Antes do Coliseu, Nuno Ribeiro já tinha percebido tudo: “Acima de tudo, vivermos com verdade”, disse em entrevista.
Entrevista e texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
Há entrevistas que são só isso. Perguntas, respostas, gravador desligado e siga. E depois há aquelas em que se percebe, ainda antes do concerto começar, que qualquer coisa importante vai acontecer.
Foi assim com Nuno Ribeiro, horas antes de subir ao palco do Coliseu dos Recreios.
Sem pressa. Nem discurso preparado. Sem aquela necessidade de parecer mais do que é. E talvez seja exatamente isso que o faz chegar aqui.

Não foi um salto. Foi um caminho – com algumas portas fechadas pelo meio
A conversa começou onde tinha de começar: no palco que o esperava. Coliseu. Lisboa. Estreia em nome próprio.
Mas curiosamente, não houve ali aquele brilho de “cheguei”. Houve mais qualquer coisa parecida com consciência.
Porque quando se fala do percurso, Nuno não foge do que veio antes — nem das fases, nem das mudanças.
E quando lhe pergunto se este concerto ia recuperar esse caminho todo, inclusivamente as baladas, responde sem rodeios:
“Todas elas. Sim, hoje este concerto vai ser sem dúvida uma viagem entre aquele passado em que as pessoas me acompanham desde sempre, até ao estado mais atual da minha carreira.”
E aqui começa a perceber-se uma coisa. Ele não quer só mostrar onde está. Quer mostrar de onde veio.
E isso, hoje, não é assim tão comum.
Logo a seguir, quase como quem explica o que realmente importa, acrescenta:
“Então hoje fizemos sem dúvida um alinhamento que vai desde aquelas pessoas que querem cantar, desde aquelas pessoas que querem dançar e desde aquelas pessoas que me conhecem desde sempre.”
Não é sobre agradar a todos. É sobre não deixar ninguém de fora. E há uma diferença grande entre as duas coisas.

Há artistas que pensam no concerto. Ele pensou nas pessoas
Ao longo da conversa, há um detalhe que vai aparecendo várias vezes — quase sem dar por isso.
Tudo o que ele diz volta sempre ao mesmo sítio: as pessoas.
Mesmo quando fala da produção, dos convidados ou da estrutura do espetáculo, não há ego no centro. Há intenção.
“É um concerto também com uma produção e com convidados e com todo um desenvolvimento que se alguém me conhecer hoje pela primeira vez, que fique comigo e que me continue a seguir.”
Isto pode parecer estratégia. Mas não soa a estratégia.
Soa a alguém que percebeu que não basta impressionar – é preciso ficar.
E isso não se faz com efeitos. Faz-se com verdade.

Os “nãos” que não foram o fim — foram o início
A certa altura, inevitavelmente, a conversa chega aos “nãos”.
Aqueles momentos que, vistos de fora, parecem falhas. Mas que, por dentro, fazem tudo mexer.
E aqui, talvez esteja uma das respostas mais honestas de toda a entrevista:
“Olha, eu acho que os não na vida acabam por ser sempre mais positivos ou pelo menos mais construtivos do que dizerem sim a tudo.”
Não há dramatização. Não há discurso de superação ensaiado.
Há uma espécie de aceitação tranquila.
Mas depois vem a parte que realmente importa:
“Eu atualmente dou muito mais valor a um não ou quando me dizem que algo não está bom porque faz-me pensar o porquê, faz-me querer trabalhar, faz-me querer evoluir.”
E pronto. Está dito.
Nem sempre é talento. Às vezes é isto: saber lidar com o desconforto sem fugir.
Um coração que cresce – mas que não se fecha
Falámos de amor. Era inevitável.
Está na música. Nas letras. Está na forma como ele fala.
Mas não é um amor leve, daqueles que só fica bem nas canções.
É mais complicado. Mais humano.
Quando lhe pergunto como está esse “coração” — musical e pessoal — a resposta não é romântica. É consciente: “vou alimentando cada vez mais esse lado de autoconfiança, de acreditar naquilo que eu faço e naquilo que eu estou a entregar às pessoas, mas o meu coração também escuta bem o que é que as pessoas têm para me dizer.”
E isto, dito assim, sem enfeites, vale muito. Porque há ali equilíbrio. Nem fechado. Nem dependente. Só… atento.
E ainda reforça: “aquilo que eu valido e que acho que realmente seja para a minha evolução enquanto artista eu ouço e tento trabalhar isso e trabalhar cada vez mais.”
Ou seja, crescer – mas sem perder a capacidade de ouvir.
Simples. Mas difícil.

Não há personagem. E isso nota-se logo
Há uma altura em que a conversa deixa de parecer entrevista. E isso acontece quando ele fala daquilo que vai levar para palco. Não do alinhamento. Nem dos convidados. Mas dele.
“Olha, a principal mensagem que eu passo aqui hoje é, acima de tudo, vivermos com verdade.”
E não fica por aí.
Explica como escolheu quem está com ele. Como construiu tudo.
Sem filtros: “Todos os artistas que eu tenho aqui são verdadeiramente meus amigos, gosto verdadeiramente deles. Toda a equipa que me ajudou a montar isto foi uma equipa que eu verdadeiramente quis escolher de coração para fazer isto comigo.”
Hoje em dia, isto podia ser só discurso. Mas não soa a isso. Soa a alguém que não quis complicar.
Dizer o que sente – mesmo que não esteja perfeito
Há também uma coisa curiosa na forma como ele encara o palco. Não há obsessão pelo discurso certo. Há entrega.
“Tudo que eu vou dizer aqui nesta sala vai ser tudo aquilo que eu vou sentir, eu normalmente não penso muito no que é que vou dizer, eu prefiro que essas energias me deixem levar.”
E talvez seja isso que cria ligação. Porque as pessoas percebem quando alguém está a dizer o que sente – e quando está só a cumprir.
No meio de tudo isto, há um miúdo que ainda sonha
Já no fim, faço-lhe uma última pergunta. Talvez a mais simples. Ou a mais difícil.
O que é que ainda sobra daquele Nuno de antes, o miúdo?
A resposta sai sem esforço:
“Vai estar o sonhador, porque esse Nuno é sempre sonhador, ele quer sempre mais, ele é casmurro como eu já disse.”
E depois acrescenta algo que diz muito mais do que parece: “vou tentar absorver mesmo o que está a acontecer aqui e acima de tudo aproveitar o momento e desfrutar, porque deu muito trabalho também.”
E é aqui que tudo encaixa. Porque crescer é isto. Não é só chegar.
É conseguir parar – nem que seja um bocadinho – e perceber que chegaste.
No fim, não é sobre música — é sobre como se vive
Saí daquela conversa com uma sensação estranha. Como se o concerto já tivesse começado ali. Sem luzes. Sem som. Só com palavras – e com a forma como foram ditas.
E talvez seja isso que faz a diferença. Nuno Ribeiro não está só a fazer músicas sobre amor. Está a tentar vivê-lo.
E, num tempo onde tudo parece meio encenado, isso continua a ser das coisas mais raras que há.
A reportagem sobre o concerto pode ser vista aqui: Nuno Ribeiro conquistou o Coliseu dos Recreios: um concerto sobre amor, verdade e entrega que marcou Lisboa




