‘O Sol Sorri à Mão Fatal’: “A caça é uma escola de humildade, é uma escola de concentração, é uma escola de entender a natureza, é uma escola de preservar as espécies e não tem nada a ver com violência”

 

 

O Sol Sorri à Mão Fatal”, da autoria de Pedro Vieira e Luís Mira, foi apresentado no espaço Espelho de Água, esta quarta-feira. Um livro que conta 25 anos de caça à perdiz e as aventuras de um grupo de caçadores.

 

 

Num espaço repleto de amigos, familiares, conhecidos ou simples amantes da caça, marcaram, ainda, presença várias figuras públicos de distintos quadrantes da sociedade. No final da apresentação, que contou ainda com intervenções de Cecília Carmo (assina o prefácio) e António Paula Soares (presidente da ANPC), o Infocul entrevistou os dois autores do livro, Pedro Vieira e Luís Mira.

 

 

Neste livro podemos encontrar actas, lavradas no final de cada caçada, estórias dos elementos deste grupo de caçadores e dos amigos e familiares que se vão juntando e muita dose de humor. Um livro que mais do que ensinar a caçar, ensina os valores que a caça transmite.

 

 

O nome “Mão Fatal” vem de um grupo do pai de Luis Mira, “o meu pai tinha um grupo de caça que se chamava Mão Fatal e nós quando nos começámos a juntar achámos piada ao nome e acabámos por ficar com esse desígnio da Mão Fatal. Ela de fatal tem pouco porque eu acho que o grupo dele tinha atiradores e caçadores bastante melhores do que nós somos e por isso esta é uma Mão Fatal mais fraca”, diz-nos com sentido de humor.

 

 

Questionado sobre quantos elementos integram actualmente o grupo, diz-nos que “isto não é uma coisa fechada, é o amigo do amigo que vem, depois desta iniciativa que aqui tivemos mais pessoas vão querer vir. Eu acho que ao longo destas páginas todas deve andar muito perto das 80 pessoas que passaram e caçaram, o amigo do amigo, e que constam destas histórias”.

 

 

Luís Mira fez ainda uma comparação, em modo retrospectiva, sobre a importância do caçador na sociedade, pois “o caçador hoje tem um papel na sociedade que não tinha há 100 anos atrás, ou há 50, ou há 30, ou há 20, nos países mais evoluídos do norte da Europa, o caçador faz parte de um triângulo entre o agricultor que alimenta a caça e tem os terrenos, o ecologista que faz os levantamentos e as densidades que são necessárias e caçador que mantém o equilíbrio entre as espécies, nós aqui temos espécies que provocam grandes prejuízos como os javalis, por exemplo na Finlândia os Alfes quando não são abatidos num número que é necessário para manter um determinado nível das populações depois começam a haver acidentes nas estradas e depois morrem pessoas, portanto o papel do caçador é ser aqui um elemento que equilibra a biodiversidade e o ambiente. Há que dizer aqui uma coisa, é que os caçadores contribuem, pagando, para a manutenção dessa biodiversidade”.

 

 

Alguns movimentos encaram a caça como actividade violenta, contudo Luís Mira rebate, dizendo que “a caça é uma escola de humildade, é uma escola de concentração, é uma escola de entender a natureza, é uma escola de preservar as espécies e não tem nada a ver com violência. Eu quando era miúdo os meus pais deram-me uma espingarda que tinha umas rolhas e uma guita, mas agora já não há, já não se pode dar uma espingarda a miúdos, mas compra-se jogos da playstation em que se matam dezenas de pessoas e há tiros e violência e pancadaria, esses sim são violentos. Eu aprendi em miúdo que não podia apontar essa espingarda com rolhas, nem a um gato, nem a um pássaro, multo menos a uma pessoa e isso deu-me uma escola de respeito e de manuseio pelas próprias armas, caçar é procurar, caçar é conhecer os hábitos das peças de caça, caçar tem tudo menos violência, se você for caçar e se estiver irritado e se estiver com um problema ou se estiver a pensar noutra coisa, não caça nada, porque caçar é uma grande disciplina mental, é um grande equilíbrio entre todos as coisas que são precisas fazer quando se caça”.

 

 

Para quem não é entendido na arte de caçar, pedimos ainda a Luís Mira para nos explicar quais os maiores desafios que a caça coloca, tendo o caçador dito que “o primeiro desafio quando se caça à perdiz é descobrir a perdiz, para caçar às perdizes é preciso ter uma capacidade física razoável, porque chega-se a andar mais de 20 quilómetros num dia, com a espingarda, com os cartuchos, com as perdizes, é preciso ter essa capacidade. Eu acho que para caçar às perdizes de salto, é necessário também ter um bom cão e um bom cão exige treino, depois é também necessário conhecer o comportamento das perdizes e o terreno e depois é preciso ter pontaria” acrescentando que quanto a locais produtivos para a caça, “aqui o produtivo é onde nos dá mais prazer, lembro-me de caçar nas margens do Guadiana, que agora já não é possível, é muito interessante caçar nas margens do Alqueva, mas também é interessante caçar onde há estevas…”.

 

 

Esclareceu ainda que “caçar custa tanto como outros desportos, primeiro caçar só se caça 3 ou 4 meses no ano, primeiro porque eu por 500 euros posso ter uma espingarda e a partir dai é só pagar as perdizes e os cartuxos, uma pessoa que tenha um orçamento igual e fizer duas maratonas por ano, pode caçar como nós caçamos”.

 

 

Sobre o constante embate dos movimentos minoritários e o mundo rural, diz que “nem eles conhecem o mundo rural, nem o mundo rural os conhece a eles, e o problema desses movimentos mínimos é que querem impor a sua vontade aos outros e um pilar básico da democracia é a tolerância”.

 

 

Pedro Vieira, também autor do livro, começou por nos recordar a sua primeira caçada, “tinha 15 anos, e foi às perdizes, numa herdade que a minha avó tinha, que era a Herdade do Figueiró e fiz a caçada, na altura era um feitor que estava lá na herdade que foi comigo, e eu matei a primeira perdiz e ainda me lembro muito bem dessa perdiz, matei duas perdizes e pus-me a olhar para uma e depois a outra não consegui apanhar, não tinha cão, e lembro-me perfeitamente dessa perdiz”.

 

 

Durante a apresentação do livro abordou a importância do cão de caça, afirmando mesmo que “um caçador que diga que não tem cão, não é um bom caçador”, explicando-nos, em entrevista, que “o cão é metade da caçada, o cão complementa a nossa caçada, é o cão que nos faz o lance da perdiz. As perdizes caçam-se de duas maneiras, caçam-se como nós caçamos, em linha, que é uma linha de caçadores com cães, que vai empurrando as perdizes, a perdiz é uma ave muito corredora e só quando está apertada é que levanta e os cães é que fazem esse trabalho, ou então há o caçador de perdiz que é mais um atirador, nas batidas, que está numa porta e são batedores que empurram a perdiz para passarem por cima das portas, ambas as modalidades são extremamente atractivas, eu também atiro a perdiz de batida, mas o facto de irmos para o campo em vez de termos de percorrer 20 quilómetros atrás do nosso cão, observar o cão, o trabalho todo do cão, a busca do cão no mato, é uma metade ou mais de metade da caçada. Quando eu disse na apresentação que eu falei, que devo do que sou como caçador aos meus cães, é verdade, porque os cães ensinam-nos muito, os cães no campo indicam-nos a caça, mostram se a perdiz foi para um lado,ou para outro lado, há ali uma empatia entre o caçador e o cão que é única”.

 

 

Sobre a possível violência muitas vezes associada ao cão de caça, Pedro Vieira nega e explica que “o cão de caça é o animal mais dócil que há, é um animal que está habituado a procurar, especialmente os cães de pena, é um cão que está habituado a procurar a presa quando a presa é abatida trazem-nos a presa e se essa presa está ferida, traz-nos a presa viva à mão”.

 

 

Questionei ainda o caçador sobre as iniciativas que poderiam ajudar a combater a ignorância que exista nos citadinos sobre o mundo rural, tendo Pedro Vieira dito que “acho que tem a ver com as cidades do interior, com os autarcas do interior que têm de tornar o campo apelativo e têm de chamar as pessoas para o campo, infelizmente houve uma desconexão com o campo sobretudo nas últimas duas, três gerações, eu lembro-me quando era miúdo as pessoas falavam em ir à terra e iam ao campo, hoje me dia falam em ir à terra e vão à cidade , perdeu-se o contacto com o campo e isso é dramático”.

 

 

A agricultura biológica sempre se utilizou, as plantas eram adubadas com estrume da vaca, de ovelha, do porco, do cavalo, ou da cabra, a agricultura biológica sempre se utilizou hoje é que quase um termo de marketing chamar agricultura biológica, mas a agricultura biológica pratica-se e sempre se praticou”, disse-nos ainda quando usámos como exemplo de actividade que sempre se praticou e que ganhou agora nova designação.

 

 

Questionámos ainda sobre as actas que são escritas no final de cada caçada, um ‘ritual’ que “é o nosso grupo que o faz, há alguns grupos de caça que lavram as actas, por exemplo eu tenho família dinamarquesa, e vou todos os anos à Dinamarca a uma batida aos faisões e estes meus familiares têm actas lavradas das caçadas realizadas na propriedade onde vivem desde 1760”.

 

 

O livro é “uma edição de autor, que vai ser distribuída pela Gradiva” e que conta com “criticas muito humorísticas e mordazes”.

 

 

Fotografia: ADBDCommunicare

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Notícia publicada a 07/12/2018

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