António Martins: Descubra a história do dia em que uma máquina de fumos foi trocada por um…fogareiro em palco

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António Martins integra a empresa Aldeia da Luz e foi em 2016 referenciado por nós em vários espectáculos devido à qualidade dos jogos de luzes e iluminação que proporcionou em vários espaços e que permitiu a vários artistas elevarem ainda mais a qualidade desses mesmos espectáculos.

 

 

Porque gostamos de apreciar e valorizar os espectáculos como um todo, temos como objectivo dar a conhecer pessoas que por norma não são conhecidas ou reconhecidas pelo grande público. Contudo o trabalho delas é essencial para que o público fique satisfeito quando vai a um espectáculo.

 

Questionei-o se o poderia entrevistar, aceitou de pronto. Acabou por não ser uma entrevista, facilmente virou conversa. A qual reproduzo abaixo, de modo a permitir que conheçam… um artista iluminado!

 

 

 

António, quando decides vir para o mundo do espectáculo?

 

Começou por ser uma brincadeira. Era preciso pessoal para trabalhar, para empurrar umas caixas. Estamos a falar de 1988/1989. Foi assim. Depois é o bichinho. Comecei a ir para ajudar numa empresa do falecido Cavaco Malagueira, na altura a SOS. É um bichinho que ficou e cá estou hoje.

 

 

Neste momento tu és um dos mais requisitados, pelo menos a empresa à qual tu pertences, do mercado. Quais é que foram até agora os maiores desafios em termos da iluminação que tu já tiveste em mãos?

 

É assim, não sou dos técnicos mais requisitados. Sou um técnico da praça que anda ai, trabalho com uma série de artistas. Tenho uma empresa, a “Aldeia da Luz”, que trabalha com uma série deles. Há mais empresas do género e que também são requisitadas. Não é…não sou o mais requisitado, longe disso. Longe disso. Não sou. É uma ideia que se cria mas não é. Há muitos mais técnicos na praça. Os desafios…Sempre que há grandes projectos, que é um grande desafio. Um artista que quer fazer algo de diferente ou o culminar de uma carreira numa grande sala: num Coliseu, Centro Cultural de Belém, Meo Arena… Isso é sempre um grande desafio ou salas internacionais, como já aconteceu: Olympia, a Ópera de Sydney… São sempre grandes desafios, uma experiência, um tiro no escuro… Ir à procura e tentar fazer algo de diferente. Mas para mim todos os espectáculos são um desafio, todos os públicos são diferentes. O público de uma grande sala que vai ver o culminar da carreira de um artista no CCB, num Coliseu… mas o público dos pequenos sítios, dos espectáculos nas aldeias ou vilas também são importantes e são sempre um desafio, às vezes até dão mais luta porque as condições não são as melhores e temos que fazer o melhor que conseguimos dentro de um formato muito pequenino.

 

 

Em cada espectáculo, como é a preparação para o produto final. És tu que propões as ideias, é o artista que apresenta o produto e depois tu sugeres. Como é este trabalho que acaba por ser um trabalho de equipa entre ti e o artista..

 

Eu tento trabalhar com o artista, sempre. E por acaso tenho o privilégio de os artistas com quem trabalho ter uma muito boa relação com eles. Não é tipo encomenda, “faz-me um desenho de luz” ou o tipo que acende e apaga as lâmpadas, não é nada disso. Eu e a equipa com que trabalho lá na empresa tentamos sempre ter uma relação com o artista. Posso ser um privilegiado nisto. As minhas ideias são discutidas com o artista. Tentamos que não seja só eu a pensar mas até prefiro sempre que o artista tenha muita influência no meu trabalho, me explique o que pretende e tentarmos chegar a um produto final mas sempre de acordo com o que o artista pretende, com o que o artista entende. Um efeito, aquele momento em que quer que a luz se apague ou quer estar naquele sítio, claro que nós ai tentamos juntar todas estas ideias para criar um projecto mas sempre trabalhando com o artista.

 

 

E ai também é necessário trabalhar com o técnico de som?

 

Também.

 

 

Acaba por haver uma interligação entre o vosso trabalho?

 

Há sempre uma ligação. Tem que haver. A luz tem que transmitir, tal como o som também tem que transmitir.

 

 

E tudo ao mesmo tempo?

 

E tudo ao mesmo tempo.

 

 

Como é que é um dia normal se tiveres um concerto muito à noite? Qual é a tua rotina nesse dia?

 

Epá (risos)… Se for perto de casa acorda-se, arranja-se as coisinhas todas, ouve-se novamente as músicas. Tento criar o que alinhamento, ir ouvindo no dia antes e até no próprio dia, o alinhamento para quando chegar lá me lembrar das coisas todas e estudar. Ir para outros sítios, apontar as luzes, por a disposição no palco, programar tudo… e fazer o espectáculo. É assim o dia. Se for longe ou no estrangeiro começa sempre um dia ou dois antes. Rotina de aviões e aeroportos. Ou por outra ordem: aeroportos, aviões, hotel, sala e ai a rotina é mais complicada. É um dia inteiro ocupado.

 

 

Qual foi a situação mais caricata que te aconteceu num espectáculo ao longo do teu percurso?

 

(risos) Tenho várias histórias. Eu quase conseguia escrever um livro só com situações caricatas. Há muitas situações caricatas. Muitas, muitas… Há uma em particular que é eu pedir uma máquina de fumo e  acenderem-me um fogareiro em cima do palco. Essa deve ter sido a mais caricata de todas…

 

 

 

Isso foi em Portugal?

 

Não. Foi na Tunísia com um artista nacional. Esta é uma história verídica, estava mais gente presente!

 

 

Podes revelar qual é o nome do artista?

 

Sim. Foi com a Katia Guerreiro.

 

 

Transformaram uma máquina de fumos num fogareiro…

 

 

Sim. Sem dúvida. Eu pedi uma máquina de fumos e quando chegou uma hora antes, meia-hora antes do espectáculo começar, eu peço a máquina de fumos e  do género ‘quer fumo?’, acenderam o fogareiro. Quem estava ao meu lado passou-se porque eu transformei-me. Imagina numa sala, tens uma sala tipo teatro nacional D. Maria… Uma sala do mesmo género não tão bonita mas do mesmo género, cheia de um cheiro a carvão queimado e fumo. Realmente o fumo era muito bonito mas o cheiro… eu aos gritos com eles… Eles não entendiam e eu a tentar falar todas as línguas que sabia. Isto já foi há muitos anos…

 

 

A Katia reagiu?

 

A Katia estava no camarim e reagiu porque de repente só me ouvia aos gritos, ‘o que se passa?’. E era o cheiro insuportável do fogareiro em cima do palco… Em cima do palco eles acenderam um fogareiro…

 

 

Quando preparas um jogo de luzes tens o cuidado de ir ouvir todos os temas e pensares também no público-alvo desse artista ou desse espectáculo? Isso influência o jogo de luzes que tu vais fazer ou não?

 

 

Sim. Uma das coisas que eu peço sempre quando começo a trabalhar é o alinhamento. Se houver ensaios tento ir. É complicado mas tenta-se ir, se houver um ensaio. Ouvir os temas em ensaio. Quando isso não é fornecido vou aos discos, faço a minha playlist segundo o alinhamento que me fornecem e com as informações que o artista me dá. O público-alvo…Sim… Tenta-se ter. Num público jovem as luzes têm que ter um impacto diferente. Se é, por exemplo, um padre… Conforme também com o artista, se é uma coisa mais intimista ou se é um fado canção e temos que ter uma coisa mais alegre, mais aberta. Isto também varia de música para música, não é? No pop é outro estilo de músicas mas eu tento preparar os meus projectos de iluminação sempre em consequência com o que o artista pretende.

 

 

Alguma sala, algum espaço dos teus sonhos que ainda não tenhas tido a oportunidade de trabalhar lá e criar o jogo de luzes dos teus sonhos?

 

Há sempre sítios que me dão muita luta e que eu gosto muito. Não tenho um em específico. Gosto mais de sítios ao ar livre e que não seja um palco convencional mas que seja tipo um monumento. Gosto mais de iluminar esse tipo de coisas, se calhar porque tiro da beleza arquitectural do espaço. Posso dizer que adorei trabalhar em Monsaraz, no adro da Igreja de Monsaraz… Dá-me luta um adro de uma igreja e tirar partido disso… Gosto desse tipo de espaços. Dêem-me um espaço e deixem-me sonhar, deixem-me trabalhar, deixem-me criar. Gosto mais do que de um palco convencional. Não há nenhuma sala. Já tive muito boas salas. Há teatrinhos muito pequeninos lindíssimos, há salas gigantescas lindas e há outras que são salas…

 

 

A tua função acaba por ser muito importante porque indirectamente acaba por mexer com os sentimentos das pessoas. Isto porque cada cor influencia o teu estado de espírito, está provado. Alguma vez no teu subconsciente tens a ideia que podes estar a mexer com os sentimentos ou com a forma como alguém está a ouvir determinado tema devido ao jogo de luzes que tu estás a fazer ou não?

 

Sim. É uma coisa que eu tento. Isso é uma das coisas que eu tento. Isto de trabalhar com os artistas… quanto mais tempo se trabalha, mais se pode tirar partido do artista. Tenho o privilégio de trabalhar com alguns artistas há vários anos. Não é projectos de 1 dia, 1 mês, um ano. Há artistas com quem trabalho há mais de 10 anos, há mais de 15 anos sempre com o mesmo artista. Conheço-os tão bem: o respirar, quando pára, quando arranca, se estão contentes ou tristes. Tudo isso influência e na luz eu tento nos espectáculos, nos temas, como os conheço tão bem, criar essas coisas. Olhar, pausas… O apagar a luz claro que cria um impacto nas pessoas. Quando uma luz se acende, se é mais forte cria impacto. Eu tento fazer isso e é isso que eu acho sinto quando vou ver espectáculos de colegas meus. Quando aquilo que mexe comigo, quando a luz me dá, quando há aqueles impactos de luz ou quando há um blackout total isso mexe comigo. Eu tento fazer isso, tento criar emoções nas pessoas.

 

 

Tu estás numa área que muitas vezes é esquecida e até desprezada em Portugal, que é a área da cultura. Muitas das pessoas que estão na área da cultura trabalham a recibos verdes, o que leva à velha questão que só têm deveres e não têm quase direitos nenhuns. Sentes que ao longo deste período, de 88/89 quando começaste até hoje, houve uma regressão ou houve uma evolução na condição que os agentes da cultura têm para trabalhar?

 

É assim… Eu tenho uma opinião um bocado distinta de alguns amigos e meus e colegas de trabalho. Eu acho que houve uma evolução. Não há regressão. Há evolução no meio. Nós em Portugal estamos à frente na área técnica comparativamente a lá fora. Temos muito bons equipamentos, temos muito bons técnicos e reconhecidos internacionalmente.

 

 

Mais do que nacionalmente?

 

Mais do que nacionalmente. Há técnicos portugueses muito, muito bem cotados. Tenho apanhado alguns ai pelo mundo fora. Directores técnicos de sala. Há um português que é director técnico na Noruega, em França… Técnicos muito bons. Acho que há uma evolução e nós estamos à frente. Portugal está à frente no nível técnico e em material estamos muito à frente. No nível de condições de trabalho…sim, trabalha-se muito a recibos verdes, muito a recibos verdes. Há pessoal que se juntou para criar empresas para anular essas situações, que é o meu caso. Estão-se a criar empresas para acabarmos com os recibos verdes. Uma maneira de tentarmos, umas bem-sucedidas outras mal-sucedidas…

 

 

Mas são vos dadas condições para que consigam isso?

 

Não. A cultura em Portugal é vista só no artista, o que está para trás do artista  não é cultura. Nós somos prestadores de serviços, todos nós. Eu quando digo que sou técnico de iluminação às vezes perguntam-me ‘técnico de iluminação? Electricista?’. Não é bem a mesma coisa. Trabalhamos na cultura mas não temos nada haver com a cultura, a nível legal atenção. Eu sinto que faço parte da cultura mas não sou visto como tal, como pessoa da cultura. Acho que se tem evoluído nos últimos 3/4 anos. Há propostas de alguns partidos de forma a que a questão cultural e dos meios técnicos e das pessoas, vão sendo alteradas, algumas com sucesso. Há uma empresa, uma associação; uma cooperativa, como lhe queiram chamar, que para mim é uma cooperativa, que é a Pro Nobis que tem feito muito pelas pessoas da cultura, que trabalham para a cultura e no fundo acho que isto está a mudar e se formos trabalhando e apoiando algumas empresas, algumas cooperativas, se fizermos pressão sobre o estado, isto pode vir a melhorar. A questão dos recibos verdes é muito má porque é assim que se está a trabalhar. Temos que dar a volta, temos que pressionar os agentes culturais, criar associações, empresas e forçar que sejamos vistos de outra maneira.

 

 

Alguma vez ao longo deste teu percurso pensaste mudar de área?

 

Sabes Rui, eu andei durante anos a estudar. Frequentei a faculdade numa área que nada tem a ver com isto que é gestão bancária. Se pensei em mudar?…Eu todos os dias digo ‘porque não sou rico?’. É uma frase muito recorrente.

 

 

Na banca tinhas possibilidade…

 

(risos) Não. Quer dizer, se fosse banqueiro… Eu estudei para bancário. Se fosse banqueiro, estátá bem. Isto é que eu gosto de fazer, é aqui que me sinto bem. Há uma coisa que eu dizia à minha mãe… A minha mãe dizia-me ‘Ai filho, com essa vida. Pareces um saltimbanco. Hoje aqui, amanhã ali’. Eu dizia ‘mãe, eu no banco entrava às 08:00 às 18:00 e não era feliz. Aqui posso a vida a passear, oiço música, vou a lugares onde o comum dos mortais se calhar não pode ir, passo a vida em hotéis. Almoço e janto fora e ainda me pagam!’. Melhor que isto…

 

 

Neste caso acabas por trocar o valor do dinheiro pelo prazer da alma…

 

O dinheiro é muito importante…

 

 

Sim claro que é importante, não pagas contas de supermercado com o prazer da alma… mas o bem estar interior também o é…

 

O dinheiro é muito importante. Uma coisa que eu posso dizer é que eu trabalho com as pessoas que gosto e isto é o melhor reconhecimento e o melhor pagamento que tenho. Pessoas com quem eu não gosto… epá ok. Mas aqueles com quem eu trabalho, pessoal de quem eu gosto, pessoas de quem eu tenho o contacto pessoal e telefono, desejo um bom natal, os parabéns pelo aniversário,  que me ligam e que partilham essas informações comigo. Isso para mim é muito! Apesar do dinheiro, atenção, ser muito importante na nossa vida. Estamos como estamos porque tudo gira à volta do dinheiro mas o estar bem com as pessoas e trabalhar com quem se gosta, fazer o que se gosta é muito importante.

 

 

O que é a Aldeia da Luz?

 

A Aldeia da Luz aparece com o querermos fazer… Aparece comigo e com o meu sócio Jorge Pato. Já nos dávamos há muito tempo, há anos… Eu comecei depois dele. Ele já trabalhava nisto. Ele foi uma das pessoas que também me convidou para vir trabalhar nisto. Pensámos sempre em trabalhar juntos. Eu tenho-o como um irmão e começou quase como uma empresa familiar, os dois. Depois apareceu o João Alves, que neste momento não faz parte da empresa mas é como se ainda fizesse, trabalha connosco. O Hugo Coelho… Neste momento estamos a integrar o Gonçalo… e a Aldeia da Luz é um centro criativo onde nos juntamos, onde somos todos unidos, acima de tudo, e tentamos criar algo e ter uma equipa coesa. E bora lá fazer espectáculos, dar luz a esta gente! Basicamente é isso. É um grupo de amigos que trabalha junto e gostamos de estar juntos e de criar. Cada um com as suas áreas diferentes. Uns mais no world music, outros mais no pop, no rock, no teatro… É uma família e tentamos sempre acolher primos e enteados.

 

 

Sei que está para breve a apresentação do novo site da Aldeia da Luz. O que está a ser preparado?

 

Estamos a tentar renovar a imagem com a ajuda de uma série de pessoas. A nossa imagem já vem desde 20011/2002 e o site estava completamente parado. Há cinco anos que não se mexe no site. Há fotografias no site de artistas com quem já não trabalhamos mas continuamos a ter o prazer de ter trabalhado com eles, continuam no site e talvez continuem no novo site para haver com uma sequência. Estamos a tentar…

 

 

 

Há previsão para o lançamento desse novo site, dessa nova imagem?

 

Será no próximo ano, em 2017, quando a empresa faz 15 anos.

 

 

Algum mês em específico que querias já adiantar ou ainda não há previsão?

 

Ainda não há previsão e é apenas um lançamento de um site. Não é nada de novo. É só para estarmos presentes na net. Não vai haver festa (risos)…

 

Para quem quiser conhecer um pouco do vosso trabalho, onde vos pode contactar?

 

É o site (www.aldeiadaluz.com) ou no Facebok (Aldeia da Luz) e ai está toda a informação. Se fizerem uma busca por Aldeia da Luz espectáculos, porque existe Aldeia da Luz no Alentejo, uma aldeia submersa… conseguem encontrar-nos (risos)…

 

 

Vocês estão bem à superfície…

 

Tentamos. Tentamos…

 

 

Numa única palavra, como classificas todo este percurso?

 

Espectacular. Não há uma palavra para dizer. Estou feliz, estou contente. Uma única palavra é difícil (risos).

 

 

Fotografia: Alfredo Matos

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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