Foto: Germán García Adrasti

Zé Perdigão é, por muitos, considerado das melhores vozes masculinas em Portugal e lançou este ano um disco dedicado a Cabo Verde, país no qual vive actualmente. Em entrevista ao Infocul.pt, o cantor falou sobre a quadra festiva, as suas tradições, a sua fé, as memórias de infância, as diferenças entre Portugal e Cabo Verde e desvendou ainda alguns dos projectos que espera concretizar em 2020.

Zé, amanhã será a véspera de Natal e começo por te perguntar sobre a importância desta noite para ti?

Nos últimos anos, tem-se questionado muito se é necessário comemorar o Natal. Algumas igrejas, até eliminaram, de uma forma abrupta, o culto de Natal. A base que têm é na defesa de alguns lideres a intromissão do paganismo nesta festa e comemoração. Dizem, com uma certa razão, que árvores de Natal, Pai Natal, presentes, etc… vieram do paganismo; também dizem que como ninguém sabe a data ao certo do nascimento de Jesus, não podem comemorar essa data. É verdade que todas as festas consideradas universais foram misturadas com o paganismo e muito pela cobiça humana de vender e consumir, mas não podemos deixar de comemorar uma das festas mais significativas para a humanidade, que é o nascimento de Jesus Cristo. Por vários motivos; a comemoração de Natal valoriza a historicidade do nascimento de Jesus, e é também uma oportunidade para o mundo testemunhar o verdadeiro significado de Natal. Resumindo sem o nascimento de Jesus Cristo não há inicio, do ponto de vista cronológico o Natal é uma data de grande importância para o Ocidente, pois marca o ano 1 da nossa história.

Como é, habitualmente, passada esta noite?

Para mim é e sempre foi uma noite de muita introspecção e reflexão. É também uma noite de muita alegria, de emoções e sentimentos por quem já não está mais entre nós, os que estão longe, ou outros motivos. Mas esta noite é vivida por mim e aceite tal qual um milagre que jamais pode ser repetido, e nessa medida nunca tive “natais” iguais.

Em termos gastronómicos, quais as especialidades da época a que não resistes?

Sou muito minhoto e “galego” nisso. Na mesa de Natal tem de haver polvo à galega, uma boa vitela assada, mariscos, e o famoso bacalhau cozido com batatas e couve. Um bom vinho português, espumante, e vinhos generosos. Uma boa tábua de queijos para acompanhar com pão-de-ló, rabanadas, bolo rei, aletria, mexidos, frutos secos… Se estivesse em Guimarães, minha terra Natal, não faltaria e nem resistiria certamente aos doces tradicionais tais como toucinho do céu, tortas de Guimarães da família Costinha e o bom bolinhol de Vizela.

Tens estado em Cabo Verde, país que inclusive inspirou o teu último disco. Como é que esta quadra é vivida aí e quais as tradições praticadas?

É vivida de uma forma simples. As tradições são muito idênticas às de Portugal, salvaguardando claro está o calor que cá faz! (risos). Aqui, em Cabo Verde, o Natal é uma das festividades mais importantes, onde as celebrações têm uma grande importância religiosa. No entanto o aspecto mais importante e que prevalece é o da festa da família, oportunidade para o regresso de muitos emigrantes, trabalhadores e estudantes, que voltam às suas ilhas de origem para assim comemorar o Natal com os avós, pais, e demais familiares. Os pratos dependem das tradições locais, por exemplo em São Nicolau e Santo Antão é usual “xerén” – um prato tipico à base de farinha de milho, acompanhado com atum fresco, leite de coco e malagueta picante, também a chanfana, noutras ilhas como Fogo e Santiago, o “djagacida” – um prato tradicional à base de abóbora e favonas ou ervilhas, usual é também a “catchupa” – sempre um prato tradicional de festa à base de feijão e milho com vários tipos de carne, ou peixe. De forte tradição são também os “fidjose” ou filhoses em português, pasteis de milho e, ultimamente as rabanadas, sonhos, etc… indispensáveis sempre são os mais variados frutos secos importados. O dia de Natal também encerra algumas tradições especiais, as famílias passam o dia todo reunidas e partilham uma refeição especial em regra o almoço, aqui é servido normalmente um prato de bacalhau ou peru assado, nas famílias de mais posses naturalmente.

Vais passar o Natal em Cabo Verde. Como é que se vive esta quadra, por norma tão ligada à família, num país estrangeiro?

Quando se escolhe uma profissão há sempre um preço a pagar, o meu foi sempre estar longe da família, longe dos amigos de infância… mas sempre fui levando a vida com alegria, às vezes com tristeza, e certas vezes com solidão… mas a vontade e o querer da realização de um sonho me fez chegar até aqui (tão longe do ponto de partida) e isso sempre superou qualquer tipo de sofrimento. Infelizmente os meus pais já partiram há uns anos e agora a única pessoa de laço familiar de sangue que me prende a Guimarães é a minha irmã mais velha, cunhado e sobrinhos, mas sempre matamos saudades através das redes sociais. Sinto-me muito feliz aqui em Cabo Verde porque, para mim, família também é quem cuida de nós, quem nos ama, quem se preocupa connosco, quem respeita a minha vida e as minhas escolhas, quem me faz companhia, quem aceita até e compreende os meus defeitos. Assim sendo, os amigos que fazemos é a verdadeira família que Deus nos deixa escolher, e agradeço a Deus todos os dias os amáveis e bons amigos que aqui encontrei.

Espiritualmente como vives esta quadra? Mais numa vertente introspeciva ou de partilha?

Como já referi, sou uma pessoa muito introspectiva, muitas pessoas confundem e associam isso a tristeza, timidez… etc… Nada disso. Eu adoro estar comigo mesmo, adoro apreciar o silêncio e sinto-me muito bem em ambientes de paz e tranquilidade, gosto muito de ficar a sós com os meus pensamentos. Tenho muito pouca paciência para conversas sem conteúdo, não sou avesso a pessoas que agem assim, mas não aprecio e acho muito pouco natural o que uma conversa superficial geral.

Costumas ter também a correria aos presentes?

Não. O meu Natal em nada é uma celebração de consumo ou “festa do capitalismo”.

Quando eras criança, ficavas acordado até à meia-noite para abrir os presentes?

Nasci no seio de uma família pobre e humilde. De classe trabalhadora, e num tempo (anos 70) em recuperação de uma ditadura de quase 50 anos e na conjuntura de um povo que a medo aprendia os valores da liberdade e da democracia. Tive uma infância feliz mas em nada fácil. Em casa dos meus pais não havia “Pai Natal”, havia “Menino Jesus” e o famoso “sapatinho” onde apareciam as humildes prendas. Lembro-me que até aos meus 5 anos de idade a prenda do Menino Jesus era aguardada com muita expectativa e emoção, mas muito cedo tive consciência de que a prenda do Menino Jesus era fruto do esforço financeiro do duro trabalho dos meus pais, e então ficava muito feliz com uma roupinha nova feita pela costureira da rua onde vivia a mando de minha mãe, com as medidas que a mesma me tinha tirado meses antes, e que na manhã do dia 25 de Dezembro aparecia no tal “sapatinho do Menino Jesus”. Era uma criança feliz com o muito que a simplicidade me oferecia.

Como era o natal na infância?

Era um Natal muito simples e muito tradicional. Lembro que a véspera era um dia de muita agitação principalmente na cozinha onde tudo se passava. Ainda hoje tenho presente os cheiros intensos das várias especiarias e dos doces tradicionais que demoravam muito a confeccionar e que minha mãe fazia tão bem! Lembro a azáfama de minha mãe em volta das grandes panelas num fogão a lenha que sempre existiu na nossa cozinha. Lembro a Ceia de Natal sempre em família em volta de uma grande mesa farta de comida. Recordo a tradicional Missa do Galo, e essa era sempre uma noite mal dormida pela expectativa e ansiedade do que iria encontrar no “sapatinho do Menino Jesus” na manhã do dia 25 de Dezembro num presépio gigante, com dezenas de figuras de barro que o meu pai todos os anos fazia sob um ramo de sobreiro enfeitado das mais variadas fitas e bolas de Natal.

Quais as grandes diferenças que notas da tua infância para a actualidade, na forma como se vive o natal?

Vivemos tempos muito diferentes, agora o tempo corre sem tempo para nada! Esta é a era do “era para ontem”, a era do computador, do telemóvel, do Ipad, do Ipod, do acesso fácil e pronto à informação, da internet, das redes sociais, etc… e isso – dizem eles – é a globalização! Mas a fome, a miséria, a marginalização; segregamento, racismo, desprezo, violência, desigualdade, hostilidade, injustiça, preconceito a que são votados milhões de pessoas no mundo, ainda não foi eliminado da face da terra por essa tal globalização! Infelizmente é a mesma realidade de sempre. A ganância de muito poucos é o principal problema e motivo do sofrimento e morte e muitos milhões de pessoas e enquanto isso prevalecer nunca haverá o verdadeiro Natal sempre esperado.

Qual a história que mais te marcou no natal?

O sofrimento, a fome, a miséria e a morte de milhões de crianças em todo o mundo, ainda são as causas que mais marcam o meu Natal ano após ano. As injustiças; vejam o que se passa em África, Médio Oriente, América Latina…

Houve algum presente que te tenha marcado particularmente?

Não, ainda não recebi o presente que mais gostaria de ter recebido: a paz no mundo – educação, saúde, justiça, trabalho e pão para todas as pessoas.

A pobreza é algo que ainda afecta muito Cabo Verde ou nem por isso?

Cabo verde é um país em próspero desenvolvimento e isso é notório. No entanto como um pouco por todos os países do mundo, a pobreza ainda é uma realidade.

Em termos da confecção das refeições do natal és mais de ‘pôr a mão na massa’ ou preferes ser ‘um bom garfo’?

Adoro cozinhar, mas gosto muito mais de comer. (risos).

És um homem de fé?

Sim sou. Nasci e cresci no seio de uma família que me educou num caminho de fé na Igreja Católica Apostólica Romana. Sou um homem de muita espiritualidade, com um apelo constante à liberdade e à igualdade de todos os homens, mas também sei que só uma redescoberta de caridade poderá fazer isso acontecer. Tenho sempre presente comigo que só a fraternidade entre os homens é que salvará o mundo, a fraternidade que constitui a própria doutrina de Jesus Cristo. É essa fraternidade que precisa de ser reencontrada através das lutas sociais.

Qual a importância que a fé assume na tua vida e de que forma condiciona ou não as tuas decisões?

A fé sempre foi o centro da minha vida. É nela que encontro forças sempre que o mundo parece desabar a meus pés. É ela que sempre me dá respostas perante as dificuldades da vida. Reparem, a física, a química, a biologia, a geologia… e suas ramificações distinguem-se das ciências humanas, a exemplo da psicologia ou sociologia, ou das ciências lógicas, a exemplo – a matemática. Mas um pensamento treinado pelas ciências naturais implica uma visão da realidade, e isso faria de mim um homem incompleto racionalmente, pois sei que a ciência não explica tudo e isso levaria a que eu fosse condicionado por falta de conhecimento. Faltaria a Fé.

Para 2020, o que estás já a preparar e que possas desvendar aos nossos leitores?

É público já o meu dueto com o cantor e compositor cubano Ibrahim Ferrer Jr. que sairá no seu próximo disco em inícios de 2020. E certamente concertos em várias partes do mundo, assim espero.

Qual a mensagem que deixas aos nossos leitores?

Naturalmente uma mensagem de esperança e fé. Nunca deixem de sonhar, é fundamental sempre que acredite em si próprio pois tudo que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele pode realizar-se, e não duvide que chegará o dia em que os “outros” não terão outra escolha senão acreditar em si. Lembre-se sempre que o fim só existe para quem não percebe o recomeço. Que a esperança seja uma constante em vossas vidas. Conhecem a Oração de S. Francisco? Quando o mundo cumprir essa bela oração, nesse dia será finalmente Natal. Bem Haja.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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One thought on “Zé Perdigão: “Tenho muito pouca paciência para conversas sem conteúdo”

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    O que sera o pagananismo ?provavelmente algum primo do consumismo!

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