A homossexualidade no Estado Novo para ver e rever na interpretação de Flávio Gil no São Jorge

Fotografia: Rui Olavo

Esta terça-feira, 7 de Janeiro, Flávio Gil regressou à sala 2 do Cinema São Jorge, em Lisboa, com o espectáculo ‘Mário: Um Bailarino no Estado Novo’.

O espectáculo é baseado, com factos reais e outros ficcionados, no bailarino Valentim de Barros, com texto e encenação de Fernando Heitor e interpretação de Flávio Gil.

A interpretação de Flávio Gil é forte, bem conseguida e emocionalmente intensa quer no momentos efusivos, quer nos dramáticos. Ao longo de mais uma hora, Flávio conta as peripécias de um rapaz com mau relacionamento com os pais, foge da Margem Sul e instala-se em Lisboa.

Cresce juntos dos gatos vadios e das gaivotas, dos pescadores e das varinas, dos drogados e as prostitutas. Durante este período sofre abusos sexuais, mas não se importa.

Em termos cénicos, o espectáculo é simples mas cumpre o propósito. Mário vai trocando de roupa à medida que vai crescendo. Além da roupa, o palco conta apenas com uma cadeira e um biombo.

Durante o Estado Novo, Mário foi protegido por padres e coronéis, abusado por vários homens, mas recebeu uma educação que lhe permitiu alcançar o seu maior sonho: ser bailarino.

O seu percurso artístico levou a actuar em Paris, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Na Lapa (Rio de Janeiro), era conhecido por Mariete, tinha os homens que queria, era feliz e reconhecido por ser excelente bailarino.

Após a segunda guerra mundial, regressou a Portugal. Foi preso por andar vestido de mulher na rua, o que infringia a liberdade desse tempo. Foi internado no Hospital Miguel Bombarda, sujeito a choques eléctricos, para curar a homossexualidade.

A peça critica ainda Egas Moniz, que desenvolveu a lobotomia para os homossexuais, uma técnica que consistia no corte de um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, com destaque nos nervos do cortex pré-frontal.

Não há um único momento do espectáculo em que Flávio Gil não domine todo o palco e capte a atenção do público. É através da palavra, do corpo e da mensagem que ele demonstra o seu talento. A voz é talvez a única melhoria que podemos sugerir, pois poderá estar mais cuidada.

Um espectáculo a merecer cuidada atenção do público, até dia 28 de Janeiro. Os bilhetes custam 10 euros e há descontos para jovens e idosos.

Destacar  a banda sonora que conta com Gaspar Varela, na guitarra portuguesa e João Paulo Soares, no piano e teclas. A masterização é de Alexandre Soares. Ao longo do espectáculo há vários excertos de temas conhecidos e também de alguns poemas. Fernando Heitor demonstra grande qualidade na encenação, fazendo jus ao seu talento.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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