“Perdidos e Achados”: A Luta contra a co-incineração para ver na SIC

“Perdidos e Achados”- “A Luta contra a co-incineração” passa no dia 19 de Março, após o Jornal da Noite, na SIC.

 

Em 1997, o Governo de António Guterres optou pela co-incineração em cimenteiras como forma preferencial de tratamento dos resíduos industriais perigosos.

 

 

Mas uma enorme onda de crítica política, com divisões dentro do próprio PS, e de contestação social, com manifestações, vigílias e boicotes eleitorais, travou o processo durante anos. O ‘Perdidos e Achados’ recorda uma das mais politizadas e mediatizadas discussões ambientais da história recente do país, e mostra qual o destino dado, actualmente, aos resíduos perigosos produzidos em Portugal.

 

 

Foi no final da década de 1990 que Souselas, uma pequena vila no concelho de Coimbra, se tornou conhecida de todo o país. A decisão de queimar resíduos industriais perigosos na cimenteira da Cimpor existente na localidade foi contestada pela população, que sofria há cerca de 20 anos com a poluição da fábrica.

 

 

Na época, o pó de cimento e de carvão, o combustível então usado, dominava a paisagem. As partículas não se depositavam apenas nos telhados e nas couves cultivadas nas hortas, junto à cimenteira, mas também eram inaladas pelos moradores.

 

 

A decisão do Governo socialista surgiu como alternativa à opção por uma incineradora dedicada, uma instalação construída de propósito para queimar resíduos perigosos, defendida pelo anterior executivo social democrata, liderado por Cavaco Silva, e também alvo de forte contestação popular.

 

 

Primeiro com Elisa Ferreira e depois com José Sócrates à frente do ministério do ambiente, em dois Governos socialistas consecutivos, a decisão política foi sendo travada pela oposição no Parlamento. Boaventura Sousa Santos, sociólogo e presidente da Associação Pro-Urbe, e João Gabriel Silva, engenheiro electrotécnico e activista da Quercus, foram dois dos principais rostos da luta contra a co-incineração em Souselas. Além dos eventuais riscos para a saúde das populações, os críticos da co-incineração consideravam que esta deveria ser uma solução de fim de linha, e apenas para os resíduos que não pudessem ser reciclados.

 

 

 Do outro lado da barricada argumentativa estava por exemplo Sebastião Formosinho, professor catedrático de Química que, na época, presidia à Comissão Científica Independente de Controlo e Fiscalização Ambiental da Co-incineração. Em maio de 2000, o relatório da Comissão Científica criada pelo Parlamento considerou que a co-incineração não traria riscos acrescidos para o ambiente e para a saúde pública e indicou, além da cimenteira da Cimpor, em Souselas, a cimenteira da Secil no Outão, concelho de Setúbal, em vez da cimenteira de Maceira, em Leiria, indicada inicialmente.

 

 

 Em Setúbal, a notícia foi recebida com protestos e logo se formou uma comissão de Cidadãos pela Arrábida que temia impactos negativos e contestava a localização escolhida junto ao Parque Natural. A polémica não serenou e a opção que acabou por ser tomada para o tratamento dos resíduos industriais perigosos, já com o Governo seguinte do PSD e do CDS-PP, em 2003, foi a construção dos chamados CIRVER, Centros Integrados de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos.

 

 

Mas as cimenteiras também acabaram por fazer parte da solução, a partir de 2008, na sequência da decisão do Governo socialista liderado por José Sócrates.