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O Cineteatro Municipal D. João V, na Damaia, recebeu José Cid para um concerto intitulado “Voz & Piano”. Sala quase esgotada, duas horas e meia de concerto, e tanto para contar. Um verdadeiro “One Man Show”.

 

Poucos minutos passavam das 21:30, quando José Cid se juntou ao piano no palco sob calorosa ovação de um público que ia dos oito aos oitenta e que viu o cantor, compositor e produtor agradecer “à Câmara e à Espanta Espiritos na pessoa do Miguel, a possibilidade de vir à cidade da Amadora”.

 

Tenho 73 anos, faço a 04 de Fevereiro os 74 e estou disponível para tocar todas as musicas que vocês pedirem” disse antes de interpretar “o primeiro tema que gravei e também o último” referindo-se a “Lenda de El Rey D. Sebastião” gravado com o Quarteto 1111 e “João Gilberto e Astor Piazolla” que provavelmente será o primeiro tema do próximo disco intitulado “Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid”.

 

José Cid é para além de cantor, compositor e produtor, um excelente contador de estórias e com um background cultural vastíssimo, não tendo sido por isso estranho ouvi-lo falar de nomes como Gil Vicente ou Shakespeare e suas respectivas obras.

 

Em “Viver a vida amor” aproveitou para brincar com a pronuncia do norte e com a trocas dos “vês” pelos “bês”, depois de ontem ter actuado no Porto, antes de viajar até “No dia em que o rei fez anos” ou recordar uma “mulher sofrida, não compreendida” com “O Andar de Marilyn” referindo-se a Marilyn Monroe.

 

José Cid é provavelmente o artista mais ecléctico que Portugal conhece, interpretando vários géneros musicais, do jazz ao Fado, do pop ao rock passando pela bossa nova. E ontem recordou o tempo em que “era vocalista do Grupo de Jazz de Coimbra. Em que nós fomos os primeiros em Portugal a aderir a onda de João Gilberto”, antes de interpretar de forma genial dois temas de Tom Jobim.

 

Uma das grandes surpresas desta noite na Amadora, foi ter como convidado o também cantor David Antunes, que interpretou “Cai Neve em Nova Iorque” e ainda “Nasci para a música” juntamente com “Sir Cid, José Cid” como carinhosamente tratou Cid.

 

Um dos segredos para tamanha longevidade artística é a proximidade que o artista faz questão de manter com os seus fãs, dando o exemplo de “uma senhora que me abordou quando eu vinha a chegar e disse “veja lá se canta aquela canção da velhinha”, conhecido como “Fado de Nossa Senhora”, que interpretou sem microfone, apenas com acompanhamento instrumental do seu piano. Afinação perfeita, colocação de voz irrepreensível e et voilá, público de pé ao rubro. Alguém neste momento se lembrou dos 73 anos? Arriscamo-nos a dizer que não, tal a jovialidade demonstrada.

 

Numa sala moderna e com uma extraordinária acústica, José Cid continuou contando as suas estórias e recordou a eterna diva do Fado, Amália Rodrigues, antes de informar que o disco a lançar em 2017 terá o nome de “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”. Mas antes disso mais uma grande novidade, “parto na quinta feira para Madrid, a convite de um produtor espanhol que tentará fazer alguma coisa por mim em Madrid, depois de me ter ouvido”. Mas sempre admitiu que “é mais fácil um espanhol ou uma espanhola ter sucesso em Portugal” recordando que “há três anos fazia a primeira parte do Júlio Iglésias no MEO Arena e foi daquelas de Benfica 5-Real Madrid 0” algo que fez, segundo Cid, “ele ficar com umas trombas…”

 

E como de Espanha por vezes soam bons ventos e bons casamentos, ao contrario do ditado popular, “El Toro y La Luna” saiu com sabor a Fado e Flamenco numa conjugação perfeita e que Cid soube potenciar.

 

Sarcástico e com um humor inteligente José Cid foi também falando de algumas das “celebridades” deste pais à beira mar plantado, sobre o programa “extremamente cultural” intitulado “A Quinta” e ainda questionou “Onde vão buscar aquelas criaturas?” soltando sonoras gargalhadas na sala amadorense. Juntou ao sarcasmo, humor e ironia, um pouco de picante e serviu no ponto “Favas com chouriço”.

 

Uma das polémicas mais badaladas da semana foram os gostos musicais do treinador do Sporting, Jorge Jesus, a opinião de José Cid acerca dos mesmos. O cantor não fugiu ao tema e lembrou que tem “a maior consideração como treinador, mas que ele é como o Tino de Rans, fala demais”, e que “ataca o Rui Vitória que tem cara de papa-almoços” soltando mais umas gargalhadas na plateia. Lembrou que o futebol não deve ser levado tão a peito. E concordando questionamos ainda: Onde está o sentido de humor deste país?

 

Com o concerto a caminhar a passos largos para o seu término tempo ainda para ligar à sua esposa, Gabriela, que recebeu forte ovação da plateia, recordar temas de Tozé Brito, Pedro Ayres de Magalhães, das Doce, “Como o macaco gosta de banana” e ainda um curto encore, terminando em apoteose com um tema de agradecimento pelo amor que o público lhe tem.

 

José Cid proporcionou uma noite de intensidade e qualidade altas, e com apenas um piano e a sua voz demonstrou todo o seu vasto reportório, as estórias de carreira, de vida, provando que será sempre o Tio Cid. O nosso Tio Cid, pois é um Património vivo de Portugal inteiro.

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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