“Sem dor nem piedade”: A entrevista ao fadista Duarte que tem esgotado todas as salas onde tem actuado em França!

O fadista Duarte apresentou ontem “Sem dor nem piedade” no Museu do Fado em Lisboa, isto quando se celebra um ano da edição do disco em Portugal. O Infocul falou com o fadista sobre o disco e sobre a digressão que tem esgotado salas atrás de salas em França.

 

“Sem dor nem piedade” traz um conceito diferente à discografia fadista existente. É um disco dividido em quatro actos e em que o fadista canta sobre temas que o comum dos humanos tem muitas vezes dificuldades em exprimir.

 

 

Duarte é um alentejano que neste disco nos “obriga” a ouvir todos os temas com a afamada cadência alentejana, de preferência degustando um bom vinho do Alentejo. Porque na sua voz traz os aromas e os cheiros do Alentejo que coloca na canção nacional de forma eximia. Não sendo um disco comercial, é com toda a certeza uma obra de arte que deverá ser apreciada com espirito livre e sem qualquer ideia pré-concebida. Só assim será possível entender as letras do disco. Só assim pode viajar ao Alentejo através das melodias trinadas pela viola e/ou guitarra.

 

Neste disco há lugar à declamação pelo actor Albano Jerónimo. A produção musical é de Carlos Manuel Proença, um dos mais prestigiados músicos nacionais, e a nível instrumental o fadista é acompanhado por José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença, na viola, Daniel Pinto, na viola baixo, e ainda Tomás Pimentel e Diogo Pedro, no fliscorne, Xavier Ribeiro e Diogo Costa, no trombone, Ricardo Dias, no acordeão, Vicky Marques, nas percussões, Bernardo Moreira no contrabaixo e João Moreira no trompete.

 

 

A ser editado agora em França, o fadista granjeia o aplauso de quem o ouve, esgota salas, e a critica é unanime quanto à sua qualidade. Deixamos de seguida a entrevista na integra realizada ontem e onde o fadista fala sobre o disco, a digressão francesa e também sobre alguns concertos me Portugal.

 

 

Quando começou a aventura para o disco “Sem dor nem piedade”?

 

A Aventura começou há três anos, este último foi um ano em que o disco já andou a rodar, principalmente por França, tanto que a edição em França é agora lançada, daí nós acharmos bem entre os concertos em França, fazer a real apresentação do disco cá, no Museu do Fado, uma vez que também já estava prometida. Se bem que dois anos antes do lançamento que ocorreu no ano passado, tivemos dois anos de trabalho. Um primeiro de preparação do guião do disco, a parte escrita, e um segundo ano de produção musical do disco.

 

 

Tu neste disco divide-os em quatro actos…

 

O objectivo do disco foi servir uma temática e um conceito. Portanto servir a temática do luto, da morte, de qualquer coisa que acaba, da perda do objecto amado. Depois o conceito era enquadrar esse projecto em quatro actos. Portanto partindo até de uma analise mais psicológica que tem a ver com as quatro fases do luto, mas depois enquadrar em quatro actos distintos quase como se fosse um melodrama fadista.

 

 

Tu para além de fadista, tens uma outra área profissional [Psicologia], trouxeste-a para este disco?

 

São coisas diferentes, embora hajam pontos que se tocam. Quer nos fados quer na psicologia trabalhamos com historias de vida, e isso pode ser um privilegio. Poder conhecer historias dos outros, os outros disponibilizarem-me as suas vivencias, as coisas que vão sentindo e de alguma forma é também com os outros que nos vamos enriquecendo enquanto psicólogos. Enquanto músico, esta temática das historias de vida e das relações pode ser uma temática por excelência para trabalho e para não estar só centrado em mim, muitas das coisas que estão neste disco pode-se pensar que é algo muito egocêntrico ou narcisista mas não, o objectivo é anular isso. É no fundo tentar encontrar um espaço onde qualquer um possa reabilitar.

 

 

Até porque cantar o fado é cantar a vida…

 

Cantar o fado é cantar a vida, cantar as relações, os nossos dias, as coisas que vamos vivendo e as pessoas que se nos vão cruzando.

 

 

A tua inspiração para este disco surge de várias formas, tens por exemplo um tema que foi escrito na auto-estrada…

 

Foi, foi…As quadras de A6 e A2. Eu vinha a ouvir aquilo maravilhosamente cantado na rádio, pela Celeste [Rodrigues], o Fado Meia-Noite e uma Guitarra, e em viagem às tantas da manhã para o Alentejo, escrevi as quadras para esse fado tradicional…

 

 

Portanto a tua inspiração surge quando menos esperas?

 

O meu processo criativo varia muito. Há situações em que é esse rasgo inspirativo, há outras situações de escrita em que se demoram as vezes meses para se procurar uma palavra, a silaba certa para casar com a silaba da linguagem musical, esse trabalho já não é tão espontâneo assim, não é uma coisa de flash ou de laivos. Há situações em que primeiro surge a musica e depois vou tentar encontrar as palavras, como há situações ao contrário. Portanto o meu processo criativo é muito variável.

 

 

Como é que o povo francês tem acolhido este trabalho?

 

Não sou muito bom a falar do que vamos conseguindo ou não. Acho que a coisa tem corrido muito bem, neste ultimo ano temos ido a França regularmente, quase uma a duas vezes por mês, lançámos agora o disco lá e temos tido salas e salas esgotadas, acho que é um bom indício desse acolhimento afectuoso que os franceses nos estão a fazer. Não sei porque é que isso acontece mas quero pensar eu tem a ver com a forma como nos entregamos às coisas, que estamos a cantar, a falar e a tentar transmitir. Também há alguns textos em francês que temos no concerto. Se calhar algum desvio, daquele preconceito que isto era só das mulheres, que isto era só para as mulheres e depois ver um homem a entregar-se assim desta forma pode estar a fazer a diferença.

 

 

Como te sentiste ao esgotar em 24 horas uma ala emblemática em França?

 

O Théâtre de la Ville? Eu assustei-me um bocadinho. Vou ser muito sincero contigo. Eu estava a trabalhar na clinica e ligaram-me. Respondi à chamada entre consultas e era um dos programadores franceses e que me disse “olha o Théâtre de la Ville esgotou, os bilhetes foram postos a venda e em 24 esgotaram”. Tive medo, não um medo incapacitante mas daqueles que usas para te fazer crescer. Tens que saber viver com isso, que depois se transforma em responsabilidade e em que querer-mos entregar o que melhor sabemos fazer às pessoas e foi isso que de alguma forma tentei depois pôr no concerto. Entregar-me no concerto dessa forma.

 

 

Em Portugal como tem corrido?

 

Em Portugal não temos feito muitas coisas. Teve boas criticas. Não sei se quem ouviu gostou, mas correu bem ao nível das críticas. Agora ao nível do grande publico, fizemos dois ou três concertos, no Redondo esgotou, no CCB quando lá estivemos esgotámos…Não me queixo.

 

 

Estás prestes a actuar em casa…

 

Sim vamos actuar em Évora em Maio num festival de música ibero-americana, portanto vou ter a possibilidade de actuar em casa. E estão umas coisas a ser preparadas para o verão ‘lá para os Aletenjos…’

 

 

Tens noção que trazes uma nova linguagem corporal ao Fado em palco?

 

Opá, não sei (risos)…Não tinha essa ideia, eu canto. Eu canto e canto com o meu corpo todo, com a voz, com os meus músicos, e com as palavras e melodias que tenho que cantar, agora o que vem dai…

 

 

A tua linguagem gestual é muito intuitiva? É muito aquilo que estás a sentir naquele momento?

 

Eu não sei. Não sou bailarino nem coreógrafo. Nunca pensei muito nisso, mas da mesma forma que há entrega ao nível da voz também tem que haver com o corpo. Não há voz sem corpo, a forma como nos movimentamos é a nossa forma de servir o que estamos a cantar. No meu caso não é pensado, nem planeado. Não sei se trago uma linguagem nova ou não. Não estou muito preocupado com isso. Gosto de cantar as minhas coisas.

 

 

Tens noção que o disco não é comercial mas que com a forma como o construíste, é uma obra de arte?

 

Não vou ser eu a dizer isso. Nem faz muito sentido que seja eu a dizer isso. O objectivo do disco nunca foi ser comercial. Foi servir aquele tema e aquele conceito, como te disse ao início. Depois do disco estar feito começamo-nos aperceber que havia características nada comerciais, maior parte das musicas excede os três minutos, tem inícios e interlúdios de guitarra extensíssimos, há uma data de factores a nível de ritmos, a nível de percussões há apenas uma musica, não há essa carga de mainstream que tu agora vês ai na maior parte dos discos ligados ao fado. Estávamos preocupados apenas em tocar e cantar o eu estávamos a sentir, depois logo víamos o que vinha dai…

 

 

Qual a principal mensagem do disco?

 

É que é possível reinventar o amor.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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