Aldina Duarte: “Acho que a experiência da casa de fados, dos palcos, do estúdio, dá-me a liberdade para ultrapassar o pudor de cantar o que é de outros e de errar até, se for o caso”

Alfredo Cunha

 

 

Roubados’ é o novo disco de Aldina Duarte, que assina também a produção do mesmo, no qual conta com um dueto com António Zambujo e é magistralmente acompanhada por Paulo Parreira, na guitarra portuguesa, e Rogério Ferreira na viola de fado.

Um disco gravado no estúdio Namouche, com fotografias de Alfredo Cunha, em estúdio, e Rui Henriques, na capa.

O repertório conta com temas do repertório de Tony de Matos, Carlos Ramos, Maria da Fé, Celeste Rodrigues, Beatriz da Conceição, Hermínia Silva, Amália Rodrigues, João Ferreira Rosa, Lucília do Carmo, Tristão da Silva, Carlos do Carmo e Maria Teresa de Noronha.

Aldina Duarte concedeu entrevista ao Infocul. Abordou-se a concepção do disco, o percurso, as referências, o Sr.Vinho e as redes sociais. São 25 anos de carreira celebrados com um novo disco!

Roubados’ pode ser considerado um disco dos Fados que inspiraram Aldina Duarte?

“Roubados” é um disco de fados clássicos, letra e música originais que nascem juntas para a voz de um determinado fadista, e que por terem uma personalidade artística muito vincada e singular, muitos passaram a fazer parte de uma espécie de cartilha fadista que os fadistas, quando começam a cantar nas casas de fado, e não têm repertório próprio, seguem, estes fados foram inspiradores pelo muito que aprendi de tanto os ouvir “ao vivo”, pelos seus criadores e fadistas de todas as idades, anos a fio.

Lembra-se do primeiro Fado que ouviu?

Na minha vida, não me lembro, mas o tema “Veio a Saudade”, de Beatriz da Conceição, esteve entre os primeiros fados que Beatriz da Conceição cantou na primeira noite em que fui a uma casa de fados, “Nono”, no Bairro Alto.

Qual a importância desse fado, actualmente, na vida de Aldina?

Este fado é a marca do espanto e da revolução que foi ouvir, a um metro de distância, uma fadista como Beatriz da Conceição, nunca mais perdi a ligação a esta arte, até hoje, seja como fadista, letrista ou ouvinte.

Fez uma selecção de 12 Fados. Algum que lamente não estar aqui?

Não, gravei todos os que retratam esta minha breve biografia fadista.

Destes doze Fados qual o que a faz sorrir e qual a que deixa mais emocionada?

Sorrir, o tema “Oiça Lá Ó Senhor Vinho”; o que me emociona mais é o “Arraial”, por razões artísticas e pessoais.

Tem receio das comparações que possam ser feitas?

Receio, não. A comparação, enquanto crítica preguiçosa ou mal intencionada, dá-me graça, mas se for consistente, até agradeço.

Alfredo Cunha

 

Conta com a participação de António Zambujo. Podemos dizer que é surpreendente?

Surpreendente só porque não gosto de duetos que não tenham sido escritos para duas vozes, e quem souber disso e não conhecer a letra de “Rosa Enjeitada” pode achar estranho. Escrevo para o António e trabalhámos juntos no Sr. Vinho muitos anos, admiro e respeito muito o seu talento, devo dizer que é dos temas que mais gosto neste disco.

Alfredo Cunha

Permita-me que destaque a sua dupla de instrumentistas. Qual o peso de se fazer acompanhar por dois músicos geniais?

O Paulo Parreira e o Rogério Ferreira são determinantes no resultado de qualquer fado que canto, temos as cumplicidades e as afinidades artísticas potenciadas por doze anos de trabalho conjunto todas as noites no Sr. Vinho e em concertos, e, ainda por cima, somos amigos.

A Aldina além de fadista é apreciadora e consumidora de música. Colocando-se como público, como define ou caracteriza a fadista Aldina e este disco?

Não tenho distância… não consigo ver-me de fora.

No livrete que acompanha o disco, Ana Sousa Dias escreve “Este é o disco que eu deveria ter feito quando comecei”- disse ela. Porque considera que deveria ter sido o disco quando começou?

Porque me convidaram ao fim de dois anos de cantar para gravar, na EMI-Valentim de Carvalho, e não tendo repertório próprio, a proposta  era cantar fados de outros fadistas, e recusei, porque queria afundar-me nas melodias do fado tradicional e criar uma linguagem poética, um repertório e um estilo que fossem só meus.

E aproveito e pergunto porque considerou que foi agora o momento ideal?

Sim, acho que a experiência da casa de fados, dos palcos, do estúdio, dá-me a liberdade para ultrapassar o pudor de cantar o que é de outros e de errar até, se for o caso.

 Assinando a produção deste disco, em algum momento a produtora e a fadista discordaram?

Às vezes, sim, mas tinha “a faca e o queijo” na mão para decidir. 

Não posso deixar de perguntar sobre a casa onde é residente. O ‘Sr.Vinho’ é o seu porto de abrigo fadista?

É a casa do meu fado e a minha eterna oficina, onde faço, desfaço, refaço tudo o que diz respeito à minha profissão e criatividade artística.

Como analisa o actual momento do fado, com muitas vozes a surgirem e também várias fusões de outros géneros com o Fado?

Acho que o fado está pujante, a jovialidade numa arte de tradição oral e muito antiga é sempre louvável, as fusões artísticas são uma espécie de laboratório donde saem ideias boas e más, sendo que o fado tem uma raiz muito forte e antiga  incorruptível, a longevidade, no caso desta arte musical,  é sempre um bom instrumento de avaliação de uma obra.

 

Gosta das redes sociais? São importantes para o seu trabalho?

Gosto, enquanto utilizadora deste instrumento de divulgação acho criativo e eficaz.

Quem são as suas inspirações no Fado? E na vida?

No fado, Maria da Fé, Camané, Beatriz da Conceição,  Carlos do Carmo, Amália, Lucília do Carmo, João Ferreira-Rosa, Maria Teresa de Noronha, Hermínia Silva, Carlos Ramos, Alfredo Marceneiro. Na vida, a minha família, os meus amigos, as pessoas que  tornam a história da humanidade mais digna, sendo ou não famosas.

Se deixasse de cantar Fado, o que faria?

Não sei.

Aldina Duarte actua dia 5, pelas 18:30, na FNAC Chiado.

 

Alinhamento de ‘Roubados’:

 

Vendaval (Joaquim Pimentel/António Rodrigues)

Fado da Sina (Amadeu do Vale / Jaime Mendes)

Não Me Conformo (Emilio Vasco / Minz Pereira)

Veio a Saudade (António Campos / Jorge Barradas)

Praia de Outono (David Mourão-Ferreira / Nóbrega e Sousa

Porta Maldita (Jorge Rosa / Fontes Rocha)

Oiça Lá Ó Senhor Vinho (Alberto Janes)

Arraial (João Ferreira Rosa)

Vem (Júlio de Sousa)

Senhora da Nazaré (João Nobre)

Padre Nosso (Frederico de Brito / Armando Freire)

Rosa Enjeitada (José Galhardo / Raul Ferrão)

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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