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Ana Laíns é reconhecidamente como uma das melhores vozes femininas em Portugal. Muitas vezes associada ao Fado, tem sido uma das maiores impulsionadoras e divulgadoras da musica tradicional portuguesa além-fronteiras e prepara-se para lançar o seu terceiro disco, que tem edição prevista para 2017.

 

 

Esta entrevista, inserida numa selecção de 15 personalidades entrevistadas no dia do primeiro aniversário do Infocul, tem como objectivo dar a conhecer melhor a artista, além da mulher,  que foi a embaixadora das comemorações dos 800 anos da língua portuguesa e que tem sido reconhecida nacional e internacionalmente ao longo da sua carreira, pelo talento com que brinda o público em cada actuação.

 

 

Ana quando é que a música surge na tua vida e decides fazer dela, a tua vida?   

 

Olha, eu comecei a cantar com seis anos, inconsciente, completamente. E foi por causa de um festival de escolas de acontecia no meu concelho, em Constância. Depois fui continuando a tentar, sem compromisso como é logico, e só com 18 anos, quando terminei o secundário, é que informei os meus pais que não ia para a universidade porque queria ser cantora. Ia matando o meu pai do coração. E foi nessa altura que me tornei profissional, vim para Lisboa, tinha acabado de ganhar a Grande Noite do Fado no Coliseu, em 1999. Vim viver para Lisboa, comecei a cantar no Casino Estoril, completamente inexperiente…estive lá três meses antes de me mandarem embora…mas era mesmo muito inexperiente, mas foi o melhor que me aconteceu. Depois fui cantar para o Casino da Figueira a Foz, fiz o circuito dos casinos durante cinco anos aproximadamente e só em 2006 é que acabei por gravar o primeiro disco. Mas profissionalmente, comecei a cantar com 19 anos.   

 

 

Sentes que ao longo deste percurso tens sido devidamente reconhecida pelo público?   

 

Pelo público sim. E sim porquê? Porque eu não me consigo lembrar de um único concerto que eu tenha dado e que não tenha terminado da melhor maneira possível. E o que me deixa mais feliz é que nós vamos recebendo o feedback das pessoas e perceber que marquei a vida de alguém naquele momento. Eu já cantei em salas com 16 pessoas a assistir, como já aconteceu e acontece a todos, não se iludam…e dessas 16 pessoas eu ainda hoje tenho amigos que me conheceram naquela sala, que não eram fãs, foram um bocadinho ao engano, e que hoje sendo fãs são também meus amigos. Portanto eu fiz a diferença na vida dessas pessoas. Sempre que eu canto, sempre que apresento a minha música, em salas cheias ou vazias, em Portugal ou no estrangeiro, eu sinto que as coisas correm sempre bem. Portanto do público eu sinto que tenho sempre esse reconhecimento. Às vezes as pessoas dizem-me “o teu país trata-te mal”, eu não acho que o meu país me trata mal, eu acho que o país me trata muito bem, porque quando chega a hora H, as pessoas reagem muito bem à minha música.    

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Quem é que não te reconhece valor?   

 

Quem não me dá a possibilidade de dar a conhecer o meu trabalho…   

 

 

Estás a falar das produtoras?   

 

Não. Estou a falar essencialmente da imprensa, dos promotores de concertos e dos programadores, que tem também sido uma luta complicada. Eu tive management durante quatro anos, entre 2007 e 2011, e depois decidimos de parte a parte e tranquilamente, que estava na altura de terminar ali. Depois agarrei a minha carreira com as minhas próprias mãos, e ainda hoje sou eu que faço, não digo management porque sou uma péssima manager porque não tenho estratégia nenhuma, mas sou eu que faço o meu booking, que arranjo os meus próprios concertos, que produzo, algo que adoro, e as coisas têm corrido, sinto que lentamente tenho conquistado o meu lugar, as pessoas começam a respeitar-me, os próprios programadores que não me conheciam e hoje em dia já me conhecem e sabem o que é que eu faço e já ponderam a possibilidade de me contratar, e isto tudo sem grandes apoios em termos de divulgação, porque como te digo não tenho estratégia, não tenho tido nenhuma estratégia promocional e ai admito que é uma falha minha, mas as coisas têm corrido…Repara, todos os artistas têm as suas próprias circunstâncias, e eu não estou a ser politicamente correcta de maneira nenhuma, e as minhas circunstâncias são estas…A partir do momento em que eu decidi que não ia ter management, eu sabia que ia incorrer numa série de consequências, e a consequência principal é a lentidão com que acontecem as coisas, mas eu tenho vindo a conquistar o meu lugar e sinto-me feliz com isso. E porquê? Porque eu só me comparo a mim, não me comparo à artista mais vendida do país, comparo-me a mim na minha própria realidade, entendes o que quero dizer?  

 

 

Entendo perfeitamente. Em termos de imprensa, como tem sido a relação ao longo destes anos em Portugal?  

 

Não tem sido…  

 

 

Será que a imprensa te conhece?  

 

Eu acho que há muita gente que continua a não me conhecer, e tu que és jornalista sabes, que antigamente um jornalista trabalhava anos e anos num jornal ou numa rádio e hoje em dia isso não acontece…provavelmente o contacto que eu tenho hoje num jornal diário, para o ano já não é o mesmo, e portanto fica complicado. E é como eu te digo, não tenho tido uma estratégia, tenho deixado as coisas acontecer. O que é que eu sinto em relação à imprensa? Eu sinto de um modo geral, ainda que existam várias excepções magníficas, o facto de eu não ser uma cantora de primeira linha em termos de mercado faz com que muitas pessoas não tenham interesse na minha música, entendes? É o tal papel subvertido aqui das coisas…Portanto supostamente a imprensa existe para informar as pessoas, não só para criticar mas para informar, e o facto de eu não ser uma cantora de primeira linha impede as pessoas de terem curiosidade em relação a mim.   

 

 

Achas que a imprensa cria elites na classe artística?  

 

Completamente. E completamente ponto final parágrafo. Está tudo dito!  

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És muitas vezes associada ao fado, inclusive foste durante muitos anos considerada uma das melhores vozes da nova geração de fadistas. Contudo, tu não cantas apenas fado. Se te classificasses a ti própria como seria?  

 

Eu acho que tu sabes essa resposta mas eu vou-te responder. Quando eu digo que não gosto que s pessoas digam que sou fadista não é redutor (como é que eu vou dizer isto? Ás vezes as coisas são mais complicadas do que parecem). Do género, dizerem “Ah és uma excelente fadista” e eu dizer “Mas eu não sou fadista”. Não é porque eu ache que ser fadista seja redutor, ou porque esteja a ser humilde (porque há pessoas que às vezes dizem “Ah estás a ser humilde), não tem nada a ver com isso. É mesmo uma questão quantitativa e não qualitativa. Eu faço o melhor que posso quando canto fado e adoro cantar fado, não te iludas porque eu não sei viver sem [o cantar]. No entanto, como falávamos agora em off, eu nunca fui só fadista, eu nunca cantei só fado. Portanto eu gosto de me ver, e acho que é o termo certo para falar sobre mim, como uma cantora de cariz tradicional português, uma cantora de MPP, não sei se existe mas se não existe acabei de inventar, de música popular portuguesa. E a música popular portuguesa está muito mal conotada porque ou está conotada com as esquerdas e com a música de intervenção ou então está conotada com a música pimba, como se diz na gíria. E não é. Tu tens a MPB, musica popular brasileira, onde tu enquadras uma Maria Bethânia, Ivan Lins, Caetano Veloso, e todos eles não cantam só Bossa ou só Samba, eles cheiram a Brasil. E o que eu sinto em relação à minha musica e à cantora que eu sou, gosto de pensar assim, é que cheiro a Portugal, por isso gosto de me ver como cantora de cariz tradicional português, só.  

 

 

Tu foste das primeiras artistas em Portugal a fazer essa fusão em termos de alinhamento de espectáculo…  

 

Não sei…  

 

 

Mas foste muito criticada?  

 

Isso sim…  

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Como é que vês vários artistas actualmente fazerem o mesmo e serem aclamados? Sentes-te injustiçada?  

 

Eu sou humana e sinto-me injustiçada muitas vezes, mas não é pelos artistas como imaginas não é? Nem crio nenhum tipo de animosidade relativamente às pessoas que criam. E às vezes as injustiças também não têm cara. É um bocadinho o resultado do todo. Eu não fui a primeira, nem descobri a pólvora. Aliás eu fui muito inspirada pela Dulce Pontes, que foi a grande revolucionária, mas antes tiveste uma Amália, que não cantou apenas fado tradicional e que foi brutalmente criticada e ainda hoje continua a ser por não ter sido uma fadista tradicional, até porque ela também trouxe muitas coisas. E a mim quem me inspirou e trouxe o folclore para os palcos internacionais foi a Dulce Pontes, ponto final parágrafo. O que é que sinto? Como eu te disse, nós temos as nossas circunstâncias e os timings em que as coisas acontecem são muito importantes e determinam muitas coisas. Eu apareci com o primeiro disco em 2006, uma altura que o fado enquanto fado estava a ganhar imensa expressão, estava a tornar-se massivo, então era natural que as pessoas quisessem fado. Mas eu surgi numa altura que provavelmente não foi benéfica para mim, enquanto estratégia de construção de carreira, acho que esse foi o meu principal problema. Hoje em dia, e muito por culpa da Ana Moura, que com o “Desfado” acabou por catapultar o folclore novamente para os palcos mundiais, eu estou-lhe grata, porque graças a ela eu hoje já consigo viajar com o meu percussionista e com o meu acordeonista, algo que não conseguia em 2006. Consigo chegar acima de um palco, pegar no meu adufe e cantar e as pessoas já não acham assim tão estranho. Portanto eu sinto-me muito grata a cantoras como Ana Moura, Mariza e muitas outras que abriram essas fronteiras. O que me faz muita impressão e ai tenho que ser sincera, da mesma forma que essa pessoas foram sinceras comigo uns anos atrás, agora é o meu momento de ser sincera, eu ouvi muito fadista criticar-me pelo que eu fazia, que eu andava a aproveitar-me do fado e agora dá-me vontade de dizer “então e tu não andas a aproveitar-te do folclore?”. Eu cheguei a ser acusada de pisar a bíblia, e então agora a minha bíblia? Também estão a pisa-la? Não. É claro que não. Simplesmente estão a viver as suas próprias circunstâncias, o seu momento e eu tenho por essas pessoas o respeito por elas, que eu gostava que tivessem tido por mim há dez anos. Resumidamente é isso.  

 

 

Em que ponto está a tua carreira actualmente?  

 

Aos olhos de muita gente não estará muito bem, mas para mim está. Os últimos dois anos foram problemáticos para mim por questões de saúde. Não vamos falar sobre o quê, porque não é preciso. Inclusivamente isso atrasou também o lançamento do meu próximo disco, porque o meu terceiro disco já deveria ter saído há dois anos, mas infelizmente por motivos que foram mais fortes que a minha vontade acabei por ter que deixar as coisas em standby. No entanto, eu fui sempre cantando e fazendo os meus concertos. E o facto de não ser uma cantora de massas pode ser benéfico porque como há muita gente que não me conhece, eu continuo a ser uma novidade em muitos países, muitos palcos e até mesmo cá em Portugal. E eu fui tendo sempre uma agenda constante embora não seja uma agenda de duzentos concertos por ano. Portanto eu sinto-me bem com o percurso que tenho feito. Pago as minhas contas honestamente, faço a musica que eu gosto e isso completamente brutalmente, tenho uma equipa de músicos que é a equipa dos meus sonhos, são pessoas excelentes, músicos maravilhosos independentemente de serem ou não os melhores, porque isso para mim não existe. O que existe é química entre as pessoas e eu tenho os músicos dos meus sonhos. Sinto-me bem Rui, e sinto-me verdadeiramente preparada para gravar o disco que vou gravar porque é mesmo o que quero fazer, é verdadeiramente o que quero fazer.  

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Relativamente ao teu próximo trabalho, o que é que já podes revelar? O que é que vais e queres apresentar ao público? 

 

Eu sou uma cantora de convicções (risos), e às vezes as pessoas acham que eu sou uma cantora de intervenção, algo que eu não acho que seja, sou uma cantora interventiva, há aqui uma diferença. Independentemente de musicalmente, esteticamente, o disco ser o que eu quero fazer, em termos de mensagem que vai passar cá para fora eu quero que o disco venha escancarar as minhas convicções. Eu sou portuguesa com o maior orgulho do mundo, eu acho que nós vivemos num país extraordinário, com formas de expressão cultural variadíssimo e riquíssimo. O que eu quero é que as pessoas tenham orgulho em ser portuguesas. Quero que o meu próximo disco seja uma bandeira, que as pessoas o ouçam e sintam orgulho em ser portuguesas. É um disco em que vou mais do que nunca denunciar esta minha dualidade entre o fado e a música tradicional portuguesa, e vou mesmo eventualmente, separar um coisa da outra, mas ambas vão estar presentes, e vai ser um disco que surge na continuidade, embora já tenham terminado, as comemorações dos 800 anos da língua portuguesa. Vai surgir como consequência das experiencias que vivi ao longo de um ano, ao ser embaixadora dessas comemorações. É um disco em que eu acho que a nossa língua tem que ser celebrada, as nossas raízes têm que ser celebradas, a nossa influência no mundo lusófono tem que ser celebrada e a influência que eles exercem sobre nós também tem que ser celebrada. E é isso que te posso dizer. Aliás se quiseres também te posso dizer o nome do disco… 

 

 

Qual é? 

 

Se calhar não deveria, porque alguém vai ver e ainda copia, mas vou sair daqui e vou à SPA registar (risos)…Vai chamar-se DUAL.  

 

 

Nas comemorações dos 800 anos da língua portuguesa tiveste um espectáculo no CCB com convidados. Neste disco vais ter convidados? 

 

Sim, vai haver convidados. E só não te posso dizer por um motivo logístico, que é o facto de eu ainda estar a falar com as pessoas, não faço a menor ideia de quem vai ou não aceitar. Vai ter os convidados que eu sinto que quero ter, e não é por motivos comerciais, se é que me entendes. Não vou convidar ninguém porque me ajuda comercialmente a não sei quê…Vou convidar as pessoas que têm as mesmas convicções que eu, que acreditam nas mesmas coisas que eu, são músicos que admiro e nem sempre vão ser cantores…(risos) 

 

 

O disco será lançado em 2017? 

 

Espero que sim.  

 

 

Será uma edição de autor ou através de uma editora? 

 

Não sei ainda…Não estou preocupada sinceramente. Vou fazer o meu disco e depois logo se verá. Eu prefiro neste momento ter o meu disco na mão e chegar a uma editora e sentir que há interesse no que já está feito e ai eu já tenho uma palavra a dizer, do que estar agarrada a uma editora que depois me vai querer impor 30 por uma linha e eu não vou querer aceitar e depois ai tenho outro problema. Cada coisa a seu tempo. Uma coisa te asseguro: com editora ou sem, o disco sai. Isso seguramente. 

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Participaste no Festival Caixa Alfama, em termos de festivais em Portugal… 

 

Na primeira e segunda edição. 

 

 

Tens em mente um regresso a esse festival? Gostavas de participar noutros festivais que por cá existem? 

 

Relativamente aos Caixa, neste momento não. Eu fiz a primeira e segunda edição e na segunda não gostei da forma como fui tratada e não tenciono voltar a não ser que um dia exista uma conversa entre as pessoas envolvidas e que as pessoas aceitem que também falham e fica tudo bem. Atenção, eu nunca estou fechada à possibilidade de as pessoas conversarem, e de serem assumidos os erros de parte a parte e assim continuar com uma relação, seja pessoal ou profissional. Neste momento não estou disponível mas também não creio que eles tenham vontade de me voltar a contratar.  

 

 

Referes que os Caixas, de momento não, e é importante realçar o de momento, por que motivo? 

 

Porque na segunda edição, especialmente na segunda, eu senti-me descriminada. E sei que acabei por sair da discussão que tive com a organização com o rótulo “esta gaja pensa que é a vedeta”, e não tem nada a ver com isso. Eu vou pôr-te as coisas nestes termos: tens uma garrafa de água com 33cl e essa água tem que ter a mesma qualidade que um garrafão de cinco litros. Isto é, eu não faço questão de cantar no palco Caixa e ter um palco gigante com aquelas condições xpto, mas não posso admitir eu estar a cantar num palco em que o meu técnico de som tem que estar a segurar na master da mesa de mistura porque aquilo tinha vida própria, não posso admitir eu ter que me vestir num camarim que não existia para nós. Existiu para a Lenita Gentil porque alguém teve a amabilidade de ceder um espaço para a Lenita se vestir e na altura ela ficou super solidária comigo… Eu ter que me ir vestir a 500 metros e ter que vir suada com uns saltos do tamanho do mundo, a furar pessoas para conseguir chegar ao palco, eu não posso admitir que as condições que me dão para eu actuar seja para 200 pessoas ou para 10 mil não sejam iguais, percebes? E foi isso que aconteceu. A descriminação está ai. Eu não preciso de lagosta num palco pequeno nem se trata disso. Eu exijo um PA e material de som em condições, exijo ser tratada com respeito e não fui. E eu não posso permitir que isso aconteça. É só isso.  

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Mas não fechas de todo a porta aos Caixas? 

 

Não. Eu gostava muito de um dia ter oportunidade, que eu na altura quis e não consegui, de falar pessoalmente com as pessoas e dizer “vocês precisam de tratar os cabeças de cartaz ou pessoas que ninguém conhece e que atraem pouco publico, com a mesma dignidade”. É lógico que eu sei que não posso ser cabeça de cartaz neste momento porque não posso comparar a visibilidade que eu tenho à visibilidade de um António Zambujo, uma Ana Moura, uma Carminho, etc, ect. Mas não posso permitir estar a cantar em cima de um palco e o meu microfone estar a falhar, e o meu técnico de som não conseguir operar o som porque está a segurar a master, não posso. Isso não pode acontecer, é uma questão de respeito. E o respeito não tem a ver com a dimensão de massas ou com a tua visibilidade, tem a ver com ética profissional que todos devemos uns aos outros.  

 

 

Fizeste chegar esta mensagem a alguém? 

 

Fiz. Repara que eu estive duas horas depois do concerto acabar à espera de uma produtora sobre estas coisas todas…Estive duas horas à espera! Nós não tínhamos sequer uma cadeira para nos sentarmos. Tu sabes como funciona o Caixa Alfama e sabes que nem todos os palcos têm condições para teres um backstage como é logico, mas tem que haver uma produtora que nos dê uma garrafa de água ou uma cadeira para sentar enquanto esperamos pelo concerto, que nos diga “olha, podem subir ao palco…”, nada disso aconteceu. Eu quis falar sobre isto e ninguém quis falar comigo. Eu na altura ainda falei telefonicamente com o Zé [José Gonçalez- programador e director artístico do festival], e eu tenho muito respeito pelo Zé, e acho que ele sabe disso…Mas gostava de ter falado com alguém de competência, com quem me riscou… Eu acho que não foi o Zé que me riscou! (sorri). Porque eu acho que as pessoas têm que falar sobre as coisas. Repara o Festival Caixa Alfama na sua segunda edição era ainda pequenino, não de dimensão mas no facto de ser novo, há muita coisa que pode falhar e eu não acredito que o senhor Luis Montez tenha deliberadamente decidido que naquele palco íamos ter uma mesa de mistura estragada. Isso não existe. Eu acho que ele quer é que as coisas corram bem, mas tem que haver a humildade, a ética, o respeito, a dignidade, com um artista que está num palco pequeno igual à que existe com um artista que está num palco grande. Foi isso que eu não senti e sei que muitos outros fadistas não sentiram mas depois não têm a coragem de falar e assim não se constrói nada. 

 

 

Portanto, tu admites que tenham existido erros, mas não gostaste que não tivessem sido assumido esses erros? 

 

Sim. Exactamamente. 

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Quais os festivais em que seriam para ti um desafio? 

 

Como te disse, devido ao facto de me ver como uma cantora de cariz tradicional português, que reúne uma série de ramificações… 

 

 

O Bons Sons seria uma opção? 

 

O Bons Sons, o Festival Musicas do Mundo de Sines, o Festival MED, há uma série de festivais relacionados com a world music nos quais eu gostaria muito de actuar e acho que o meu tempo vai chegar. Não chegou ainda por muito do que já conversámos aqui. Mas acredito que o meu tempo vai chegar, e tem vindo a chegar, as pessoas já sabem o que é eu faço, sabem como faço, sabem que o meu produto é válido, eu não gosto de dizer que tem qualidade, isso fica ao critério de quem quiser criticar, mas é válido, sei que tenho qualquer coisa para dizer, sei como o quero dizer. E sei que tenho um bom produto, a meu ver.  

 

 

Quem é a Ana Laíns? 

 

Pessoalmente ou profissionalmente? 

 

 

Se o pessoal influenciar o profissional… 

 

É que eu não consigo dissociar uma da outra. Há cantoras que têm capacidade de criar personagens mas eu não tenho, Rui. Aquilo que eu sou como cantora é o barómetro de tudo o que eu sou como pessoa. Quem é a Ana Laíns? Olha é uma miúda que continua a sonhar, da mesma forma que sonhava quando tinha, 15, 16, 17, 20 anos, sou orgulhosamente portuguesa como já te disse e faço desse orgulho a minha bandeira e o meu motivo para continuar a cantar e para levar a minha música cada vez mais longe. Sou uma pessoa de convicções. Acho que qualquer pessoa que trabalhe numa área em que tem visibilidade, tem que dar exemplos, temos obrigação de dar exemplos, de nos educarmos uns aos outros, e eu gosto de pensar em mim como uma pessoa que tem responsabilidade social. Não só cultural, mas social de um modo geral. Sou muito exigente, sou honesta para o bem e para o mal, não sou a pessoa mais sóbria do mundo (risos)… 

 

 

És impulsiva? 

 

Sou muito impulsiva, muito impulsiva…Não sou uma pessoa humilde nem modesta e não fiques chocado com isto que estou a dizer. Não ser humilde não é significado de ser vaidosa, eu gosto de pensar em mim como alguém consciente, introspectiva, que se auto-analisa, que tem capacidade para reconhecer o que tem de bom e mau, o que tem de mais forte  e mais fraco. E é assim que me vejo. 

 

 

Sentes que o facto de seres impulsiva ou muito frontal nas opiniões que expressas, inclusive nas redes sociais, é benéfico ou não? O teu lado genuíno prejudica ou não o lado comercial? 

 

Prejudica.  

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Vais mudar? 

 

Não. Não. Não. Não. Nãooo. (risos) Repara numa coisa, eu não espero que as pessoas gostem todas muito de mim. De maneira nenhuma. Eu acho perfeitamente normal que tenho uma relação contigo em que possamos achar um do outro que “é um gajo porreiro, uma gaja porreira”, que este senhor aqui ao lado possa não achar o mesmo de mim, porque as relações humanas são algo químicas e são resultado daquilo que nós somos. Mais importante que isso, a comunicação e a palavra. A palavra é uma descoberta extraordinária. Eu não sei se percebes onde quero chegar…O buraco é mesmo lá no fundo, a comunicação é uma coisa extraordinária. O que é que vale eu fingir que sou uma coisa que não sou? Eu depois não vou saber viver com isso. Eu prefiro ter uma sala com 3 pessoas que sabem quem é a Ana Laíns do que ter uma sala com 3 mil pessoas que pensam que eu sou uma coisa que não sou. Não faz sentido, não quero magoar ninguém, não quero ofender alguém. Repara a minha impulsividade por norma não surge por ser mal-amada, de maneira nenhuma. O meu sangue fervilha, saio ao meu pai nestas coisas, e não digo o que penso para ofender alguém, antes pelo contrário. Eu gosto de pensar nas pessoas de forma construtiva, mesmo quando parece destrutivo. Juro que não. Não vou mudar. Não vou mudar… 

 

 

Quem é o teu porto de abrigo? 

 

O meu marido. O Paulo é o oposto de mim em muitas coisas, é a pessoa mais centrada, mais sóbria…está a faltar-me aqui uma palavra muito importante…tranquilo…que eu conheço. É coerente, sensato… Eu vivo sempre um bocadinho na dualidade. Nunca estou bem no centro, estou sempre nos extremos, e o Paulo é a pessoa que me ajuda a ir ao centro de vez em quando. É o grande amor da minha vida, depois do meu pai que já faleceu, e é o responsável pelo muito do que eu tenho de bom.  

 

 

Alguma vez pensaste em desistir da música? 

 

[Pausa] Já. Já pensei desistir da música. Não por me sentir desconfortável pelas minhas conquistas ou pelo que ainda não alcancei, mas porque para mim é humanamente complicado lidar com a tal hipocrisia.  

 

 

Chegaste a sentir que a música tinha desistido de ti? Que o mundo da música em Portugal não te reconhecia? 

 

Não. Juro-te que isso não me incomoda. Incomoda-me mais as pessoas não terem abertura para pelo menos conhecerem… Como é que eu ei de explicar isto? Sou humana. Claro que fico triste às vezes com certas coisas, mas eu compreendo. Eu tenho que ver de fora. Eu sei que sou um produto que é fruto de muitas coisas, nomeadamente o meu mau feito, mas eu vivo tranquilamente com isso, de verdade. A música não desistiu de mim e eu não desisti da musica. Já pensei em redireccionar a minha carreira, isto é, deixar de cantar e passar a actuar nos bastidores, que é uma coisa que eu gosto. Gosto de produção, gostava de um dia agarrar num artista e fazer o management desse artista e provavelmente será isso que acabarei por fazer. Não sei se vou ser cantora até aos 90 anos…não sei, não quero saber. Neste momento sinto que ainda tenho muito para dar como cantora, tenho muito para dizer. No dia em que isso deixar de acontecer, deixarei de cantar, mas tranquilamente. E às vezes as pessoas podem encarar a desistência como uma forma de fracasso, mas não. Às vezes desistir de um determinado caminho significa ter uma coragem brutal… 

 

 

E até inteligência… 

 

E até inteligência! Mas ainda não é o momento. Neste momento, se calhar até de uma forma mais consciente do que há cinco anos, eu quero dar muitas coisas e espero que as pessoas estejam disponíveis para receber o que eu tenho para dar. Se não quiserem está tudo bem na mesma. 

 

 

Se a tua vida fosse uma musica, e tem que ser portuguesa, qual seria? 

 

Amor a Portugal. Porque falta cumprir-se Portugal! 

 

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Quem são as tuas grandes referências musicais? 

 

Ui…Toda a gente vacila aqui não? A Dulce Pontes é a grande culpada de eu ser apaixonada pela minha língua e pela minha música. Eu tinha 14 anos quando vi o primeiro concerto de Dulce Pontes e fiquei abismada. Só depois disso é que eu cantei o meu primeiro fado, aos 15, e porque o conheci na voz dela. E quando o cantei as pessoas diziam, “tens que ir ouvir o original, senão vais estar a imitar”… E eu fui ouvir Amália, Fernanda Maria, mas de qualquer forma a Dulce Pontes é o Vasco da Gama da minha vida, porque foi ela que me apresentou a música portuguesa no seu todo, fado inclusive. Mas depois… como é que tu não aprendes com uma Amália? Com uma Fernanda Maria? Com uma Maria Teresa de Noronha? Com Paulo de Carvalho? Com Carlos do Carmo? Rui Veloso…Né Ladeiras que para mim tem o disco mais genial dos últimos tempos. O disco que lançou dedicado a Trás-os-Montes é um disco de viragem e é tão importante como a trilogia do Fausto, a sério, não sei se estás a perceber… E depois não só cantores portugueses… Repara, defendo Portugal acima de todas as outras coisas mas não sou tapadinha relativamente ao resto do mundo. 

 

 

Não crias fronteiras… 

Não crio fronteiras. Sou apaixonada pelo israelita Idan Raichel, tenho o sonho que um dia possa fazer qualquer coisa com ele. Lorena McKennitt que é uma cantora canadiana, ligada à musica celta, entre muitas, muitas outras pessoas…Até cantores e músicos que não são a ultima bolacha do pacote, salvo a expressão, têm sempre qualquer coisa para nos dar e para nos mostrar. Eu gosto de ouvir pessoas cantar bem e tocar bem, e nisso para mim é sempre uma referência.  

 

 

Se te fosse dada a possibilidade de fazer um dueto com alguém que ainda não tenhas tido possibilidade, quem escolherias? 

 

Peter Gabriel, o pai da World Music.  

 

 

A vida para ti é? 

 

A vida para mim é uma constante aprendizagem e um mistério delicioso para se descobrir. 

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Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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