Campo Pequeno: “Loucas são as noites…com Pedro Abrunhosa em palco”

Campo Pequeno: “Loucas são as noites…com Pedro Abrunhosa em palco”, como ontem em Lisboa.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Nuno Almeida

A Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, recebeu, esta sexta-feira, o concerto de Pedro Abrunhosa & Comité Caviar com Orquestra Clássica do Sul.

Casa cheia e público ávido de que a arte conseguisse transmitir a paz, o amor e a alegria, que equilibrasse estes dias em que ouvimos apenas falar de guerra.

Pedro Abrunhosa preparou um espectáculo com duração de aproximadamente 2h50 e a verdade é que o público esteve entregue, feliz e a sentir cada palavra, cada acorde e cada imagem exibidas numa noite intensa na sala lisboeta.

A genialidade das palavras e músicas de Pedro Abrunhosa encontrou-se com o classicismo da orquestra e o resultado foi um dos melhores concertos do ano, sendo mesmo um forte candidato ao primeiro lugar do pódio.

Abriu o espectáculo com A.M.O.R e rapidamente se perceber que o amor conduzir-nos-ia numa longa noite, recheadas de mensagens sobre a actualidade e aquilo que de verdade importa na vida, para logo de seguida surgirem imagens de refugiados ucranianos, a acompanhar a mais recente canção do artista, “Que o amor te salve nesta noite escura”, que contou com a participação especial de Sara Correia.

Sara Correia voltou a demonstrar o porquê de estar num patamar qualitativo em que compete apenas consigo própria. Mais do que ser melhor ou pior, a fadista é única pela intensidade de cada palavra, cada respiração pela forma como coloca e projecta a voz em cada momento. Nesta canção, há um encontro muito feliz, entre as vozes e as almas de Sara e Pedro, numa demonstração clara de que a arte (nos) pode salvar.

Além de um exímio compositor e homem de palco, Pedro Abrunhosa é um extraordinário comunicador, muitas vezes usando a fina ironia ou um humor mordaz. Noutras, simplesmente falando ao coração e aos mais nobres sentimentos do ser humano.

Boa noite Lisboa. Imenso privilégio estar aqui de novo. Agradecer-vos a vocês por se terem dedicado ao mais rebelde dos actos políticos, deslocarem-se aqui hoje. Comprarem bilhete, nessa homenagem à cultura.
A cultura é a minha pátria. A cultura é chão seguro e a cultura é a nossa soberania
“, foram as primeiras palavras, finalizadas com estrondosa ovação.

Tempo ainda para abordar a “guerra de um tirano contra dois povos”, referindo-se ao conflito entre Rússia e Ucrânia.

“Momento”, “Será” e “Fica comigo que a noite é perto”, antecederam a chegada de mais uma convidada a palco, Carolina Deslandes. Numa canção dedicada aos pais que perdem os filhos, os dois artista interpretaram “Leva-me P’ra casa”.

Este espectáculo teve ainda a curiosidade de dar a conhecer algumas canções do novo disco de Pedro Abrunhosa, a sair em breve, que ainda não tem nome. A essas canções, juntou alguns dos maiores sucessos da sua já longa carreira.

Muitas vezes incompreendido, ouvir Pedro Abrunhosa e sentir na sua voz as inquietações de um povo. A sua arte é construída com realidade, abordando muitas vezes a espuma dos dias, ou se preferirmos a fragilidade humana, seja nas suas emoções, medos ou inquietações.

Pedro Abrunhosa nunca foi um artista de clickbait (títulos que incentivam o leitor a clicar numa notícia), mas sim de dar vida às canções e com elas curar, elevar ou recuperar a alma de quem o ouve.

A dúvida entre se a sua arte é maior relativamente ao reconhecimento que obtém do povo português ou até mesmo à geografia deste pequeno grande país, acaba por ser esbatida e nunca questionada, com as constantes declarações de amor que o artista faz ao seu chão, à sua pátria.

Ontem voltou a declarar-se e a relevar o que de bom Portugal tem para oferecer e teve como resposta várias ovações que fizeram tremer a sala lisboeta.

Uma sala que contou com a presença de ministros ainda em funções e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que demonstrou estar em excelente forma física ao entrar na coreografia de “Rei do Bairro Alto”.

A noite teve ainda homenagens ao Cante Alentejano e aos Pauliteiros de Miranda, sendo dados como exemplos da diversidade e riqueza cultural de Portugal, às praças emblemáticas de cada cidade lusitana (Praça de Giraldo, Praça da República, Marquês de Pombal, Terreiro do Paço, foram algumas das mencionadas), as quais foram essenciais para ir enquadrando algumas das canções ali interpretadas.

Tempo ainda para Pedro Abrunhosa sair do palco e vir para junto da plateia, numa espécie de volta olímpica, perante um público em delírio, após quase três horas repletas de arte.

“Loucas são as noites…com Pedro Abrunhosa em palco”. A mesma loucura que esperamos da rebeldia e da arte de transformar o mundo em música, por parte de Pedro Abrunhosa.

Uma última palavra para os Comité Caviar. São uma banda absolutamente excepcional, com um pleno entendimento de Pedro Abrunhosa e que tornam a música do artista nortenho ainda maior. A Orquestra Clássica do Sul esteve irrepreensível, dirigida pelo maestro Rui Pinheiro.

Notas finais: Excelente o desenho de luz de Frederico Rompante (magistral e elevando a categoria do espectáculo) e ainda as condições proporcionadas pela Sons em Trânsito e Livecom aos jornalistas e fotógrafos.

Alinhamento:

A.M.O.R.
Que o Amor Te Salve Nesta Noite Escura (Com Sara Correia)
Momento
Será
Fica Comigo Que a Noite é Perto (Com João Barradas)
Leva-me P’ra Casa (Com Carolina Deslandes)
É Sempre Escuro Antes De Amanhecer (Com Carolina Deslandes)
Glória Aos Vencidos Por Amor
É Preciso Ter Calma
Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar
Vem Ter Comigo Aos Aliados
Fazer o Que Ainda Não Foi Feito
Não Desistas De Mim
Stacatto Brilhante
Não Posso Mais
Rei Do Bairro Alto
Acima & Abaixo
Para Os Braços Da Minha Mãe
Ilumina-me (Com Carolina Deslandes e Sara Correia)

Eu Não Sei Quem Te Perdeu
Socorro
Lua
Tudo o Que Eu Te Dou (Com Carolina Deslandes e Sara Correia)

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