Em pleno Outono e com o Inverno caminhando até nós, a passos largos e nem sempre certos, é tempo de pensarmos em peças de roupas mais quentes. Uma das mais carismáticas e tradicionais do nosso país é o Capote Alentejano. E para descobrir um pouco mais sobre ele, e sobre a nossa história, visitámos as Confecções IMA, onde são produzidos em burel.

É em Santa Eulália, no concelho de Elvas, que se localiza a fábrica, e também loja, das Confecções IMA.

Rosária Grilo, que integra a administração da empresa em conjunto com José Alpedrinha, começou por nos revelar de onde surgiu este gosto pelo Capote Alentejano.

Este gosto deve ter nascido comigo. Eu fui criada no campo e então desde sempre que via, não só nos meus antepassados como em todas as pessoas que trabalhavam nesta região, todos eles tinham o seu capote e elaborados por eles próprios”, disse-nos.

Relembrou que “…os pastores cuidavam e tosquiavam as ovelhas, e as suas esposas lavavam a lã, teciam na roca, para fazer os fios e depois nos teares domésticos com cerca de 25 cm. E era aí que elas faziam as folhas de burel, que saíam apenas com 20 cm, e que depois eram acrescentadas ao ponto de fazerem os capotes de antigamente que tinham muito mais roda, do que os de agora. Esses capotes tornavam-se quentinhos mas também impermeáveis, porque a lã não era 100% bem lavada para que ficasse com parte da gordura, que era chamada de sebo, e todos nós sabemos que a água não se mistura com o azeite, e então aquela gordura tornava aquele tecido, aquela peça, impermeável. E assim, não só os abrigava do frio como também os protegia da chuva, porque todos sabemos que há 100 anos, e até mais atrás, não havia os abrigos e protecções da chuva que temos hoje e então tinham de se munir. E o próprio capote serviria para proteger do frio e da chuva.

Esta peça, tem ao longo dos tempos evoluído para uma quase plena aclamação nacional no seu uso. Outrora usada, quase em exclusivo, pelas gentes do campo, é hoje símbolo de tradição e modernidade e tem conquistado cada vez mais público urbano.

Sobre a sua confecção, Rosária Grilo diz-nos que “numa fábrica como a nossa quase não fazemos um capote seguido. Aproveitamos as várias coisas, porque o tempo tem de ser sempre muito rentável. Às vezes temos mais de uma pessoa, são duas costureiras a trabalhar, e elas dividem o trabalho para que possam aproveitar na máquina a cor da linha. Então, enquanto uma faz a montagem do capote, a outra vem colocar-lhe o forro e a outra já vai fazendo a montagem do capote seguinte. Porque normalmente fazemos sempre mais do que um, a menos que seja algum capote com uma medida especial. Fazemos sempre muito mais do que um da mesma medida”.

Contudo, confessou-nos que “Imagino que se alguma (costureira) pegasse num capote, desde que ele sai do corte do Sr. José Alpedrinha, até ele ficar pronto e alguém o pudesse usar, acredito que em um dia ficaria pronto”.

A confecção tenta manter-se fiel à tradição, até porque “…nós, como a nossa casa tem o objectivo de manter a tradição do Capote Alentejano, que surgiu há muitos anos atrás, porque já no reinado de D. Maria II, já os alentejanos iam à capital com o capote e a samarra. Apenas trabalhamos com o burel. Ou seja, tudo o que se faz nesta casa é apenas em burel”.

Existem alguns mitos associados a esta peça, sendo uma dela o seu peso. Há até quem diga que é muito pesado.

Rosária tem uma opinião divergente, porque “Se comprarmos, eu própria tenho um bom casaco de inverno, e ele próprio tem o seu peso”.

Portanto se falarmos do capote antigo, que lhe referi anteriormente, sim era pesado. Porque haviam diversos capotes desses que tinham muita roda e gordura e o burel ficava até mais pesado, e alguns desses chamavam-se até de gabão que poderiam rondar os nove / dez quilos. Portanto é um peso bastante para trazermos sobre os ombros um dia inteiro. Hoje, os nossos capotes continuam a manter a nossa tradição viva mas como já não temos pastores, então os capotes já não servem para os pastores. Já não precisam ser impermeáveis, hoje em dia utilizamos como abrigos, abrigos finos até, porque eles apresentam-se como tão elegantes, para os levar a qualquer sítio. A um evento, no dia-a-dia, então os nossos capotes também tiveram um toque de elegância. Portanto deixaram de ser do campo para vir para a cidade e hoje são peças citadinas. Vemos-los em qualquer cidade do nosso país, como Porto ou Lisboa, ou até mesmo Paris ou Nova Iorque, e em qualquer lugar o nosso capote desfila sempre elegante.”, acrescentou.

E explicou-nos até o que mudou da confecção de outrora, para agora.

Tirámos essa roda excessiva que ele tinha e o burel mandámos preparar como nós queremos. Ele tem três fases em que pode ser mandado preparar: leve, médio e grosso. E normalmente para trabalhar os capotes hoje em dia, mandamos trabalhar o médio. E hoje em dia um capote tradicional, longo, ronda em média os 2,5 quilos /2,8 quilos. Portanto não considero um peso exagerado para um casaco, se assim quiserem chamar, embora eu prefira que lhe chamem peça, que nos vai abrigar por completo, de cima a baixo.

Sobre os pedidos mais peculiares que já lhe fizeram, lembrou-se de “uma senhora que me pediu um capote que abotoasse com uns alamares, que existiam antigamente. Portanto ela própria adquiriu esse adereço e pediu-nos para fazer, porque tinha uma grande paixão pelo Capote Alentejano. E como aqueles alamares eram do avô dela, pediu-nos para colocar, portanto com menos roda, mais ajustado ao corpo como se fosse um casaco”.

Nas Confecções IMA, “Neste momento trabalhamos quatro pessoas. Duas costureiras assíduas que trabalham connosco, eu e o senhor José Alpedrinha. Nós os dois fazemos parte da administração. O Senhor José Alpedrinha, é ele que, basicamente, corta todas as peças, eu dou uma mãozinha também. Sou uma multi-funções, quando aperta alguma coisa, dou uma mãozinha a um ou a outro, mas cada um dos quatro elementos que aqui trabalham tem a sua função. Trabalhamos todos num espírito de entreajuda, eu costumo brincar com elas e dizer que somos uma equipa como os mosqueteiros em ‘um por todos e todos por um.”

Recorda que esta é uma fábrica quase centenária. Esta fábrica deve ter aqui, em Santa Eulália, cerca de 85 anos. Quem trouxe os capotes para esta terra e os começou a fazer, foram os pais do senhor José Alpedrinha, o senhor Isidro Marques Alpedrinha que chegou aqui com uma malinha de cartão, sem eira nem beira, como se costuma dizer.”

Altura em que nos contou parte da história do fundador desta fábrica e também parte do percurso dele.

Ele saiu da Beira, porque são beirões, com o intuito de se deslocar para Elvas, porque já fazia alguns capotes lá, por encomenda, porque as encomendas e os clientes eram daqui. Muitos deles queriam, naquela altura, um capote para utilizar no campo. Então, o senhor Isidro quando se casou disse’ porque estamos a gastar dinheiro a enviar os capotes? Vamos fazer a nossa vida no Alentejo’. Isto sem conhecer nada do Alentejo, de Elvas, e sem saber onde ficava a sua localização. Meteu-se no comboio, com a sua mulher e a sua malinha, ao passar Portalegre pediu ao revisor para o avisar quando estivesse a chegar a Elvas. O revisor ao perceber que o senhor Isidro não conhecia a zona, perguntou-lhe o que vinha para cá fazer. O senhor Isidro respondeu que era alfaiate, fazia capotes alentejanos e que os seus clientes eram, maioritariamente, de Elvas. Ao invés de perder tempo e gastar dinheiro e enviar as encomendas, preferia vi trabalhar para juntos clientes e aqui iniciar vida. O revisor disse-lhe ‘Então porque não fica em Santa Eulália? É onde estão mais lavradores aglomerados. Então desceu em Santa Eulália, no apeadeiro, e imagine-se a curiosidade: a primeira casa onde ele foi morar, é onde moro hoje.

O filho mais velho, de dois, o senhor José Alpedrinha foi à escola, mas com cerca de 13 anos era preciso dar ajuda ao pai e então começou a tomar o gosto por isto. E então, mais tarde o pai fez-lhe o convite para trabalhar com ele, porque juntando-se os dois podiam fazer mais quantidades, pois naquela altura as encomendas eram muitas. O senhor José Alpedrinha aceitou, mas colocou uma condição, não queria apenas aprender de pai para filho, para sim fazer uma formação de costura e então o pai aceitou e mandou-o para Lisboa durante algum tempo, onde fez a formação em costura. Depois de fazer a formação, regressou, e começou a trabalhar com o pai até este deixar por questões de saúde. Continuou, até aos dias de hoje, o sonho de seu pai. O senhor José Alpedrinha actualmente tem 83 anos”, contou-nos Rosária.

Para todos aqueles que queiram adquirir uma peça confeccionada nesta fábrica, é fácil.

Hoje em dia é muito fácil, basta querer. Eu desde que cheguei a este espaço, dei-lhe também uma lufada de ar fresco, por assim dizer, em todos os sentidos. Não apenas modernizámos as peças como também a maneira de trabalhar com elas. Porque de vez em quando, já aqui comigo, surgiam algumas reclamações de peças que não eram nossas, ou seja, alguém que as vendia gato por lebre. Vendia-as usando o nome do Sr. José Alpedrinha, mas as peças não eram desta casa. As pessoas chegavam aqui a dizer que o burel não ganha borboto, que passa de geração em geração, que não deforma e eu explicava que aquilo não era da nossa casa. Até que disse ao Sr. José Alpedrinha que apenas passaríamos a vender os capotes na nossa casa que era para não haver misturas. Decidimos vender apenas aqui, criei uma página na internet chamada Confecções IMA, essa página tem lá um botãozinho que vai directamente ao nosso e-mail, eu faço questão de responder a qualquer questão. Tem o nosso contacto, a nossa localização e basta que a pessoa entre em contacto comigo e a pessoa pode receber o capote com todo o conforto. Pode ainda visitar-nos e provar a nossa gastronomia, é uma honra recebermos em nossa casa. Caso não tenha essa possibilidade, a peça vai ter a casa do cliente”, disse-nos Rosária.

Mas as novas gerações parecem pouco dadas à arte de confeccionar os capotes, pois “Essa é a parte mais triste para quem gosta desta tradição, como eu. Não vejo as novas gerações muito interessadas na confecção desta arte. Hoje vimos sim, talvez porque algumas celebridades usam, adquirindo estas peças para usar. Não sei se por gosto ou se por personalidades usarem. Agora encontrar mão-de-obra jovem é realmente muito complicado.

Já sobre o que distingue o Capote Alentejano de um outro qualquer casaco, foi clara: “Muita coisas. 1- Quem usa é porque gosta e além de trazer um abrigo muito quentinho, também traz um bocadinho da nossa história. Esse eu acho que é o ponto mais importante. 2- A matéria-prima. Não vemos outro casaco confeccionado em burel. E este burel se for cuidado, passa de geração e geração. E como são cores intemporais (antracite, verde garrafa, castanho, bege e preto), nunca passam de moda”.

Contactos:

Telefone: 268671139

e-mail : capote.alentejano@gmail.com

Fotografias e Entrevista: João Carrilho.
Texto: Rui Lavrador e João Carrilho

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