Jorge Fernando: “A música é uma coisa muito vasta. A mente é que é muito estreita”

Jorge Fernando

 

Jorge Fernando é um intérprete, produtor e compositor nascido em Lisboa. Aos quatro anos começou a acompanhar o avô, que chegou a acompanhar Amália Rodrigues, a cantar fado em Campo de Ourique, onde recebia rebuçados como forma de pagamento. 

 

 

Com quarenta anos de carreira, o músico é considerado uma das melhores vozes masculinas do fado, segundo o estudioso Luís de Castro. Jorge Fernando é um compositor renomado, já tendo colaborado com nomes como Ana Moura, Mariza ou Ricardo Ribeiro. 

 

 

Sinto-me grato. A vida deu-me coisas excepcionais. Fez com que estivesse ao lado de nomes como Mariza, Ana Moura ou Ricardo Ribeiro quando começaram. Ensinei-os muito e eles a mim“, diz o músico que celebra este ano 40 anos de carreira. Uma carreira que começou profissionalmente aos 16 anos mas o contacto dele com o fado começou muito antes, com o avô.

 

 

Aos 13 anos, Jorge Fernando juntou-se a um grupo de baile, onde tocavam músicas de Roberto Carlos ou dos Pink Floyd. Para o músico esta experiência ajudou-o a abrir os seus horizontes musicais, para além do fado e do futebol, tendo chegado a ser internacional júnior.

 

 

Reúno-me à segunda-feira com um grupo de amigos para jogar à bola. Temos no desporto um lavar de alma mas a música faz parte de mim“, conta o músico que chegou a ser jogador de futebol. Jorge Fernando jogou no 1º de Maio Futebol Clube Sarilhense, ao lado de futebolistas consagrados como Diamantino e Manuel Fernandes. Deixou os campos aos 37 anos, abraçando por completo a música. 

 

 

Aos 16 anos começou a trabalhar como profissional no mundo da música. Primeiro com Fernando Maurício, uma das maiores vozes masculinas do fado e, aos 20 anos, com Amália Rodrigues.

 

 

Eu fui tocado pela Amália mas antes fui tocado pelo Fernando Maurício. Imagina o que é uma criança estar frente-a-frente com as maiores vozes do fado. Quando estou a trabalhar com novas vozes estou a agradecer à vida“, explica o músico que começou a compor aos 16 anos e lançou o primeiro álbum aos 31 anos, em 1988.

 

 

Antes de lançar o seu primeiro álbum, em 1988, Jorge Fernando concorreu, em 1983, ao Festival RTP da Canção com o tema “Rosas Brancas Para O Meu Amor”. O músico voltou a participar na edição deste ano do Festival da Canção, desta vez como compositor, com o tema “Ao teu olhar”, interpretado por Beatriz Felício. “Umbadá” tornou-se um icónica até aos dias de hoje, com o qual participou no Festival da Canção em 1985.

 

 

Ao longo da sua carreira, tocou com grandes nomes do fado como Maria da Fé ou Amália Rodrigues. “Como artista, que está disposto a aprender, foi um manancial enorme. Enquanto ser humano, eu não seria a mesma pessoa se não tivesse passado por lá. Não seria a mesma pessoa se não a tivesse conhecido“, refere Jorge Fernando sobre como foi tocado, tanto a nível profissional como pessoal, pela Diva do fado, Amália Rodrigues.

 

 

Para além do trabalho que tem vindo a desenvolver como intérprete, Jorge Fernando é um dos compositores mais cantados da música portuguesa. “Boa noite solidão”, “Búzios”, “Quem vai ao fado” ou “Chuva” são algumas das canções da sua autoria.

 

A ‘Chuva’ tornou-se parte da casa de todos os portugueses. Gosto bastante da ‘Valsa dos Amantes’. A letra fala sobre como não ficamos, normalmente, com as pessoas pelas quais nos apaixonamos pela primeira vez. Não ficamos para o resto da vida com o nosso primeiro amor“, diz Jorge Fernando sobre o tema “Valsa dos Amantes”, composta e cantada pelo próprio.

 

 

Estou a ouvir cantar dentro de mim e depois sigo esse fio condutor“, conta Jorge Fernando sobre o trabalho de compor. Para o músico é diferente compor para uma voz masculina, que é mais máscula, ou para uma voz feminina, mais sensível e que transmite uma outra força às palavras.

 

 

Em 40 anos de carreira o músico já colaborou com inúmeros músicos, tanto no fado, na pop ou no hip-hop. O músico foi o responsável pela inserção de baterias no fado ou o fado com batida rap (ou será um rap com um “cheirinho” de fado?), feito em conjunto com Sam the Kid.

 

 

Eu acho que a música é uma coisa muito vasta. A mente é que é muito estreita. A música é música. É isso que a minha inquietação levou-me a fazer. Fez-me trazer as baterias ao fado, o fado rap“, diz o músico. Jorge Fernando acredita que o Fado se pode ligar a qualquer género musical.

 

 

Jorge Fernando celebra 40 anos de carreira, no dia 04 de Maio, num concerto repleto de amigos. Agir, Ana Moura, ou Camané serão alguns dos nomes que vão subir ao palco do Meo Arena para o espectáculo por um Novo Futuro. Todas as receitas arrecadadas reverterão a favor da instituição Novo Futuro, que apoia crianças dos 03 aos 18 anos e que já há sete anos realiza uma festa anual.

 

 

Não haverá surpresas. Haverá um juntar de gente há volta, como é o caso do Berg, Lenita Gentil ou a Maria da Fé. Menos gente que eu queria, pois se viessem todos o concerto, ia até às 09:00 da manhã. O Rui Veloso, que se disponibilizou imediatamente, não está porque as datas coincidiram. Todos os convidados estão ligados a mim e eu a eles. É uma surpresa que se deveria repetir anualmente. Os músicos em Portugal não estão muito juntos. Devíamos estar mais juntos“, conta Jorge Fernando sobre o que o público poderá esperar do Concerto por um Novo Futuro. 

 

 

Este espectáculo solidário, que junta um conjunto de músicos, dos mais variados géneros musicais, que vão na noite do dia 04 de Maio, a partir das 21:30, celebrar os 40 anos de carreira do músico e produtor, é uma ideia do promotor de espectáculos, Luís Montez. Nenhum dos membros do elenco que estará presente neste concerto vai receber qualquer tipo de remuneração.

 

 

O músico, que foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique a 18 de Fevereiro de 2016, que vai editar um novo disco, em princípio, em Setembro, vai produzir o próximo disco de Mariza e está a preparar o de Lenita Gentil. O novo tema de Jorge Fernando, “De mim para mim”, já pode ser ouvido.

 

 

Um dos últimos discos a sair para o mercado nacional, “Improvável” de José Gonçalez, teve também produção da autoria de Jorge Fernando.

 

Fotografia: Alfredo Matos