Alexandre Carolino e a luta dos recortadores: “O que nos move é a enorme paixão pelo toiro”

O recortador Alexandre Carolino é um dos mais destacados nesta arte tauromáquica. A nível nacional é dos mais destacados, sendo que nos últimos dias foi notada pelos recortadores a pouca atenção que lhes tem sido dispensada pelos agentes tauromáquicos, no regresso da tauromaquia no pós-confinamento.

 

A tauromaquia tenta regressar, numa nova realidade mas até ao momento pouco se tem falado na questão dos recortadores e nesse sentido entrevistámos Alexandre Carolino de modo a darmos a conhecer a visão de quem vive por dentro a realidade dos recortadores em Portugal.

▪️ Alexandre, como surgiu o seu gosto pelo mundo tauromáquico?

Vila Franca é uma terra cheia de afición e com ela nasceram durante décadas famílias de grandes ligações ao mundo tauromáquico, uma dessas famílias é a minha, que durante longas gerações viveram a festa brava e a cultura ribatejana de forma muito própria e característica, cresci a vê-los lidar toiros, brincar com toiros na rua. Este gosto já é genético, está-nos no “sangue”.

 

▪️ Quem é o seu ídolo no mundo dos recortadores?

Existem duas pessoas no “Mundo do Recorte” que me inspiram e me motivam sempre a exigir mais de mim e das minhas performances nas verdadeiras horas (Espectáculos), um deles é o Recortador José Poca, que pela qualidade do paço, e dos sítios em que se coloca perante um toiro o tornam uma figura emblemática, o segundo é o meu irmão Pedro Miguel Carolino, que além da tremenda qualidade que demonstra sempre nas suas actuações, é um pilar essencial na minha vida tauromáquica, abriu portas para o meu sucesso e reconhecimento, esteve sempre presente nas horas de aflição que surgem perante um toiro e de glorificação. É muito especial para mim.

 

▪️ O seu irmão Pedro Carolino, teve influência na sua escolha em ser recortador?

Sim, sem duvida… foi uma influencia de peso, recordo do primeiro concurso de recortadores que vi, e de forma muito gratificante ele sagrou-se vencedor. No segundo concurso, sentia-me especialmente ansioso, e mais uma vez o meu irmão atingiu a vitoria, e estas experiências trazem-nos partilhas de conhecimentos, motivação e interesses. Aprendi imenso a ver e adquiri um enorme gosto em “estudar” o comportamento de um animal tal glorioso como o toiro, porque tudo isto nos muda, muda imenso a forma de analisarmos a nossa vida e aprendemos a encarar estes animais com outra emoção.

 

▪️ Qual o maior obstáculo em Portugal, para não existirem mais espetáculos de recortadores como na nossa vizinha Espanha?

Infelizmente, Portugal tem uma cultura tauromáquica um tanto ou quanto antiquada, no sentido em que se preza e sobrevaloriza um tipo de espectáculo, que não se encontra ainda preparado para acolher o estilo dos recortadores. Quando digo estilo, refiro-me à modernização e diferença. Tudo isto se deve à inflexibilidade das excelente influencias da nossa cultura tauromáquica Portuguesa, que podiam facilitar a integração deste tipo de espectáculos no nosso meio, pois foi exactamente isto, que não minha modesta opinião, aconteceu na nossa vizinha Espanha. O meio tauromáquico, abriu portas aqueles que hoje são também grandes figuras no mundo dos recortes, movem milhares de pessoas e promovem o trabalho de tudo o que engloba um espectáculo taurino, pois estamos todos para o mesmo fim, sendo que o que nos move é a enorme paixão pelo toiro. Deixo aqui uma sugestão de reflexão… Se estamos todos para o mesmo fim: valorizar e glorificar a cultura tauromáquica, por que motivo excluir a arte do recorte é uma opção (?)

 

▪️ Na sua opinião, qual a maior diferença entre os aficionados portugueses e espanhóis?

Na minha opinião, os aficionados espanhóis, são amantes e grandes examinadores. Reconhecem os espetáculos, o perigo, a dedicação dos recortadores, a técnica de cada um de nós, o treino a que todos nós nos submetemos para que em Praça tudo seja concretizado da melhor forma possível. E isso torna-os um povo vibrante. Em Portugal, reconheço hoje, depois do percurso que fiz, que regra geral o povo não olha a todos estes pormenores mencionados, rege-se apenas pelo fascínio de ver um toiro em praça, sem medir os verdadeiros esforços e perigos com os quais nos deparamos. 

 

▪️ Qual a praça em Portugal que o coloca mais nervoso por ter um espectáculo?

Como não poderia deixar de ser a Praça da minha terra, a mítica Palha Blanco, por toda a história que tem, por todas as figuras tauromáquicas, de importância que a “pisaram”, elevando os valores e exigência de qualquer toureiro que tenha a oportunidade de nela actuar. É uma grande responsabilidade, sentir o dever de honrar tão importante praça.

 

▪️ Referiu há uns dias, que alguns Ganadeiros e empresários tauromáquicos vos fecharam as portas. O que nos pode dizer mais acerca deste assunto e a quem se referia em concreto?

Em relação a este assunto apenas quero deixar um agradecimento a todas as ganadarias que nos possibilitaram a concretização dos eventos que se realizaram, e a tantas outras que ainda hoje nos recebem em suas casas para treinos e convívios. Aos empresários que apostaram em nós, que nos respeitaram deixo desde já, também um verdadeiro agradecimento. Não me referi, nem tenciono referir a um elemento em concreto, apenas pretendo demonstrar que no mundo dos recortes primamos pelo rigor, pelo risco, e pela pureza, não só da nossa arte mas dos toiros que nos são impostos, que nunca em nenhum momento foram desrespeitados por nós em Praça, e a prova disso está nos eventos realizados em Vila Franca de Xira, que encheram duas vezes a nossa Praça e provou que esta arte tem força suficiente para crescer, e fazer crescer com ela, o sonho de muitos jovens, que se apaixonaram e fizeram com que o publico se apaixona-se, e isto sim, é o que me importa.

 

▪️ Como foi a experiência de terem actuado na corrida da TV Norte?

Foi uma experiência única e inexplicável, aproveito desde já para deixar um enorme “obrigado” a RTP, que com um enorme esforço e dedicação conseguiu introduzir o nosso espectáculo numa corrida de toiros tão prestigiada, como é, a nossa corrida á portuguesa. Este momento serve de exemplo para um futuro de novas oportunidades para os recortadores.

 

▪️ O que acha que afasta a afición portuguesa dos espectáculos tauromáquicos?

Para ser honesto, e sem querer ferir susceptibilidades, o que nos afasta a afición dos espectáculos é exactamente a falta de verdade. Com isto pretendo apenas dizer que, num espectáculo como os nossos, a pureza do toiro é importante, o que fazemos é lidar um animal inteiro em toda a sua natureza, corpo a corpo, sem adulteramentos nem ficção. E para isto, é importante que exista um apoio de todos os elementos que organizam este tipo de eventos, que se meçam os perigos, mas que se mostre com verdade e de verdade ao nosso publico a verdadeira pureza e beleza de tudo isto.

 

▪️ Como pode um jovem português ser recortador? O que tem de fazer?

Primeiro que tudo, os valores e princípios da tauromaquia devem ser respeitados sobre qualquer situação. Já o meu irmão Pedro Carolino me dizia, “Ser bom toureiro não chega, temos de saber respeitar o toiro, a praça que pisamos, todos os elementos que se esforçam para a realização do espectáculo, e todos aqueles que nos acompanham como publico admirador desta arte”. Para mim, este é o principio, tudo o resto, desde as técnicas aos treinos e ao aperfeiçoamento, vai do gosto e da dedicação que cada um de nós transporta para este tipo de arte.

 

▪️ Para o público não conhecedor de tauromaquia, o que é um recortador?

Pessoa que se dedica inteiramente á arte do “corpo limpo”, apaixonada pelo encanto do toiro e pelos valores da verdadeira tauromaquia.

 

▪️ Os recortadores, em Portugal, como estão organizados? Há alguma estrutura profissional?

Não, ainda não existe nenhuma estrutura profissional para os recortadores. Quero acreditar que talvez um dia, quiçá, venha a existir.

 

▪️ O que está a ser feito pelos recortadores de modo a terem o destaque que pretendem na tauromaquia?

Esta questão fica para reflexão de todos os nossos colegas da tauromaquia, para já, só vos posso garantir que enquanto tivermos amor e dedicação pela arte as nossas vozes serão, decerto, ouvidas e estaremos sempre preparados para dar corpo aos nossos desejos.

 

Entrevista e Texto: Diogo Nora e Rui Lavrador
Edição: Rui Lavrador
Fotografia: CLEMARES

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