“Ser Fado” é “o disco mais fadista” de Telmo Pires…e conta com inédito de António Variações

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Natural de Bragança, desde cedo descobriu o amor pelo Fado. Lançou o seu primeiro disco em 2000 e tem como referências Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Dulce Pontes. O fadista Telmo Pires prepara-se para lançar “Ser Fado” e em entrevista ao Infocul.pt falou sobre o disco que conta com um inédito de António Variações, “Ao passar por Braga abaixo”.

 

O fadista Telmo Pires lança a 19 de Fevereiro, no Museu do Fado em Lisboa, o disco “Ser Fado”. Em declarações ao Infocul.pt fala de si e das suas experiências através dos temas de um disco que conta letras de António Variações, Jorge Fernando ou do próprio Telmo Pires e com composições de Alain Oulman, Custódio Castelo ou do produtor do disco Davide Zaccaria.

 

 

Quando começou a ser preparado o disco “Ser Fado”?

 

 

Foi no verão de 2014 em que aproveitei o concerto no Museu do Fado para apresentar o primeiro tema que agora é single, e começaram a surgir as ideias, ou neste caso a minha ideia sobre o estilo e o caminho que eu queria percorrer com este segundo disco gravado em Portugal.

 

 

Para quem ainda não ouviu o disco, como é que o caracterizas?

 

 

Para mim, pela maneira como eu o pensei e trabalhei, é o disco mais fadista que o Telmo fez até agora, é a minha maior aproximação ao fado. O primeiro disco que gravei cá em Portugal tinha mais influências sonoras como piano, orquestra de cordas, e eu aqui com este quis concentrar-me mais no fado, por uma questão de gosto pessoal, mas não considero um disco de fado tradicional, apesar de ter temas tradicionais, mas com novos arranjos e nova roupagem.

 

 

“No meu olhar” com letra tua e música de Alfredo Marceneiro, melodia de Fado Versiculo, dizes “Eu quis parar/ mas a vida continuou”. Alguma vez na tua carreira colocaste essa hipótese?

 

 

Não. Não é a minha natureza, a minha natureza é cantar, tudo o que faço e espero ainda fazer é tudo uma evolução, comecei a cantar no primeiro disco lançado em 2000, tocava piano, sempre cantei em português, mas naquela altura também cantava em francês, espanhol, ingles, alemão e a evolução de aproximação à língua portuguesa foi uma evolução, pois só em 2004 gravei o meu primeiro disco só em português. Por mais obstáculos que possam surgir a nível artístico ou pessoal, que todos os artistas tem acho eu, nunca houve um plano B, eu pensar em seguir outra coisa. Eu lutei muito pela musica que eu queria fazer, porque viver na Alemanha e fazer musica em português é de loucos, todos diziam tens que cantar em inglês, alemão, participar em musicais, e eu sempre soube o meu rumo, pois sabia que em 2016 iria lançar um disco chamado “Ser Fado”.

 

 

Uma das maiores surpresas deste disco é o inédito de António Variações, “Ao passar por Braga abaixo”. Sendo tu natural de Trás-os-Montes, Bragança, como surgiu a possibilidade de gravares este tema?

 

Eu considero que são pequenos milagres que vão acontecendo e eu conheci o António Variações quando tinha nove/dez anos e vinha de férias. E sempre gostei muito da voz, da história que é muito dramática, porque morre muito cedo, e estava sempre muito presente na minha vida além do Fado. E este tema surge através do irmão do António Variações, que é o herdeiro de todos os direitos do António Variações, e ele gostou de mim, achou-me graça, tivemos uma conversa, somos todos do norte, eles de Braga e eu de Bragança, e passado umas semanas enviou-me essa maquete e deu-me autorização de eu fazer com aquele tema o que eu entendesse. A primeira vez que ouvi o tema sem instrumentos, foi um folclore assumido.

 

 

Sentes que ao colocares o folclore no disco colocas ainda mais portugalidade musical no disco?

 

Portugal não é só fado, não é só folclore. Para mim é o país mais bonito que há. E eu acho que Portugal tem muito, muito mais que Fado e Folclore. Calhou ser folclore, se não me tivesse dado o tema, não estaria lá, quem sabe talvez ficasse para um futuro disco. O que eu gosto é de mostrar vários estilos, várias caras e mostrar tudo o que está dentro de mim. Gostei de neste disco misturar musicas de Variações a Alain Oulman.

 

 

No single deste disco, “Fado Fantasma” com letra de Nuno Miguel Guedes e música de José Marques (Fado Triplicado), é dito “vivo o tempo que me dói/e que teima em não passar”. Os momentos de sofrimento servem de inspiração?

 

Como é que eu vou explicar sem dramatizar? Eu acho que trabalhando no Fado, não só cantando mas escrevendo e compondo, nós vamos através da inspiração sempre para a nossa vida pessoal, ou melhor, grande parte da inspiração, mesmo podendo escrever outras coisas, consigo escolher sempre mais autentico quando escrevo algo que me diga respeito. Escolhi este poema do Nuno Miguel por me identificar com ele. Eu acho que todos os artistas, e eu não sou apenas interprete mas sim criador, a parte que nos torna únicos é o lado pessoal, seja ele bom ou mau.

 

 

Continuando a viajar pelo “Ser Fado”, no tema com letra de “Malaventurado” com letra de Bernardim Ribeiro e música de Alain Oulman, é escrito “Mudei paixão em paixão/ vi a alma de mim partida”. És um homem de muitas paixões?

 

Sim, foi por causa disso que eu escolhi essa letra. E escolhi essa letra porque…Este disco era só para ter 10 temas como o anterior, tem doze. E esse tema surgiu numa noite em que tínhamos gravado, os músicos já se tinham ido embora, e eu estava com o meu produtor e falei desse tema, com uma letra que eu adoro, que estava no CD de Amália em 1977, “Cantigas de uma língua antiga”, e ele não conhecia, até por não ser cantado nas casas de fado. Eu adoro o poema e melodia e ele disse então canta lá, e eu fi-lo de cor, como estava no CD, só para mostrar e quando acabei a gravação, ele disse fica assim, nem regravei nem nada. É a única musica que foi gravada à primeira e não retocada.

 

 

E falando de paixões ou nem tanto, no tema “Desfeito”, com letra tua e musica do teu produtor Davide Zaccaria, o que tentas transmitir ao publico e o que representa o tema para ti?

 

Foi uma letra que escrevi muito depressa, penso que em dois dias estava pronta. Foi fácil porque já tinha a melodia. Há outros temas que demorei meses. E nesse tema o que eu acho que estava a tentar explicar ou colocar em palavras é não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. O que gostamos de fazer devemos executar hoje. Eu tento viver todos os dias como me são oferecidos. Deixo sempre alguma coisa por fazer, pois caso contrário não há razão para o amanhã. Tudo o que faço , tento sempre sentir-me bem a fazer, faço tudo com amor, com paixão. É tanto trabalho o que tenho na musica que se não fizesse com amor e paixão, não valeria a pena fazer.

 

 

Neste disco escolheste ter um dos clássicos do Fado, “Marujo português”. Havia a necessidade de ter um tema conhecido do público?

 

Gosto dos clássicos. Músicas estão lá muitas mas com outra letra. Eu acho que a figura do homem no fado é muito desvalorizada, no estrangeiro há pessoas que não sabiam que os homens também cantavam fado. Quanto ao tema eu adoro-o, mas é conhecido em Portugal como a “Rosinha dos Limões”. Eu decidi como homem cantar esse clássico, para mim, o poeta está de fora, está a contar as emoções de outras pessoas.

 

 

Em “Ausente”, com letra de Jorge Fernando e música de Custódio Castelo, o que sentes ao interpretá-lo?

 

É uma música que fala de despedidas e é uma despedida muito importante, é a despedida a terra da gente, da gente da minha terra. E eu fui habituado de muito novo a despedidas, e acho que essa letra tocou numa coisinha que está aqui guardada desde infância pois eu sai de Portugal com dois anos de idade, e eu nunca me quis separar de Portugal. E essa despedida deixou uma marca de muitos anos. E há pedacinhos nessa letra em que me revejo.

 

 

Este disco vai ser apresentado no Museu do Fado, dia 19 de Fevereiro. Porque é que as pessoas devem comprar este disco?

 

Eu não sou capaz e dizer uma razão para comprarem o disco. Eu fi-lo com paixão, amor, intensidade, e agora espero que as pessoas se revejam em alguns dos poemas.

 

 

O que podem as pessoas esperar dos espectáculos ao vivo?

 

No dia 19 vai ser a apresentação do disco, que teve o apoio do Museu do Fado, da Rádio Amália e Instituto Camões. No espectáculo em si irei fazer o que mais gosto, que é cantar transmitindo as emoções dos poetas ao público.

 

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