Terça-feira, Novembro 30, 2021

André Carvalho: “Este disco poderá ser eventualmente mais pessoal”

André Carvalho: "Este disco poderá ser eventualmente mais pessoal"

André Carvalho: “Este disco poderá ser eventualmente mais pessoal”, disse em entrevista ao Infocul.pt.

André Carvalho lançou o seu 4º álbum a solo, tendo neste caso se inspirado nas palavras intraduzíveis.

Segundo o contrabaixista e compositor, após ter tropeçado neste maravilhoso mundo das palavras intraduzíveis, escreveu um novo ciclo de música inspirado em palavras de mais de 10 línguas como o Sueco, Urdu e Wagiman (língua actualmente falada por apenas 2 pessoas no mundo).

Assim, a Carvalho juntou-se o saxofonista José Soares e o guitarrista André Matos, músicos com quem tem colaborado intensamente nos últimos anos e que formam, assim, o “core” do grupo. Nalguns dos temas, juntou-se ao trio o jovem trompetista João Almeida.

Em entrevista ao Infocul, falou sobre o disco, o seu percurso e também o que o levou a este quarto trabalho discográfico.

André, começamos pelo título do primeiro single do disco. Porquê “Uitwaaien” e o que significa?

“Uitwaaien” é uma palavra holandesa que significa sair de casa para passear ou ir para o campo num dia ventoso, de forma a espairecer. Escolhi esta palavra porque gosto da ideia do vento poder ajudar a libertar a cabeça de ideias menos positivas. Em termos composicionais, este tema tem várias secções, começando por secções mais contemplativas e calmas, em que a melodia passa do contrabaixo para o saxofone, seguindo depois para uma secção de solos aberta sobre uma linha de baixo mais dissonante. O tema segue depois para a reexposição, onde o saxofone assume a melodia do início. No fundo, este tema deambula por momentos mais tensos e de mais calma, assim como alguém que está a sofrer de alguma ansiedade e procura contrariá-la, saindo para um passeio num dia ventoso.

O álbum intitula-se “Lost in translation” que significa perdido na tradução. Algum motivo especial para este título?

Sim, muitas vezes perde-se algo quando se faz uma tradução e mesmo que se arranje uma forma de traduzir algum conceito para outra língua, podemos continuar a não perceber a real importância da palavra original na sua língua e cultura. 

Ao quarto disco encontramos muitas palavras intraduzíveis. É o seu disco mais pessoal e por esse motivo mais emocional?

Sinto que com o passar do tempo, me sinto cada vez mais conectado comigo mesmo. Por isso poder-se-ia dizer que sim, este disco poderá ser eventualmente mais pessoal. Foi um disco que foi desenvolvido durante a pandemia e de alguma forma este trabalho serviu de refúgio à pandemia que começámos a viver em 2020.

Há títulos de temas em Sueco, Urdu e Wagiman (língua actualmente falada por apenas 2 pessoas no mundo). De onde vem a ideia e qual o objectivo?

Quando tropecei nas palavras intraduzíveis, não pensei quais incluir neste novo ciclo. Simplesmente fui apontando palavras que por uma ou outra razão senti que diziam algo que me tocava. Depois, selecionei algumas palavras desta lista inicial, escolhi as que de alguma forma ressoavam mais em mim, pensando que queria ter palavras que significassem coisas bastante diferentes umas das outras, umas que transmitissem algo contemplativo, introspectivo, filosófico e outras que se relacionassem com coisas do quotidiano. Queria também que houvesse variedade de línguas, porque não só gostava de apresentar palavras, mas que as palavras fossem uma porta para tomarmos conhecimento de outras línguas e culturas mais distantes da nossa. 

Acredito que quando aprendemos palavras novas e ao expandirmos o nosso léxico, estamos automaticamente a aumentar a nossa capacidade de expressão e, por conseguinte, abrir canais de comunicação para estabelecermos relações de proximidade com outras pessoas. 

No meio de tanto mundo, que encontramos neste disco, onde fica Portugal para André Carvalho?

Continua a estar presente, continuo a ser português, a falar português e a pensar em português. Continuo a vir a Portugal, ter amigos e colegas portugueses com quem adoro fazer música e partilhar bons momentos. Isto tudo terá, de uma forma ou outra, expressão em todo o trabalho que faço.

Este disco mostra que apesar da língua portuguesa ser vasta, podemos ter de recorrer a outras línguas para conseguir expressar os estados de alma?

Sim, sinto que nem sempre temos palavras para expressar tudo o que pensamos ou sentimos. Possivelmente nunca teremos. Por isso, é óptimo aprender novas palavras. Mas as palavras intraduzíveis podem nem estar relacionadas com coisas profundas como estados de alma. Há variadíssimas palavras intraduzíveis que têm a ver com coisas da nossa vida quotidiana e, tentei incluir no disco palavras que fossem de todo o tipo.

Quem foram os músicos que estiveram consigo neste disco?

O core do grupo é um trio com o José Soares no saxofone e o André Matos na guitarra. Já nos conhecemos há vários anos, tocamos juntos há muito tempo e sentimos que há uma empatia enorme. Quando comecei a conceptualizar este projecto, imediatamente imaginei que eles seriam as pessoas perfeitas para dar corpo a “Lost in Translation”. Nalguns temas do disco, convidei o trompetista João Almeida para participar porque sinto que tem uma abordagem muito pessoal e contemporânea e isso seria óptimo para o trio.

No texto em que promove este disco explica que “idealizava um grupo sem bateria, onde o espaço e o respeito pelo silêncio fosse uma constante”. Conseguiu isso?

Eu sinto que sim, que quando tocamos há uma “respiração” comum, uma empatia grande entre os músicos. O facto de não haver bateria faz com que haja naturalmente mais espaço e, sempre que oiço o André Matos e o José Soares sinto que tocam sempre o que é preciso, nem mais nem menos. Isso é muito importante para mim e acho que contribui para a harmonia deste grupo.

É possível ‘catalogar’ este disco num único género musical? Ou de outra forma, como o classifica?

Não sei como definir esta música, mas sei que há várias influências que estão muito presentes, como o Jazz, a música contemporânea ou a música improvisada.

Para os espectáculos ao vivo, o que tem preparado?

Estaremos a apresentar a música do disco. Uma das coisas que mais gosto neste grupo é que não há grandes barreiras e cada apresentação é sempre diferente. Tentamos coisas novas, procuramos soluções diferentes etc. 

Quem é o André Carvalho fora da música e o que gosta de fazer?

Gosto muito de estar com a minha família, gosto muito de ler. Adoro viajar e conhecer sítios novos, coisa que nos últimos tempos tem sido obviamente muito difícil fazer! Recentemente, tenho desenvolvido um gosto especial por música para filmes e tenho tentado fazer algumas coisas nessa área. 

Pode acompanhar o trabalho de André Carvalho nas seguintes plataformas: Site, Facebook, Instagram, Twitter, Spotify e Bandcamp.

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