Hélder Milheiro: “Temos planeado a criação de um roteiro nacional de turismo taurino”

 

 

 

 

Prestes a iniciar-se a temporada tauromáquica, Hélder Milheiro, porta-voz da Prótoiro, concede entrevista ao Infocul na qual faz um balanço da temporada 2018, perspectiva a de 2019 e responde a algumas questões sobre o Cartão Aficionado, a escolha de Miguel Ortega Cláudio para redacção de crónicas taurinas num Jornal generalista nacional, entre outros assuntos da actualidade tauromáquica nacional.

 

 

O Cartão Aficionado continua a não ser bem entendido na tauromaquia, contudo Hélder Milheiro considera-o uma vantagem. A escolha do redactor de ‘crónicas’ para um Jornal de grande tiragem nacional é também abordada nesta entrevista, na qual Hélder Milheiro apresenta alguns dados, numéricos, sobre a tauromaquia em Portugal.

 

 

Hélder, qual o balanço de 2018 para a tauromaquia?

O balanço da temporada 2018 é muito positivo. Foi um ano de grandes corridas, com os jovens a firmarem-se definitivamente e a tomarem conta da Festa. Foi um ano de grandes lotações e uma vez mais com crescimento de púbico, pelo segundo ano consecutivo. Em 2018 os espectáculos taurinos obtiveram 440.350 espectadores, um crescimento de mais de 1% em relação aos 435.660 de 2017. Estamos já num plano de retoma do crescimento de espectadores, depois do pico da crise económica. Esta é a situação que esperávamos, uma vez que o desempenho da tauromaquia está intimamente ligado ao desempenho da economia do país e do correspondente poder de compra dos portugueses. Os portugueses já começaram a sentir mais poder económico e voltaram aos toiros. Ainda não temos os níveis económicos pre-troika mas são óptimos sinais que os portugueses dão com este regresso às touradas. Ainda mais num ano de grandes ataques por parte de alguns partidos como o PAN, BE e a ministra da cultura, cujo único resultado foi apoiar a notoriedade da tauromaquia e levar ainda mais pessoas aos toiros. Além disso, foi muito importante a descida do IVA cultural e o facto de um projecto taurino ter ganho pelo segundo ano consecutivo o Orçamento Participativo de Portugal. Foi um ano muito muito positivo por todos estes factores.

A Tauromaquia intitula-se como cultura mas raramente se associa nem participa em movimentos culturais. Porquê?

A Tauromaquia é um facto cultural da maior importância do nosso país, sendo por isso igualmente reconhecido pelo ordenamento legal. Da parte da ProToiro a posição pública é muito clara de afirmação do setor taurino como uma das componentes importantes da cultura portuguesa, pela sua repercussão social, artística, económica entre outras. Da parte dos agentes, sim, existe um deficit de projecção da tauromaquia nos fóruns culturais e institucionais e é uma situação que tem de ser corrigida.

A descida do IVA foi uma vitória dos agentes culturais. Que impacto terá para os espectadores? Há ou não descida do preço dos bilhetes?

A descida do IVA foi uma mostra de enorme capacidade e força social da tauromaquia no nosso país. Um momento alto do ano de 2018 e uma razão de grande orgulho para todos os portugueses amantes da cultura. Como comunicamos na Reunião Magna de 29 de Novembro, a APET (Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos) já admitiu que terá de haver um reflexo no preço dos bilhetes. Os empresários vão reunir em breve e tomar decisões sobre essa matéria.

O cartão aficionado ainda não tem parceiros comerciais com vantagens para os aficionados, sendo que a única vantagem é a acumulação de 10 euros por cada 200 gastos e um desconto de 10% na compra de bilhetes. Foi ou não precipitada a metodologia de lançamento do cartão?

Não. O lançamento durante a temporada foi um risco calculado. Estes primeiros meses de vida do Cartão Aficionado serviram para testar o conceito de uma forma mais controlada e os resultados foram óptimos. Não só se ultrapassou o volume de utilização do cartão como em cerca de dois meses e meio levamos já quase 7 mil aderentes. Todas as funcionalidades e benefícios do cartão irão sendo completados ao longo desta temporada, assim que todos os recursos estiverem disponíveis. O que importa para os clientes é a possibilidade de usarem o cartão, terem uma forma de reduzirem o custo do mesmo e poderem viver a sua paixão com mais vantagens.

Quais as novidades para este cartão em 2019?

Irão ser acrescentadas funcionalidades como o carregamento de dinheiro em cartão, e continuamos a trabalhar no alargamento da rede de empresas aderentes de forma a torná-lo o mais universal possível.

Muitos questionam sobre como é sustentável a Protoiro. É possível esclarecer?

A informação é pública. A ProToiro tem um modelo de autofinanciamento, onde todos os intervenientes dos espectáculos (toureiros, forcados, empresários, ganaderos) contribuem com um valor para o financiamento do trabalho da ProToiro.

Em termos de balanço financeiro para a Protoiro, em 2018, já existem dados?

De 2018 não. O relatório de contas do ano anterior foi apresentado a todos os associados no dia 29 de Novembro, na Reunião Magna de todas as associações.

Acaba de anunciar o Dia da Tauromaquia. Revelou também que não é o Novo BullFest. Quais as diferenças e em que se baseará este Dia da Tauromaquia?

São conceitos diferentes apesar de ambos se realizarem no Campo Pequeno. O BullFest é um formato de festival urbano clássico. É um festival de cultura portuguesa cruzando áreas culturais portuguesas. Em 2017 foi a primeira edição que serviu para testar o conceito. Resultou claramente e quando voltarmos a ele terá de ser com um orçamento superior e com parcerias alargadas com outros produtores. Já o Dia da Tauromaquia é um evento focado na cultura taurina e na celebração da mesma. Será um dia para descobrir a cultura taurina, ou para viver a paixão por esta cultura tão intima da portugalidade. As actividades são de âmbito taurino com demonstrações de toureio e pegas, aulas de toureio de salão, aula sobre a história da tauromaquia, actividades para crianças, animação infantil, batismo de equitação, demonstração equestre, demonstração de várias tauromaquias como Recortadores e a Capeia Arraiana, um Festival Taurino entre outras.

Oito cavaleiros a duo e mais três matadores. Não acha um exagero para o festival taurino a realizar nesse dia? Em termos qualitativos pode não resultar…

Como é um dia diferente também o formato é diferente. Esta forma permite a presença de mais toureiros e de criar motivos de atracção para todos os aficcionados. Quanto ao resultado qualitativo depende sempre do toiro, por isso fazemos votos para que seja uma dia de celebração da tauromaquia e que tudo possa sair bem.

Porque é os aficionados que tenham cartão de aficionado não podem usufruir de desconto ao comparar na Ticketline e na ABEP?

Porque o Cartão Aficionado possui um software especifico para a sua gestão e ainda não se encontra integrado com a bilheteira da Ticketline e da ABEP. Essa é a razão e está previsto que todos possam usufruir do desconto em breve.

O que está a ser feito para resolver esta questão que não permite uma igualdade para detentores do cartão aficionado, independentemente do local de compra?

É uma integração que está prevista e contamos que já esteja disponível pelo mês de Abril, quando a temporada começar a arrancar em força. Neste momento o desconto pode ser utilizado nas compras feitas nas bilheteiras das praças. É um cartão gratuito e pode ser aderido online em www.touradas.pt.

Qual será o papel da imprensa neste Dia da Tauromaquia?

O papel será o normal de qualquer meio jornalístico. Analisar e reportar o que se lá passar.

Haverá nova edição do BullFest? Ainda em 2019?

Não, para este ano não temos previsto uma nova edição do BullFest.

Como pensa a Protoiro combater e ajudar a elevar a qualidade da imprensa taurina portuguesa que está a muita distância qualitativa dos restantes países aficionados?

Não julgamos que a ProToiro tenha de ter intervenção na imprensa da especialidade. Esta deve reger-se pelos seus critérios jornalísticos com isenção e verdade e não nos cabe a nós intervir nessa dimensão.

As redes sociais acabam por ser preponderantes para a Protoiro. São o veículo mais rápido e económico de passar a mensagem?

Absolutamente. São o nosso canal com o maior retorno e com um custo mais baixo. São ferramentas poderosas e centrais na nossa estratégia de comunicação. Desde a criação da marca Touradas em 2016 que se tornaram ainda mais importantes correspondendo ao mote da marca que é #viveatuapaixao. Ali podemos trocar ideias, ouvir os seguidores, criar produtos e soluções em conjunto, partilhar paixões…está a ser um grande sucesso. Temos uma comunidades global de mais de 100 mil seguidores, com especial foco no Facebook com o Instagram a ser a estrela da companhia, com níveis de engagement fantásticos.

O que está a Protoiro a fazer com as Entidades de Turismo para promover a tauromaquia através do turismo rural que está em expansão?

Temos planeado a criação de um roteiro nacional de turismo taurino, agregando diferentes eixos como a gastronomia, natureza, festividades, e cultura taurina. Era um projecto previsto para 2019, mas com a limitação de recursos, vamos dar prioridade ao plano estratégico que estamos a preparar em 2019, passando a área turística para 2020.

Tem exigido profissionalização do sector. Como tem corrido o desafio e quais as maiores dificuldades?

Todas as forma de cultura com uma origem popular, como é o caso da tauromaquia, são mais inorgânicas nas suas estruturas e intervenientes. Isso faz com que existam práticas muito diversas de produção e gestão dos eventos, sendo que muitos deles são produzidos por produtores esporádicos. Por esta razão é mais complexo introduzirem-se inovação e modernização. Mas esse é um imperativo. Por outro lado o sector tem alguma atitude conservadora em relação à mudança, esse é um dos seus defeitos. No entanto, o Cartão Aficionado é um exemplo da adopção de uma nova mentalidade de gestão na tauromaquia e só foi possível com o envolvimento e adesão dos empresários, o que um óptimo sinal.

O que poderá ser feito para desenvolver a Tauromaquia a norte do país onde tem perdido influência? Como está a questão da Praça de touros de Póvoa de Varzim?

A aficion no norte é muito grande, bastando ver por exemplo as taxas de ocupação das praças, que estão sempre entre as mais altas do pais. Em 2018 a zona norte volta a ser a região com a taxa de ocupação de praças de toiros mais elevada do país com 83%. O que tem existido é uma menor aposta dos empresários na produção de espectáculos taurinos no norte. Nesse sentido estamos a preparar um conjunto de incentivos para mobilizar o aumento da oferta cultural taurina no norte. O tema da Povoa de Varzim vai avançar para tribunal. A actuação da C.M. da Povoa de Varzim é ilegal e atentatória dos direitos e liberdades dos portugueses. Mas uma coisa é certa, este ano haverá corrida de toiros na Póvoa. O movimento local já o anunciou e está tudo em marcha.

A Protoiro baseia a sua actividade na reacção aos anti taurinos. Quando começará a agir?

Pelo inverso. A actividade da Protoiro, quer através da Federação quer através da marca Touradas é proactiva desde há vários anos. A nossa acção de lobby é um trabalho continuo e não reactivo, a criação de temas e comunicação nos media generalistas também, o desenvolvimento de iniciativas já faladas como o Cartão Aficionado ou o alargamento da venda de bilhetes online criando parcerias que permitem aos empresários aceder à maior bilheteira nacional com custos muito competitivos, a criação do Dia da Tauromaquia são alguns exemplos de como o nosso trabalho é proactivo.

Esta falta de acção deve-se a falta de disponibilidade financeira da Protoiro?

Não existe qualquer falta de acção, como referi antes. Queremos ampliar cada vez mais a nossa acção e só com um aumento do orçamento disponível isso será possível. Não podemos ir além do que o orçamento nos permite. Gostávamos muito mas cada passo tem de ser dado com sustentação.

Quanto custará o Dia da Tauromaquia e quais os parceiros e apoios que contará?

O custo não é uma informação relevante, o que nos interessa é obter resultados na promoção e divulgação da tauromaquia junto de novos públicos e o envolvimento dos aficionados com a sua cultura e paixão. O Campo Pequeno é o nosso parceiro na organização. Como media partners já estão confirmados o Correio da Manhã, a revista Vidas, o Jornal Económico, o Mirante, a Gazeta das Caldas, o Correio do Ribatejo e a Rádio Iris. Contaremos ainda com vários municípios que fazem questão de estarem presentes no evento. Tudo será revelado em breve.

O que está a Protoiro a desenvolver para captar novos públicos?

Remeto novamente para a nossa actuação comunicacional nas redes sociais que nos permite chegar a milhões de pessoas, a comunicação proactiva junto dos media generalistas, a criação de facilidade de acesso digital aos bilhetes para as touradas, a criação do Cartão Aficionado e eventos como o Dia da Tauromaquia são alguns exemplos.

Existem dados estatísticos de público em 2018 nas praças de touro portuguesas?

Sim. Posso dizer-lhe em primeira mão, porque os nossos números ainda não foram lançados, que no ano de 2018 realizaram-se 202 espectáculos praticamente em linha com os 205 de 2017. Volta a haver pelo segundo ano consecutivo uma subida de espectadores para os 440.350. A média de espectadores em corridas de toiros continua a subir tendo ficado em 2018 nos 2654. Em termos de transmissões televisivas foram 4 (3 na RTP e 1 na TVI) e obtiveram um acumulado médio de 2 milhões de telespectadores, subindo também em relação a 2017. 2018 foi um ano muito positivo e volta a confirmar que as touradas em Portugal estão a crescer de novo.

A Protoiro conseguiu ter destaque num jornal de grande tiragem generalista, inclusive com crónicas de corridas. As crónicas são sempre assinadas por Miguel Ortega Cláudio. Qual o critério para a escolha?

O destaque foi dado à tauromaquia, porque é um sector que gera retorno para os media. A escolha recaiu num critico da nova geração com qualidade reconhecida por todos os seus pares.

Existe pagamento ao crítico taurino em questão para a redacção de artigos e crónicas?

Não.

Quais as expectativas para 2019 em termos de tauromaquia?

Esperamos ver o sector a continuar crescer, a modernizar-se e a comunicar-se cada vez mais para a sociedade portuguesa, de forma mais inovadora e eficaz. Esperamos uma temporada com o reforço da afirmação dos jovens valores da nossa tauromaquia que em 2018 tomaram conta da nossa Festa e que o crescimento de público seja uma constante. Acima de tudo muita arte e liberdade.

Para quando reunião com a Ministra da Cultura, Graça Fonseca?

Aguardamos a resposta do Ministério da Cultura. A última foi há exactamente um ano onde defendemos a descida do IVA cultural, o que se tornou uma realidade.

Haverá eleições legislativas. A Tauromaquia vai ser parte da campanha? Tendo em conta a projecção que este tema deu em 2018?

Da parte dos partidos anti-taurinos como o PAN e BE, que não fazem parte da herança de Abril, o tema estará presente. Nós também faremos o nosso trabalho.

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Que aproveitem o ano de 2019 para conhecerem a cultura taurina, experimentar ir a uma corrida e conhecer na primeira pessoa esta forma de cultura portuguesa única no mundo. Nada como viver o que é nosso.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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