Ana Moniz: “A nossa cultura (portuguesa) lida mal com a vergonha, procura evitá-la a todo o custo”

‘Este Livro não é para Fracos’ acaba de ser editado pela Planeta e conta com a autoria de Ana Moniz que concedeu entrevista ao Infocul para abordar um livro que chama a atenção das pessoas para como diariamente podemos ser corajosos ao invés de nos sujeitarmos ao comodismo.

 

Ana Moniz é natural de Aveiro, licenciada em Psicologia, ramo da Psicoterapia e Aconselhamento, especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental e coaching executivo. Este livro é um incentivo à coragem, e revela-nos isso mesmo numa entrevista conduzida por Rui Lavrador.

 

O que é a coragem?

Coragem é a capacidade de agir de acordo com os nossos princípios mesmo que implique algum risco. Pode ser para defender os nossos direitos ou pôr fim a uma situação de injustiça que implique outras pessoas. Não actos impulsivos e individualistas mas ter uma atitude de atenção e ajuda aos outros. A coragem de que falamos aqui tem mais a ver com palavras do que com confronto físico. É também esta perspectiva que se deve ensinar às crianças: por exemplo numa situação de bulling, ensinar a intervir mas pedindo ajuda aos adultos.

Nasce connosco ou é algo que se treina?

Sabemos que se aprende com os nossos primeiros modelos, geralmente os pais, que se pode treinar, praticar e melhorar em qualquer altura da vida. As narrativas simplistas que dividem pessoas em cobardes ou corajosas são pouco úteis. As mesmas pessoas são capazes do melhor e do pior. O contexto em que fomos educados e em que nos encontramos no presente têm um peso enorme nos nossos actos. Ter consciência disto é o primeiro passo para agir com mais coragem.

Escreve que “Coragem é desobedecer e assumir as consequências; não é um pensamento nem uma intenção”. O medo é um limitador da coragem?

O medo serve para nos manter vivos, só por isso já é um limitador a qualquer situação que nos pareça ter risco. É uma emoção fundamental, saudável, necessária mas que tem de se aprender a gerir desde cedo. Se não o fizermos não vamos conseguir atingir os objectivos que nos podem fazer sentir realizados. As pessoas geralmente dizem que para fazerem o que as assusta e limita só precisam de deixar de ter medo, ou acham que quem age com coragem não tem medo. Isto é uma ilusão. Coragem é agir, mesmo com medo.

Como se combate o comodismo e aplica-se a coragem?

É uma decisão (ou um combate) individual que depois se torna num hábito. Este livro pretende provocar algum desconforto porque todos gostamos de dizer que somos corajosos mas geralmente medimos a nossa coragem a partir das nossas intenções e não dos nossos actos. Só o hábito de chegar ao fim do dia e pensar no que fiz hoje de que me orgulho e o que fiz (ou não fiz) que teria vergonha de contar porque não coincide com os meus princípios já é uma excelente estratégia para combater o comodismo.

O que perdemos em ser envergonhados e o podemos ganhar ao aplicar a coragem?

A vergonha é também uma emoção essencial à vida em sociedade, mas se for excessivamente instigada desde a infância pode fazer-nos evitar demasiado situações em que podemos ser ridicularizados, criticados ou ser vistos a falhar. Acredito que a nossa cultura (portuguesa) lida mal com a vergonha, procura evitá-la a todo o custo, levando-nos a não arriscarmos a não ser que estejamos muito seguros do que estamos a fazer. Um exagero de perfeccionismo que traz mais perdas do que ganhos. E um respeito exagerado pela atitude cínica que tudo goza e ridiculariza, não correndo o risco de se expor a falhar.

A coragem pode provocar dor?

A vida provoca dor. Sentir, amar, construir, arriscar, tudo isto provoca dor. A coragem também pode provocar.

Como explica a ‘coragem’ de uns nas redes sociais e o inverso na vida real? É uma falsa ‘coragem’?

As pessoas tendem a olhar para si próprias de um modo benevolente. As redes sociais são só um espelho (agora transmitido em directo) de uma ideia do que gostávamos de ser. Não do que somos. O que somos são os nossos actos que o mostram.

É preciso coragem para conseguir ler este livro?

Procuro mostrar o que é agir com coragem, quais as dificuldades e barreiras e provocar algum desconforto, daquele que todos precisamos para nos decidirmos a melhorar. Sim, nesse sentido, é preciso coragem.

Quando surgiu a ideia de o escrever e qual o objectivo que a moveu?

O tema sempre me interessou, fui fazendo pontes entre a teoria e a prática e a certa altura pareceu-me que já conseguia escrever um livro que acrescentasse algo a quem o lesse. Não acredito que um livro por si só torne alguém mais corajoso. Pode sim, ajudar no primeiro passo. Que as pessoas se interessem, compreendam do que precisam e se disponham a ir procurar. Esses são os verdadeiros “livros de auto ajuda”.

Ter Conceição Lino a assinar o prefácio, o que significa para si?

Significou muito. Tenho um enorme respeito pelo trabalho de Conceição Lino e um dos objectivos do livro coincide com o tema do seu programa “E se fosse consigo”: que as pessoas passem de espectadores passivos a agentes de mudança da sociedade. Que ganhem consciência e ajam para defender os seus direitos e os das pessoas à sua volta.

Considera-se uma pessoa corajosa? Como foi o percurso aqui e quais os maiores desafios?

Sempre fui muito susceptível ao medo e à vergonha, ao longo da vida fui aprendendo (com altos e baixos) a enfrentá-los e não permitir que me bloqueassem. Conheço bem o caminho, por isso sim, considero-me corajosa.

As pessoas corajosas são mais felizes?

Não partilho a visão de que a felicidade constante é um objectivo a alcançar ou sequer alcançável. E até me parece que esta procura frenética pela felicidade tende a resultar numa menor satisfação com a vida. Valorizo o bem estar e satisfação por viver uma vida com significado, de acordo com os nossos princípios. As pessoas que agem com coragem, tenderão a sentir-se mais realizadas, sim.

Num contexto de trabalho, ser corajoso pode fazer com que estejamos pouco tempo num determinado local ou empresa?

As pessoas mais corajosas fazem mais escolhas e numa situação de desconforto ou frustração, tenderão a procurar mudar a situação, começando por avaliar o que está ao seu alcance fazer para melhorar e só depois de tentarem, então sim, sair também poderá ser uma hipótese. Mas sobretudo, enquanto e onde estão, encaram como uma escolha sua e não se queixam tanto nem adoptam uma posição constante de vítima.

Qual a mensagem que deixa a quem não é corajoso?

Que são as nossas acções que contam. Por isso todos podemos “ser” corajosos.

É especialista em psicoterapia. Este tipo de acompanhamento é caro ou qualquer pessoa o pode ter?

Ser caro ou não depende com o que compara. É um investimento com um excelente retorno e, se for visto como prioridade, é acessível a grande parte da classe média. Para não falar da rede pública que apesar de ter uma oferta bastante aquém do que seria necessário, dá alguma resposta a quem não pode pagar no privado.

E o coaching? É acessível a todos? Quanto pode custar?

O coaching executivo é geralmente praticado em empresas e organizações e são estas que o proporcionam aos seus colaboradores. Há vários psicólogos especialistas também em coaching que oferecem este serviço em consultório privado com valores muito próximos da psicoterapia.

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Que agir com coragem está mesmo ao alcance de todos.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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