Campo Pequeno: Francisco Palha foi rebeldia, emoção e o destaque maior

Campo Pequeno: Francisco Palha foi rebeldia, emoção e o destaque maior, na noite de ontem.

Campo Pequeno: Francisco Palha foi rebeldia, emoção e o destaque maior

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rute Nunes e Carlos Pedroso

Ontem, 24 de Agosto, a Praça de Touros do Campo Pequeno abriu as suas portas para a 2ª corrida de touros da temporada lisboeta.

Frente a touros de Murteira Grave, actuaram os cavaleiros João Moura Jr., Francisco Palha e o rejoneador Andrés Romero. As pegas ficaram a cargo dos forcados amadores de Montemor e Évora.

Após as cortesias, foi prestada homenagem aos forcados de Évora, pela celebração do 60º aniversário.

A noite foi longa, 3 horas de duração da corrida, com muitas peripécias, algumas delas ao melhor estilo cómico-deprimente.

A corrida de touros não teve um triunfador, na verdadeira acepção da palavra. Porém, teve um grande destaque e esse chama-se Francisco Palha.

Já em crónicas de outras corridas, destaquei por várias vezes que Francisco Palha está com um outro brilho no olhar e com uma outra linguagem corporal em praça. Para melhor, muito melhor. É esteticamente um dos cavaleiros que mais ‘enche’ o olhar de quem se desloca a uma praça de touros. À parte disso, a sua concepção artística, baseada no risco máximo, quase num binómio de viver ou morrer, acarreta uma emoção sempre necessária à arte tauromáquica.

Neste noite quente de Lisboa, a sua primeira lide contou com uma sorte gaiola, limpa e empolgante, seguida de mais um ferro comprido, cravado com qualidade, explodindo depois na cravagem curta, com 3 ferros de fazer parar os ponteiros do relógio. Deu todas as vantagens ao bravo touro de Murteira Grave, aguentou a investida e cravou em ‘su sítio’. Tecnicamente, para os mais puristas, pode não ter sido perfeito, mas Palha beneficiou o oponente, causou emoção e foi arrojado. Tudo isto com a sua postura rebelde e aqui e ali com o também muito seu sorriso galanteador destinado ao público. Faltou um pouco mais de brega, algo que sabe fazer.

No seu segundo touro foi prejudicado por algo que daria um belo sketch humorístico. Bem a receber o oponente, novamente bem nos compridos, um excelente ferro curto… até que o touro se desembolou num dos cornos. Touro recolhido para novo embolamento, o cavaleiro regressou ao pátio de quadrilhas, perderam-se 15 minutos, regressaram o touro e o cavaleiro e claro que o ambiente ora criado, já não existia. Ainda assim, dois bons curtos, outros não tão bons, e uma lide prejudicada. Existindo o RET (Regulamento de Espectáculos Tauromáquicos), não pode nunca deixar de existir bom senso. O Campo Pequeno é uma sala que alberga um público multidisciplinar e heterogéneo relativamente ao conhecimento daquilo que é o toureio. Não seria mais prático, para o ritmo do espectáculo e para o cavaleiro ter uma lide integral e sem ‘intervalos forçados’, que fosse lidado um sobrero (obviamente com custo para empresa, sabemos bem)? Pois, não foi decidido assim. E não tendo a empresa errado, segundo o RET, a verdade é que também não teve uma escolha óptima para benefício do espectáculo.

Por fim, no que a Francisco Palha diz respeito, destacar algumas questões. Não é um toureiro convencional e politicamente correcto. Vive tudo com muita intensidade, para o bem e para o mal, e o seu coração parece exteriorizar tudo de forma quase espontânea. Em alguns casos, beneficia-o, noutros pode prejudicá-lo. Porém, não exijam de Palha a perfeição. Exijam-lhe verdade! E essa antes de alguém a exigir, já ele a apresentou a tudo e a todos. É a sua verdade. É a sua rebeldia. É um toureiro de ‘pelo na venta’. E com todos os defeitos e virtudes, espero que continue assim. Mas nesta nova versão, mais solto, mais enérgico, mais feliz. É ele um dos trunfos da tauromaquia actual.

Abriu praça, o cavaleiro João Moura Jr. Uma primeira lide que simplesmente não rompeu. Primeiro, porque alegadamente a arena estava escorregadia. Segundo, por Peter Janssen, conhecido anti-taurino, tentou invadir a arena (sendo detido em cima dos curros pela polícia) e o foco do público passou a estar no que acontecia fora da arena e não dentro da arena. Moura Jr. cumpriu a função, sem alardes de triunfo, mas também sem perder os papéis. Simplesmente esteve sem chama, frente a um touro pesado e mais reservado (dentro do curro lidado esta noite).

A segunda lide de Moura Jr. teve mais ‘som’ e motivos de interesse. Porém, não foi triunfal. Foi de enorme valor, muito positiva, mas de mais a menos. Recebeu muito bem o oponente, cravou dois ferros compridos com correcção, na ferragem curta elevou a bitola, apostou nas já afamadas ‘Mourinas’, mas depois o final da lide foi a menos, tendo o cavaleiro corrigido a ‘mão’ e terminado em plano positivo, porém não tão impactante com a fase inicial da lide. Touro belíssimo de Murteira Grave e que mereceu aplausos do público, tendo o ganadeiro dado volta à arena.

João Moura Jr. tem uma belíssima quadra de cavalos e condições técnicas extraordinárias. Sinto sempre que não atinge todo o seu potencial de forma regular. E era óptimo que isso pudesse ocorrer.

Andrés Romero completou a terna de toureiros. A sua primeira lide é francamente má. Um touro de Murteira Grave exigente, a apertar e que exigia um toureiro maduro, com conhecimento e labor. Romero não entendeu o touro, levou toques na montada em cada uma das cravagens dos ferros e ouviu assobios aqui e ali.

A sua segunda lide foi melhor, frente a um touro ‘mais cómodo’. Uma lide com maior ligação, apostando em sortes frontais, com batida ao piton contrário, nem sempre reunindo ajustadamente. Soube conectar-se melhor com o público e destacou-se com um bom ferro curto.

As pegas estiveram a cargo de dois grupos de forcados que dispensam apresentações e que têm muitos créditos na tauromaquia portuguesa e uma história valorosa que o seu passado acarreta. E não desiludiram no Campo Pequeno, apesar de também não terem tido um triunfo de porta grande. Estiveram muito bem somente.

Pelo grupo de Montemor, foram à cara do touro Francisco Borges (à segunda tentativa), Vasco Ponce (à primeira) e José Maria Pena Monteiro (à primeira). Muitíssimo bem Francisco Borges nas duas tentativas, faltou o grupo fechar na primeira, e muito bem José Maria Pena Monteiro, com duas belas prestações.

Pelo grupo de Évora, foram à cara do touro Ricardo Sousa (segunda tentativa), José Passanha (à primeira) e José Maria Caeiro (à segunda). Destacou-se Ricardo Sousa na sua segunda tentativa, com uma excelente execução.

Uma noite em que a arena teve de ser alisada duas vezes (como é que ninguém reparou no estado da arena antes?), em que um touro desembolou-se, em que um anti-taurino tentou invadir a arena. Tudo o que está escrito atrás tem tudo menos glamour, elevação e estética.

O curro de touros vindo da Herdade da Galeana foi de nota muito alta no geral, com muitos deles bravos, a investirem de todo o lado, a darem emoção às lides. Todos eles bem apresentados, sem excesso de quilos (talvez o primeiro saia um pouco desta linha), com cara e de acordo com a categoria da praça. Está de parabéns, Joaquim Murteira Grave. Senti que nesta noite houve mais qualidade nos touros, que nos toureiros.

A corrida foi dirigida por Lara Gregório Oliveira, assessorada por Jorge Moreira da Silva e com José Henriques no cornetim.

Nota: Excelente sentido de oportunidade de Francisco Palha em brindar a lide do seu primeiro touro à Polícia de Segurança Pública, pela pronta intervenção em deter Peter Janssen.

Nota I: Continuo sem perceber esta nova moda de aplausos efusivos aos cornetins (não foi apenas ontem) a cada toque para a saída do touro, à melhor moda de um arraial plebeu na Ameixoeira.

Nota II: Se não for feita uma educação correcta dos novos públicos que vão às corridas, a tauromaquia corre o sério risco de perder a grandiosidade, classe e elegância a que o seu passado obriga, e passará a ser uma festa curriqueira de um qualquer bairro social.

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