“Muito Depois” de Joana Amendoeira: O produtor Tiago Torres da Silva afirma estar “muito contente e orgulhoso deste disco”

Tiago Torres da Silva é o produtor e letrista de nove dos dezasseis fados que integram “Muito Depois”, o novo disco de Joana Amendoeira. Depois de ontem termos apresentado a entrevista com a fadista, hoje é a vez de dar a oportunidade aos nossos leitores de lerem a opinião do produtor do disco.

 

 

Em conversa com o Infocul.pt o poeta (que não se considera), letrista e produtor aborda o disco da fadista, os temas que o integram e explica a sua versatilidade na escrita.

 

 

Tiago Torres da Silva é um dos mais notáveis letristas portugueses, que viu e vê as suas palavras serem cantadas por alguns dos nomes maiores da música nacional e internacional, mas que neste disco de Joana Amendoeira assume também a função de produtor.

 

 

Dono de uma sensibilidade única, é o autor da letras de “P’ra mudar o rumo á vida”, “Lisboa da Madrugada”, “O avesso do destino”, “É a hora”, “Por pressa de viver”, “Fora de moda”, “Se eu te pedir o sol” e “A canção que te pedi”.

 

 

 

Fique de seguida com a entrevista feita ao produtor do disco de Joana Amendoeira, “Muito Depois”.

 

 

 

Tiago participas neste disco enquanto produtor e letrista. Agora que o disco foi editado como te sentes?

 

 

Eu estou muito contente e orgulhoso deste disco, que é algo que não costuma acontecer. Eu normalmente quando acabo os trabalhos e depois os vou ouvir penso sempre ‘isto podia ter sido feito de outra maneira’, mas de facto todo este processo foi tão fluido, levado por este amor que temos em partilhar os nossos dons que não houve nenhuma areia na engrenagem. Tudo correu bem, eu a Joana entendemo-nos muito bem mesmo quando tínhamos opiniões diferentes. Foi tudo tão engraçado, estar no estúdio e descobrirmos os sentidos das coisas, falámos muito nisso, não houve nenhuma letra que tivesse chegado à gravação sem que a tivéssemos dissecado, sem que a Joana tivesse segura do que estava a dizer, e eu acho que se nota isso, houve muito trabalho, o que fez com que a Joana chegasse à gravação completamente livre e solta, pronta para dar o melhor dela. E de facto acho que deu o melhor dela!

 

 

 

Tendo sido gravado durante a gravidez da Joana, sentes que isso deu um sentimento diferente a este disco?

 

 

Acho que trouxe a tudo. Acho que ela nos contaminou com essa energia criadora e criativa com que estava, na medida em que estava gerando uma nova vida. Nós excedemo-nos todos, tivemos todos acima das nossas possibilidades neste disco devido à energia que a Joana emanava por estar nesse estado de graça. E portanto estivemos todos num estado de graça durante a agravação. Parecia que estávamos dentro de um útero e que a placenta era o fado, que nos íamos alimentando desse fado que naquela altura vinha dela. A energia dela, grávida do primeiro filho, era muito forte e contaminou-nos a todos.

 

 

 

Este é um disco de fado tradicional, mas com novas sonoridades. Um fado que é tradicional e contemporâneo. Porque devem os amantes de fado comprarem o disco? Ou pelo menos ouvi-lo?

 

 

Eu e a Joana temos uma característica que nos une bastante que é um amor muito grande à tradição mas isso não nos aprisiona em lugar nenhum. Nós achamos que um pé no passado e outro no futuro é o melhor lugar do mundo para estar. Neste disco as pessoas vão encontrar fado puro e outras coisas que estão contaminadas de fado, porque a nossa vivência está toda contaminada. Nós fizemos que as gravações fossem acompanhadas com o acompanhamento tradicional do fado, não temos instrumentos esquisitos, mas também temos alguns temas acompanhados ao piano pelo Filipe Raposo, e maravilhosamente acompanhados. Temas em que percebemos que precisavam de outro balanço. Tivemos a sorte de ter participações mágicas, do Filipe Raposo, do Pedro Jóia…o assobio do Paulo de Carvalho cria ali uma ruptura com o que estamos a ouvir. Acho que foi um disco muito pensado, as pessoas dizem ‘tem dezasseis temas mas não era preciso gravar tanto’, mas depois quando ouvem o disco ninguém acha que o disco seja comprido, a única coisa que excedeu o disco foi a canção do Pedro Amendoeira [A canção que te pedi] que chegou quando já tínhamos acabado as gravações. Essa canção ficou uma graça pois a letra que eu escrevi conta a história. Uma canção que chega a um disco quando já não se pode gravar e curiosamente nos espectáculos quando a Joana conta a história do tema, é um dos que mais agrada à plateia.

 

 

 

Tiago, és um letrista que escreve para variadíssimos artistas, nacionais e internacionais. Enquanto poeta, como te inspiras para escreveres para artistas tão distintos? Como é que um poeta consegue ser tão distinto na escrita como tu?

 

 

Não fui eu que disse que era poeta, foste tu. Nunca me chamei de poeta…(risos)

 

 

Sim fui eu…

 

 

Eu acho que temos tudo dentro de nós. Eu acho que o letrista, não o poeta, tem que ser uma pessoa capaz de procurar dentro de si. Se escreve para a Tonicha procura o que tem da Tonicha dentro de si, se for para a Daniela Mercury a mesma coisa, e eu acho que essa é talvez a minha maior qualidade enquanto letrista, dar-me ao trabalho de procurar em mim o que é próximo da pessoa que me vai cantar. Quando me pedem para escrever letras sem dizerem quem é a voz, é muito difícil para mim escrever. Neste caso precisei de procurar em mim o que tinha da Joana Amendoeira…

 

 

 

E o que é a Joana Amendoeira?

 

 

Uma pessoa docíssima, romântica, com uma vontade de que tudo corra bem, que esteja sempre tudo bem ao redor dela, que gosta de partilhar, mas ao mesmo tempo com um desejo grande que a sua arte chegue a muita gente. E tens que procurar isso dentro de ti, tens que ser também mulher, porque também temos isso dentro de nós e procurar o olhar de uma mulher jovem prestes a ser mãe, prestes a mudar o rumo á vida, como diz uma das canções.

 

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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