Campo Pequeno: Moura Caetano e Dias Gomes ao melhor estilo de Beethoven e Schubert

Campo Pequeno: Moura Caetano e Dias Gomes ao melhor estilo de Beethoven e Schubert, na noite de ontem.

Campo Pequeno: Moura Caetano e Dias Gomes ao melhor estilo de Beethoven e Schubert

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Nuno Almeida

Campo Pequeno, em Lisboa, foi palco de uma noite de arte sob o signo da tauromaquia, esta quinta-feira.

Apesar das trocas e baldrocas que envolveram o cartel inicial, à qual a empresa Ovação & Palmas é alheia, a noite resultou agradável em termos artísticos, o público saiu agradado e os toureiros expuseram as suas valias.

O cartel foi composto pelos cavaleiros João Moura Caetano e Marcos Bastinhas, pelos matadores de touros Manuel Jesus ‘El Cid’ e Manuel Dias Gomes (o primeiro a substituir Morante de la Puebla e o segundo a substituir Cayetano Rivera Ordoñez). Lidaram-se touros das ganadarias Irmãos Moura Caetano (a cavalo), Varela Crujo e Calejo Pires (a pé, saindo do cartel os touros de Juan Pedro Domecq e Daniel Ruíz, que estavam anunciados).

O Campo Pequeno contou com uma lotação a rondar a meia casa forte, o que se lamenta. Porém promover a transmissão televisiva, quando isso cabe ao canal, ao invés de assegurar a venda de bilhetes, tem os seus custos.

Permitam-me que aborde primeira a componente do toureio a cavalo, afinal de contas estamos em Portugal e é essa a nossa base artística em termos tauromáquicos.

A lide a duo, que abriu a corrida, demonstrou uma excelente coordenação entre Moura Caetano e Bastinhas. Touro colaborante, embora com pouca transmissão e algum peso a mais. Lide com ritmo, mas sem pressas nem artifícios, destacando-se a brega dos ginetes, embora com Moura Caetano mais correto nas reuniões. Lide muito agradável dos ginetes dinásticos.

Ao quarto touro, Moura Caetano esteve em plano magistral. ‘Ai João, entendesse o povo quanta arte lhe corre nas veias e numa alma que parece infinita e com grande profundidade’ e outro galo cantaria nos aplausos do conclave e a música teria soado mais cedo na sala lisboeta. Toda a actuação foi um compêndio de temple, classe, bom gosto e ‘souplesse’. A brega, a pose, as pausas, o respirar (permitindo maior durabilidade ao touro na lide), o desenho das sortes, a harmonia das reuniões, os remates vistosos das sortes, é tudo feito morosamente, permitindo ao espectador apreciar cada detalhe. É uma temporada de enorme valor aquela que João Moura Caetano está a desempenhar. De uma vez por todas, é importante que se comece a olhar para este cavaleiro de uma forma superior e que pode acabar com o binómio corridinhas sem interesse/corridas de cavalgadas e velocidades. Sobre Beethoven, o crítico alemão Paul Bekker escreveu que “o resumo da sua obra é a liberdade”. E tal como Beethoven, Moura Caetano é uma mescla de classicismo e romantismo. Com ele, somos brindados com donaire. E acreditem, a Arte ajuda-nos a evoluir e em alguns casos salva mesmo. A Arte e o Amor, a ordem fica ao critério do leitor.

Marcos Bastinhas esteve exuberante na lide do quinto touro da corrida. Foi recebê-lo à porta dos curros, cravou dois ferros compridos e depois na fase da ferragem curta foi muito diversificado naquilo que apresentou na arena. Desde sortes com batida ao piton contrário, sortes de violino, par de bandarilhas (de bom nível), Marcos foi vasto na panóplia apresentada. O público galvanizou-se, Marcos esteve vivaz e instalou-se uma verdadeira loucura. Saiu sob forte aclamação.

Pelos forcados amadores de Lisboa, foram à cara Nuno Fitas, Daniel Batalha e João Varanda, concretizando três pegas ao primeiro intento, com o grupo a demonstrar eficiência suficiente para uma noite de máximo êxito.

Os touros da ganadaria Irmãos Moura Caetano foram suaves, com ritmo (menos o da lide a duo), sem criar grandes problemas aos toureiros e permitindo que os mesmos desfrutassem desta noite.

Na vertente do toureio a pé, o grande destaque foi Manuel Dias Gomes.

Antes, abordamos as duas prestações de El Cid. Na primeira faena, destacou-se com a muleta, numa prestação de menos a mais, de categoria, sapiência, maturidade, classe, fineza e conhecimento. Pormenores de deleite e que agradaram ao público. Na segunda, não teve grandes opções, esforçou-se, entregou-se, mas nada mais havia a fazer. Presença muito digna do matador de touros, natural de Salteras.

Quanto a Manuel Dias Gomes, teve uma noite para recordar. Este toureiro é um regalo à vista e à alma para quem gosta do esmero. O matador português é capaz das mais belas obras de arte, com uma profundidade, domínio, poder e técnica aplicados de forma afirmativa, mas não impositora. Não precisa de bengalas folclóricas para que percebamos que está ali. A sua primeira faena é de fibra, subindo o nível de forma constante, até ao clamor final. A segunda actuação meteu o público no bolso, aplicando os melhores muletazos da noite, criando um enleio entre si e o touro, com garbo, espavento. Dias Gomes é, deem as cambalhotas que quiserem e arranjem o marketing que apetecer, o melhor matador português em actividade (Pedrito de Portugal está afastado e não há informação que possa regressar). Enquanto o público continuar a preferir os toureiros porompomperos, Dias Gomes mostra-se ao mais belo estilo de Franz Peter Schubert e vai-nos deixando obras intemporais, mesmo sem o reconhecimento devido.

Os touros de Calejo Pires foram de boa nota e demonstraram, mais uma vez, o excelente trabalho feito pelo responsável desta ganadaria. Quanto aos touros de Varela Crujo não foram de todo uma pera doce e além de complicados, tinham muito pouco para dar. Uma pena.

A corrida foi dirigida por Ricardo Dias, assessorado por José Luís Cruz, com José Henriques no cornetim.

Nota: Palavra de apreço ao trabalho do empresário Luís Miguel Pombeiro que viu o seu cartel estrela desmoronar como um castelo na areia e mesmo assim conseguiu remendar e proporcionar uma noite de belíssimos momentos de toureio aos aficionados.

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