Campo Pequeno: “Noite dura nas ramagens e de emoção no toureio… “Vinhas” que deram boa uva!”

Campo Pequeno: “Noite dura nas ramagens e de emoção no toureio… “Vinhas” que deram boa uva!”, na noite de ontem, 4 de Agosto de 2022.

Campo Pequeno: “Noite dura nas ramagens e de emoção no toureio… “Vinhas” que deram boa uva!”

Para a segunda corrida da temporada no Campo pequeno, dedicada aos nossos emigrantes, compuseram cartel os digníssimos cavaleiros Rui Salvador, Manuel Telles Bastos, Emiliano Gamero, Andrés Romero, Miguel Moura e António Prates, dividindo cartel com os Forcados Amadores da Moita, de Arronches e os Académicos de Elvas. Os artistas da noite enfrentaram um curro da Ganadaria Vinhas.

Quanto à data e ao cartel e antes de todo e qualquer detalhe, se me permitem, não consigo não fazer a analogia e transcrever aqui o que  dizia o famigerado cantor Zeca Afonso, na sua cantiga “Cantar de Emigração” – “este parte, aquele parte… e todos todos se vão…”,  aos poucos a tauromaquia vai sendo menor e vão indo de si os melhores, seja na escrita, seja na fotografia, seja no toureio ou na arte de bem pegar… e vão, tal qual vão embora do país… porque ninguém aguenta e das duas uma, ou se resigna a chorar ou se supera e faz vida fora do que ama e gosta… tanto nos que o fazem na tauromaquia como na vida, o meu maior e mais sentido abraço recheado de respeito de quem já esteve desse lado. E é precisamente esse respeito e por perceber o sentimento que envolta os emigrantes neste seu “querido mês de agosto” que me custa serem brindados na catedral do toureiro com um cartel deste calibre… e que me perdoem os digníssimos e valorosos artistas que o compuseram e a ganadaria que o apimenta, mas, não há cá “corridas internacionais” e floreados que tais que disfarcem, mais um ano, que não é e de agora, uma data usada meramente para utilizando o sentido de saudade e sede de toiros dos nossos, para arrecadar receita, com uma praça a média da sua lotação fazendo uma data que  em nada acrescenta ao panorama tauromáquico.

À parte e declaração de interesses devidamente feita, cumpre dirigir-me a vós para abordar um pouco do que se sentiu no nosso Campo Pequeno.

Dar desde já nota que, dada ser a confirmação de alternativa de Emiliano Gamero, este lidou o primeiro toiro da Corrida.

Abriu a noite na monumental lisboeta, Emiliano Gamero, rejoneador mexicano que este ano tem vindo a debutar em terras lusas, e que confirmou a sua alternativa na catedral do toureio a cavalo, tendo como padrinho, naturalmente, Rui Salvador, brindando a lide à eternidade da tauromaquia e ao Campo Pequeno.  Na sua lide, diante de um Vinhas com 536 Kg, de comportamento nobre e apresentação digna da praça mais importante do país, o rejoneador andou bem em compridos, tendo em curtos consentido desde logo um toque no primeiro ferro, fruto da má abordagem ao toiro, tendo-se emendado e cravado os ferros da ordem com toureria, contudo, naturalmente, a não satisfazer os amantes do Toureio a Cavalo na plenitude do seu significado, ainda assim, com ligação ao público, seja com recurso a quase “artes circenses”, seja com os dois bonito “violinos” com que brindou o Campo Pequeno, rematando cada ferro com bregas ajustadas e procurando levar consigo o público e o seu oponente.

Nota para o facto de que apenas viu ser-lhe concedida música no seu último ferro. Havia necessidade de haver música sequer?!.

Dada que estava dada a confirmação de alternativa a Emiliano Gameiro, era momento de brindar o toureio o chefe de lide, Rui Salvador.  Um toureiro de provas dadas, “o tal dos ferros impossíveis”, mas que procura novamente um caminho de relevo e afirmação, após estes seus 38 de alternativa, celebrados também pela empresa gestora do Campo Pequeno através de uma singela homenagem. Apresentou-se, no Campo Pequeno, com vontade de triunfo e uma imensa noção da responsabilidade que lhe era incumbida…E TRIUNFOU.

Na sua lide, diante de um Vinhas com 624Kg e uma apresentação novamente irrepreensível, sendo digno de comportamento, transmitindo e permitindo uma lide com emoção e ligação entre o trinómio Toiro, Cavaleiro e Público, esta simbiose levou a que o toureiro andasse regular em compridos, sem estranhos ou avarias…. Já em curtos, regurgitou a veia “do tal” e armou o dito “Taco”, ferros bem desenhados, com bregas a trazer o Vinhas ora na garupa ora “debaixo da casaca”, procurando cravar em todos os setores, deu para tudo, tendo-lhe sido concedida música logo após o seu primeiro curto, embalou toda a sua lide nas notas musicais da Magnífica Banda do Samouco que uma vez mais, abrilhantou o espectáculo na monumental lisboeta. Uma lide que empolgou o público lisboeta e certamente marcará a temporada desta Monumental… porque efectivamente “Quem sabe nunca esquece…” e o “O regresso dos que nunca partem” … são frases bem verdadeiras.

Seguiu-se na ordem de lide, Manuel Telles Bastos, um toureiro de puro classicismo, que transborda Torrinha por todos os seus esporos.

Na sua lide, diante de uma vinhas com 552KG, menos nobre de comportamento, a cortar caminho e a procurar mais o cavalo que os anteriores, mas, de uma apresentação impecável, o Cavaleiro andou bem em compridos, levando o toiro na garupa e toureando sem excessos de capotes, servindo-se da sorte à tira para receber este seu oponente. Em curtos, bem… começou com um pequeno percalço tendo-se deixado agarrar, com algum aparato no seu primeiro curto, mas nada que assustasse o cavaleiro, regressou à praça e desenhou uma lide igual a si próprio e para quem gosta de Toureio a Cavalo de verdade, uma lide repleta de bem montar a cavalo, de respeito pelo toiro e pelo público. Procurou o cavaleiro desenhar sortes de compromisso, entrando pelos terrenos do toiro adentro cravando de alto a baixo como manda a velha escola. 

 O cavaleiro Manuel Telles Bastos goza de um estatuto, na minha modesta opinião, de poucos, pode não se ligar ao público, pode até ser clássico em demasia, mas raramente está mal e mesmo quando está há um respeito para com o toiro e o cavalo que me agrada e não posso deixar de o ressalvar, e nesta sua lide deixou pouca história para o público em geral, mas bons detalhes em particular.

Novamente no “capítulo” das internacionalizações, em praça o rojoneador Andrés Romero, já conhecido do público português, que vindo já com algumas presenças em praças portuguesas este ano, teve honra de presença no Campo Pequeno. Na sua lide, diante de um Vinhas com 650kg, de comportamento nobre e a permitir ao toureiro desfrutar sem grandes percalços. O toureiro andou bem em compridos e conseguiu uma lide emocionante e bem desenhada, procurando sortes de verdade e nos terrenos de compromisso, nem sempre a entender de forma absoluta os terrenos adequados, mas a resolver, destacando-se pelo bom arranjo dos cavalos e pelo toureio muito próximo ao público típico do rojoneio, sendo dispensável algum toureio à bancada em que tende em insistir.

Retomando o toureiro lusitano, em praça esteve o mais novo da dinastia Moura, Miguel de seu nome, diante de um vinhas com 562KG um toiro que saiu à praça e foi desde logo desafiado e manteve um nível constante toda a lide, permitindo ao ginete de Monforte levar por diante a lide que procurava.

O cavaleiro andou bem, recebendo desde logo o toiro com uma tremenda porta gaiola, que merecia desde logo Música, cravando de verdade e levantando o Campo Pequeno, tendo de imediato levado a praça consigo… Embalado nesta entrada digna de “Mourista”, desenhou uma lide de curtos bem conseguidos, a cravar de frente e de alto a baixo, rematando com bregas ajustadas e a aproveitar o sumo que este Vinhas tinha para dar.

Fechou a noite no Campo Pequeno o toureiro António Prates, toureiro da nova geração como Miguel Moura, mas que não tem receio de se “apeitar” em grandes noites. Teve pela frente um Vinhas com 526kg, mais parado que os restantes e a exigir labor e querer ao ginete. Por diante do toiro, andou bem o cavaleiro em compridos, sem complicar… Em curtos, soube dar a volta a este Vinhas e retirar deste o que podia evidenciar não haver… desenhou uma lide sem erros ou exageros, cravando limpinho, no sítio como mandam os livros e respeitando o público, o toiro e os cavalos! Nota para o antepenúltimo e último curto de estrondo!

Chamada à praça do Ganadeiro… em boa hora, grande e uniforme curro, digníssimo do Campo Pequeno.

Quanto à rapaziada das ramagens foi uma noite de valor, raça e muito crer, na gíria costuma-se dizer que “o preto é que os mete no sítio”, por vezes com justiça, outras sem, é como tudo na vida… Hoje houve TOIRO, mas também, houve muito valor e galhardia em todas as jaquetas, saindo todos pela porta que mais importa, ou mais deve importar ao moço forcado… “A da Honra.”

Como grupo mais antigo da noite, abriu praça o Grupo de Forcados Amadores da Moita

Para o seu primeiro da noite, através do forcado David Solo, frente ao toiro procurou fazer bem o forcado, no entanto, na sua primeira tentativa o toiro estava desligado deste e mal se ligou, arrancou e mandou na pega, tendo ainda o forcado reunido com galhardia e com uma valente primeira ajuda, mas o grupo a não aguentar os derrotes já em tábuas. Na segunda e derradeira tentativa, já o forcado a conseguir Templar e mandar no toiro e a conseguir reunir novamente com galhardia, tendo desta vez, ainda melhor que na primeira, o primeiro ajuda rematado a viagem do forcado da cara, conseguindo o grupo fechar e consumar.

No segundo da sua noite, para a cara o forcado Fábio Silva. Diante do toiro, que se mostrou difícil de colocar, sempre andarilho, investindo mal viu o forcado e entrando grupo adentro durante 4 tentativas, sem permitir qualquer hipótese aos ajudas, apesar do crer do forcado da cara, a pega consumada na Quinta tentativa a sesgo.

Por ordem de lide, o segundo grupo em praça foram os amadores de Arronches.

Para pegar o primeiro da noite o forcado Luís Marques, frente ao toiro o forcado esteve paciente, tendo este sentido o forcado logo após meio da praça dando pouca margem de mandar, arrancando-se não dando espaço ao forcado de recuar devidamente tendo tropeçado e reunido sem eficiência, não conseguindo consumar. Na segunda tentativa, já conseguiu o forcado mostrar-se ao toiro, Templar e mandar, carregando o toiro a pouco mais de meia praça, não conseguindo recuar e reunir da melhor forma, não suportando sequer o primeiro derrota. Na terceira tentativa, o forcado permitiu novamente que o toiro se arranca-se de largo e mete-se a cara baixa logo após a reunião descompondo o forcado da cara e o grupo. Por fim, já na quarta tentativa com ajudas carregadas e dar menos distâncias ao toiro conseguiu o grupo consumar, apesar do nítido e compreensível nervosismo e cansaço do forcado da cara.

Na sua segunda pega da noite, em praça o forcado Rafael Pimenta, pisou praça a mandar no Toiro e a impor respeito, no entanto, o toiro veio a apitar e rompeu derrotando grupo adentro, acabando por consumar à segunda tentativa após uma primeira dura, com o toiro a romper grupo adentro.

Nota apenas e com todo o respeito pelo excelentíssimo forcado de cara e grupo de Arronches, há formas de recuar com os toiros e esta, com tanto espalhafato não é uma delas, pode ser eficiente, mas, recuar no Campo Pequeno com as mãos fora da cintura e elevadas… não é digno, e atenção que não foi apenas no grupo de Arronches, sendo que, nestas tentativas foi mais notório, não tirando de forma alguma, o mérito ao forcado da Cara e da dureza da pega e às valorosas tentativas que levou por diante.

Os mais novos do cartel, mas nem menos valorosos, é o Grupo forcados académicos de Elvas.

Na primeira pega da noite em praça o forcado Paulo Maurício. Diante do toiro tentou mandar e recuar com o toiro, mas este trazia ganas e reuniu com estrondo e frieza tendo despejado o forcado. Na segunda e derradeira tentativa, novamente o toiro a entrar com tudo, mas bem na reunião o forcado e ainda melhor o grupo a conseguir compensar derrote após derrote e a consumar !

Com a honra de fechar praça os Académicos de Elvas, levaram para a cara do último toiro da noite o forcado Gonçalo Machado, Diante do toiro andou Senhor, tranquilo a citar, com temple e toureria, a reunir com galhardia e a aguentar a viagem, com o grupo a fechar e a permitir consumar na sua primeira tentativa.

Estava em disputa o prémio para a melhor, que teve como júri os cabos dos grupos em cartel desta noite, sendo o prémio atribuído à última pega da noite, dos amadores académicos de Elvas.

Dar nota, porque se não sabem, têm de ficar a saber, o Excelentíssimo Sr. José Maria Cortes, cabo Falecido dos Amadores de Montemor, era conforme escola do seu grupo, contra concurso de pegas, pelo que, é no mínimo digno de registo a falta de adequação ser um livro em homenagem ao mesmo associado a um prémio de um “concurso de pegas.”, fica o reparo.

Dirigiu a corrida, o Dr. João Cantinho, que teve alguma incoerência, nomeadamente na atribuição da música, a mais na lide do Gamero e a menos na do Miguel moura.

Uma noite que se compôs, graças ao calor do público e à cada vez menor exigência do publico lisboeta… diga-se de passagem… mas sobretudo, pela nobreza e traços de bravura de um bem apresentado curro Vinhas, que colocou tudo no sítio, exigindo respeito e bem fazer a cavaleiros e forcados, e quando é assim, há emoção e há verdade, seja qual for o cartel, destacando-se hoje, Rui Salvador, aos modos de figura, bem haja!

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