Dois meses se passaram desde que vos escrevi pela última vez. Estávamos em Abril em plena fase de confinamento, fechados em casa, escolas fechadas, restaurantes fechados… a vida aparentemente suspensa!
De lá para cá temos vindo, gradualmente, a desconfinar. Aos poucos retomamos alguma da normalidade perdida. E se ficar em casa foi um desafio, voltar à rua é outro talvez ainda maior, sobretudo numa fase em que ainda há muitos cuidados a ter, ainda temos muitas restrições e ainda sabemos tão pouco sobre o futuro…

No que me diz directamente respeito já reabri grande parte dos espaços de restauração dos quais sou responsável. Falta apenas um que por ser sazonal e na praia, terá honras de abertura apenas em julho (falo do restaurante em Santo André, no Alentejo).

E que gostaria eu de partilhar convosco agora? Talvez um pouco daquilo que todo este período transformou ou, nalguns casos, reiterou.

Quem me segue nas redes sociais percebeu que durante a fase de confinamento e estado de emergência em que o país, e o mundo, mergulhou me mudei de armas e bagagens para a zona Oeste, onde já havia vivido durante 11 anos. Quis o destino que há uns anos se tornasse impossível viver ali e ao mesmo tempo corresponder a todos os compromissos que tinha, quer em Lisboa, mas sobretudo internacionalmente e que me “obrigavam” a fazer uma média de 150 voos por ano. Perguntar-me-á o leitor se tenho saudades de viajar…? Tenho! Mas, também é um facto indesmentível que esta paragem me obrigou também a fazer uma pausa, “guardar” o passaporte por tempo indeterminado. Se me falta a adrenalina? Sim, também, mas como não consigo estar quieto rapidamente encontro motivos de agitação em terra também.

E na verdade, acabámos todos por descobrir que há muitas coisas que se podem fazer sem viajar. Quantas reuniões tiveram neste período apenas com recurso a uma ligação internet e um computador ou mesmo um telemóvel? Quanto tempo (e energia) pouparam em cada uma delas? Não sentiram, como eu, que produziram mais neste período? Que por poupar tempo em deslocações inúteis se tornaram mais produtivos e se calhar até mais disponíveis para a criatividade? Por muito que eu goste de viajar (e é uma das minhas paixões de vida!) se calhar vou pensar duas vezes na utilidade de cada uma das próximas viagens que tiver que fazer? Tenho mesmo que ir? Há alternativas digitais àquilo que vou fazer? Esta viagem vai dar-me algum prazer ou valor acrescido?

Quer isto dizer que a vida muda a qualquer instante, que não controlamos grande parte das coisas. E, apesar de sentir falta de algumas coisas, também é um facto que este período serviu para reflectir, acalmar, desfrutar daquilo que temos connosco, dar mais tempo à família (e que desafio foi para todos esta “imposição” familiar 24/7, verdade?).

Voltar ao Oeste também reforçou a minha já existente relação com os produtores nacionais. Para mim nunca foi uma moda passageira, sempre foi uma atitude concreta. Agora mais vincada, é certo, mas no fundo uma continuação daquilo que sempre defendi. Temos tudo à nossa volta, temos produtores e produtos nacionais fantásticos e este período só reforçou a minha paixão por um país com tanto para dar, com tantos produtos de excelência para serem utilizados em casa, pelas famílias, ou nos restaurantes, pelos chefs e cozinheiros por esse país fora.

O leitor se calhar a esta altura pergunta se foi (ou é) tudo bom neste cenário pandémico e se só tenho coisas positivas a apontar. A resposta é simples: NÃO! Os desafios que se colocam no momento presente na gestão dos vários espaços de restauração dos quais sou responsável, a gestão de equipas e garantir que na medida do possível não há danos colaterais (leia-se, despedimentos, encerramento de espaços, etc) é a parte difícil no meio disto tudo. Com regras que mudam todos os dias, com apoios nem sempre adequados ao cenário económico que enfrentamos, com muitas dificuldades para ser objectivo e assertivo num tempo em que tanta coisa é ainda desconhecida por e para todos.

Mas, escolho sempre olhar para as vantagens, valorizar o que há de positivo nas coisas e isso ajuda-me sempre a ultrapassar as possíveis adversidades. Penso que esse é um desafio constante na minha vida, foi sempre assim que encarei o meu caminho e este período só veio vincar ainda mais esse meu espírito. A todos nós creio que este período veio trazer algumas reflexões positivas. Aos leitores deixo uma palavra para os próximos tempos: CORAGEM! Estamos juntos!

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