“Aquilo que nenhuma guerra mundial ou civil conseguiu em todo o mundo católico, consegue-o um vírus invisível e silencioso”, diz D. António Marto

D. António Marto celebrou hoje, Domingo de Ramos, a homilia e alertou para “esta Semana Santa 2020 vai marcar-nos de modo especial”.

Paixão de Cristo, Paixão do mundo

Com a celebração de hoje, domingo de Ramos ou da Paixão, entramos na Semana Santa, a Semana Maior de todo o ano litúrgico. Esta Semana Santa 2020 vai marcar-nos de modo especial. Aquilo que nenhuma guerra mundial ou civil conseguiu em todo o mundo católico, consegue-o um vírus invisível e silencioso. Sim, vamos viver esta Semana Santa sem celebrações comunitárias, despojada de manifestações exteriores, sem atos públicos como procissões ou via-sacras, mas sem esquecer o essencial, o mistério da morte e ressurreição de Jesus.

As atuais condições limitadas da celebração podem todavia ajudar-nos a entrar mais no mistério da Páscoa de Cristo e a compreender melhor e mais profundamente alguns aspetos da sua paixão e ressurreição. Devemos ter presente que a história da paixão de Jesus é também a história da humanidade e de como Deus está presente nesta história. Agora limito-me a sublinhar dois aspetos que nos ajudam a unirmo-nos à paixão de Cristo neste momento doloroso que estamos a viver.

A agonia de Jesus no Getsémani: Cristo está em agonia até ao fim do mundo

O primeiro é a tristeza e a agonia de Jesus no jardim do Getsémani. Jesus comunica-as por três vezes aos discípulos, dizendo: “A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo”, como que a pedir-lhes conforto e consolação; e, por três vezes, também partilha-as com o Pai em oração com o rosto por terra: “Meu Pai, se é possível passe de mim este cálice. Todavia não se faça como eu quero mas como tu queres”.

Tristeza e angústia agravadas pelo abandono dos discípulos e pela traição de Judas a quem Jesus continua a chamar amigo. São sinais dramáticos que nos mostram, de modo inequívoco, os abismos do sofrimento e da humilhação até onde Jesus desceu no seu abaixamento à nossa condição humana.

Recordo-me como ainda criança, no seminário menor, eramos educados na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Desta devoção fazia parte o exercício de confortar e consolar Jesus na sua agonia. Mais tarde, já mais crescido, tinha comigo uma imagem de Jesus no Getsémani como exemplo e escola de compaixão com todos os que sofriam alguma forma de agonia e abandono. Depois, como jovem estudante de teologia, descobri e gravei para sempre na memória a célebre frase de Pascal: “Jesus está em agonia até ao fim do mundo”! Compreendi todo o alcance desta frase através de um livro intitulado “Paixão de Cristo, Paixão do mundo”, onde mostra que a paixão do Senhor continua nos sofrimentos da humanidade, ou, como diz a mística inglesa Juliana Norwich, no seu livro “Uma revelação de amor”: “Ele (Jesus) sofre com todos os sofrimentos e paixões de todas as suas criaturas no espírito e no corpo”.

Nas provações não estamos sós. Cristo faz-se companheiro de todo o homem sofredor e oprimido. Conforta-nos no meio das tribulações. Mas ao mesmo tempo pede que vigiemos e reconheçamos a sua presença nos irmãos sobretudo nos sofredores e nos pobres. Também nós, hoje, vivemos todos como Jesus no Horto das Oliveiras. A nossa alma está triste e devemos vigiar porque os tempos são difíceis como hão de ser difíceis os tempos que se avizinham. É hora de velarmos uns pelos outro. É hora da solidariedade! Ninguém se salva sozinho, como nos lembra o Papa Francisco.

Nas chagas de quem sofre tocamos as chagas de Cristo, em particular nas chagas dos que hoje sofrem o flagelo da enfermidade do corona vírus ou a morte de um ser querido. Cristo em agonia pede que os acompanhemos com compaixão e solidariedade, e apoiemos também os que cuidam deles com amor e generosidade.

O grito de Jesus na Cruz: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”?

O segundo aspeto a meditar é um momento da crucifixão: o grito de angústia que Jesus eleva ao Pai na hora de extremo abandono “meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”? À primeira vista parece ser lançado no vazio sem encontrar resposta. É também o grito de ajuda de todos nós que hoje sofremos o flagelo da pandemia. Como compreendê-lo quando nos parece não encontrar qualquer eco?

Talvez nos ajudem um pouco as palavras do Papa emérito Bento XVI quando visitou o campo de extermínio em Auschwitz e respondeu a uma interrogação semelhante: porque te calaste, Senhor?” “Porque não respondes?” E o Papa prosseguia:

Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus; vemos somente fragmentos e erramos se queremos fazer-nos juízes de Deus… Em definitivo, devemos permanecer com o humilde mas insistente grito a Deus. Porque me abandonas? Não me abandones.

O nosso grito a Deus deve ser ao mesmo tempo um grito que penetra no nosso próprio coração, a fim de que desperte em nós a presença oculta de Deus, a fim de que o poder(de salvação) que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado pelo medo, pela indiferença, pelo egoísmo e pelo oportunismo (pessoal ou entre os povos)”.

Dez anos depois em 2016, também na Polónia, o Papa Francisco abordava a mesma interrogação: “Onde está Deus quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto?” e continuava: “Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus e perguntar a Ele. E a resposta é esta: Deus está neles, Jesus está neles, sofre neles, profundamente identificado com cada um… Foi o próprio Jesus que escolheu identificar-Se com estes nossos irmãos e irmãs provados pelo sofrimento e pela angústia, aceitando percorrer o caminho doloroso para o calvário. Ao morrer na cruz, entrega-Se nas mãos do Pai e leva consigo e em Si mesmo, com amor de doação, as chagas físicas, morais e espirituais da humanidade inteira”.

Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?” é a frase inicial do salmo 22 que Jesus certamente o rezou completo na cruz. Ora este salmo é uma oração que exprime desolação mas também esperança. Termina com a confiança na vitória final de Deus cujo amor se mostra mais forte que o mal e a morte, que faz surgir vida nova no meio da provação. Transmite uma palavra de alento aos abatidos, uma mensagem de esperança a todos os que estão na angústia e na dor, que se sentem envolvidos nas trevas que cobrem toda a terra.

No momento que vivemos, todos precisamos desta palavra de alento que nos anime no meio de tanta enfermidade, dor e morte e nos torne solidários e confiantes. Aquela palavra de alento que Nossa Senhora fez ecoar aqui em Fátima “Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio”.

A humanidade inteira está a atravessar um túnel escuro. Por isso desejo concluir com a oração de confiança do Salmo 23 e que o Imaculado Coração de Maria a quem nos confiamos seja connosco a rezá-lo: “O Senhor é o meu pastor… Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos retos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança… habitarei na casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23, 1-4.6).

Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

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