre muitos outros.

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Qual a mensagem, ou principais mensagens, que tenta transmitir neste disco?

Que a experiência vem do erro e que crescer vem na confiança que depositamos uns nos outros, e não há que ter vergonha de não saber exatamente o que estamos a fazer quando temos dúvidas. Eu quis com estes temas cantar sobre algo que também estava a viver na altura que as escrevi. E queria encarar as minhas dúvidas seja com seriedade ou com um humor e leveza e sinto que este disco percorre todos esses estados de espírito.

 

Quem é o João Couto fora dos palcos? O que gosta de fazer?

Adora de cultura e arte, gosta de ir ao cinema, ir a concertos, adora uma boa jantarada com boa companhia. Gosta de uma boa conversa e acima de tudo gosta de estar a criar e a tocar novas canções. Grande parte do meu tempo livre passa-se mesmo a tocar e a recolher novas ideias. É o hobby/trabalho perfeito.

 

Em “Canção Só” diz “Passou-me ao lado o amor/sorriu-me e acenou”. O que se faz quando o amor nos passa ao lado e continuamos presos a ele? (embora na canção também diga “Mas não sigo atrás”)

Ficamo-nos pelas questões, pelo aprender a ganhar maturidade, a saber mais sobre nós. A “Canção Só” é um tema assumidamente “gozão” e imaturo porque quer parecer imune aos problemas que assolam todos quando ganham responsabilidade no amor, e não é. O “narrador” dessa canção está tão ou mais assustado com o que o amor lhe faz e está a murmurar um pedido de socorro, que alguém lhe tire dali. Mas ao mesmo tempo está convicto que prefere algo genuíno a algo construído para a aparência (“Troco um beijo sem amor/por uma canção só”). É uma canção que transmite insegurança e dúvida e ao mesmo tempo certezas e convicções e se isso não é o que ter 20 e tal anos no mundo de hoje é então não sei o que é…

No livreto que acompanha o disco, estão alguns rascunhos em cada tema. Porquê?

Os rascunhos e esboços que veem no livreto são literalmente as notas que estão no meu caderno. O caderno que usei quando estava a pré-produzir e a ensaiar o álbum com a banda. Eu a nível visual adoro o contraste entre estruturas muito limpas, cores planas e sólidas contra elementos orgânicos como a caligrafia e esboços e quis que o artwork do disco refletisse esse espírito. Então “sujei” as páginas do livreto com os mesmos desenhos e esquemas que me orientaram quando o estava a construir o álbum. Torna a ligação que o ouvinte faz com a minha música mais palpável, dá um vislumbre do “artesanato” por trás do processo, são coisas que só quem coleciona edições físicas pode experienciar e quis incluir isso para essas pessoas.

 

Nos, habituais, agradecimentos que faz no disco, destaco dois nomes: Miguel Araújo e Helder Moutinho. Qual a importância deles no seu percurso e qual a ligação que tem com eles?

O Miguel Araújo é uma referência, tenho um respeito enorme por todo o percurso que ele construiu. Sou fã acérrimo desde a primeira vez que vi o vídeo do “Quem és tu miúda” dos Azeitonas na MTV e a minha admiração só cresceu com o brilhante percurso que ele construiu a solo. Começamos a falar quando há uns anos atrás partilhou vídeos meus a cantar músicas dele nas redes sociais, prova da extrema humildade e respeito que tem pelos fãs, e construímos uma pequena amizade. Convidou-me para participar em concertos da tournée dele de 2015, deu-me muitos conselhos e foi por intermédio dele que conheci o João Martins, que mais tarde vim a convidar para produzir o “Carta Aberta”. Por isto e muito mais era imperativo agradecer-lhe. O Hélder Moutinho é o meu manager, era inevitável que constasse nos agradecimentos. Mas a menção que lhe faço vai além de apenas agradecer o trabalho dele nessa frente, ele acreditou genuinamente em mim e no meu projeto, mais do qualquer um, e entende-me perfeitamente, onde quero ir nisto da música. A experiência dele, o carácter dele são raros e aprendo com ele todos os dias, devo muito a ele. E além disso é também, a meu ver, um dos melhores intérpretes nacionais e um artista de mão cheia. Tenho uma sorte dos diabos em poder trabalhar com ele.

Quais os músicos que o acompanharam nesta aventura?

Além do João Martins, que produziu o álbum e tocou alguns instrumentos (clarinete, harmónica, teclados, etc.) e Serafim Borges, que gravou e misturou todos os temas, a secção rítmica de todo disco ficou a cargo do Gonçalo Salta (bateria) e Pedro Santos (baixo) e os teclados e pianos por Marco Santos. Estes últimos três nomes, mais Tonny Teixeira (guitarra), formam o núcleo da banda que vai apresentar “Carta Aberta” ao vivo. Além disso convidamos também João Salcedo (Os Azeitonas) e Diogo Santos (Miguel Araújo) para mais um piano e teclados extra (respectivamente) e dois quartetos de cordas distintos onde tocaram instrumentistas como David Lloyd, Jed Barahal, Mafalda Vilan, Trevor McTait, Pedro Carvalho e Ana Alves, tudo sobre direção do João Martins.

 

Quais foram os maiores desafios na gravação deste disco?

A simplicidade dá muito trabalho. O equilíbrio nos arranjos é uma coisa bem difícil de dominar e por isso a colaboração do João Martins e do Serafim Borges foi indispensável. Todo o disco foi desenhado de maneira que a produção fosse muito íntima, direta ao assunto e destacasse as melodias as letras. As maquetes que fiz para o disco tiveram que ser repensadas, trabalhadas, feitas várias versões até atingir a estrutura ideal. Para quem ouve o disco não pode soar a algo que tenha sido trabalhoso, tem que soar natural, e essa naturalidade, esse respirar só acontece com muito trabalho e músicos experientes ao leme. Foi a maior lição que aprendi com este disco.

 

O público desconhece, mas todo o trabalho de gravar e editar um disco é muito desgastante. Consegue explicar às pessoas todo o processo?

Resumindo o meu processo (e este é o meu, não se aplica a todos) primeiro parto para a composição e pré-produção, que faço mais ou menos ao mesmo tempo (que pode ser um bocado atípico). Trabalho essa parte do processo praticamente sozinho, contando ocasionalmente com a ajuda do meu baterista (Gonçalo Salta) em algumas músicas para traduzir as ideias rítmicas que tenho para a bateria, que como não a sei tocar, preciso dessa ajuda. E por fim quando tenho um repertório completo de 14/15 temas apresento ao produtor. Discutimos quais dos doze temas devem fazer parte do disco e a partir daí passa-se a limar os cantos meio toscos das maquetes para poder atingir um bom disco, que soe bem, e, no caso particular do “Carta Aberta”, soe orgânico, coeso e descomprometido com a sua identidade pop. Começa-se da secção rítmica (baixo e bateria) e depois é sempre a acrescentar camadas. Depois misturas e masterização, que é também por si um processo demoroso, pois implica diálogo entre a equipa para encontrar o som certo para cada música e quando se conclui isso é tratar de tudo o que ultrapassa a música, o artwork, a promoção, os vídeos, de que também tenho tomado rédeas. Tudo isto implica uma equipa de confiança que felizmente tenho o orgulho de dizer que tenho.

 

Em termos de espetáculos de apresentação do disco, o que já pode, e quer, revelar?

Dia 3 de Maio, às 21:30 temos o concerto de apresentação oficial na sala 2 do Hard Club no Porto. Vamos celebrar o disco na cidade que o viu nascer. Vai ser uma bela festa. todos que estiverem a ler estão convidados a aparecer.

 

Onde pode o público interagir consigo e acompanhar as novidades do seu trabalho?

Estou em todas as redes sociais, Facebook, Instagram e Twitter. O meu username é @thejoaocouto em todas elas, é fácil encontrar-me. Deixo sempre novidades por lá, por isso sigam-me para não perderem pitada. Há também um website www.joaocouto.pt onde vou deixar alguns conteúdos exclusivos por isso não esqueçam de visitar.

 

Qual a importância das redes sociais no seu trabalho? Dedica muitas horas às redes sociais? Gere sozinho ou conta com ajuda?

As redes sociais são uma excelente forma de comunicar diretamente com os meus ouvintes e partilhar com eles conteúdos que acho interessantes como fotos, textos, vídeos, links, sites, etc.

Lá posso partilhar com toda gente mais coisas que podem associar à audição do meu álbum, por exemplo, webisódios documentais, fotos, desenhos, textos, entrevistas, entre outras coisas. Isso tudo vai intensificar a experiência deles com a minha música, e isso é ótimo.

Eu uso muito as redes sociais, e sou eu que tomo as rédeas do que é partilhado e como é partilhado. Mas também gostava de me desligar um pouco delas de vez em quando. Usadas excessivamente também se tornam aborrecidas e no seu pior passam a ser só um jogo de números (Quem tem mais likes? Quantas partilhas foram feitas? Quantas pessoas seguem?). Eu encaro as redes como uma ferramenta criativa como outra qualquer e por isso é que gosto de ter o controlo delas. E gosto muito de falar com os fãs.  Tenho um público super diverso, interessado, cordial e gostam mesmo de música. E é bom quando as redes sociais atraem as pessoas certas e não muitas pessoas, se é que me faço entender.

Como analisa o atual momento da música em Portugal?

Estamos a viver um belo momento na música portuguesa. Estamos cada vez mais descomprometidos com a nossa língua (finalmente!) e temos música cada vez mais diversa, a disparar de todas as direções com uma qualidade acima de média, não só para Portugal, mas para os standards de qualquer mercado musical internacional. Temos mais é que ter orgulho e apoiar bons artistas.

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Obrigado por estarem aí desse lado e por apoiarem os músicos portugueses. Oiçam o meu disco de estreia “Carta Aberta” que já está disponível em todo o lado. Espero me cruzar convosco num concerto meu muito em breve.

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Notícia publicada a 04/04/2018


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