Ana Sofia Varela deu, em palco, vida a um ditado popular que alega que os ‘gatos têm sete vidas’. O espectáculo realizado este sábado, 19 de Janeiro, no Centro Cultural de Belém relembrou (quem acompanha o seu percurso) e deu a conhecer (os novos curiosos do fado) que Ana Sofia Varela é das fadistas com mais fado das que, por ora, dão vida (algumas…) à canção nacional.

O primeiro espectáculo de fado no CCB, em 2019, deixa um bom augúrio para este ano que acaba de chegar. Ana Sofia Varela, em tempos nome maior do fado, qual fénix ressuscitou das cinzas e provou que pode, sabe e (ainda) quer transformar melodias e palavras em arte, através do seu canto. Dona de um apreciável aparelho vocal, apresentou uma dicção de grande qualidade, respeitando tempos e respiração e aproveitando o conforto proporcionado pelos seus músicos.

À capella, como se numa casa de fado estivesse. Foi assim que deu inicio a um espectáculo, especial, pois como bem recordou já há muito tempo que não pisava um palco com a importância de um Centro Cultural de Belém. As culpas? Não morrem solteiras mas também não adianta analisá-las, agora. Será importante que este espectáculo seja aproveitado como alavanca para um (novo) recomeço, que Varela merece e todos os amantes de fado também!

Nem sempre a melomania deve seguir o caminho da descoberta do futuro. Por vezes, inicialmente é sempre por aí, devemos estudar e perceber um pouco do passado. E o passado mais recente do Fado tem em Ana Sofia Varela uma das suas mais belas intérpretes. No Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, deslumbrou e apresentou um espectáculo memorável, de diferentes sonoridades e densidades emocionais.

E foi recordando nomes como Amália Rodrigues, Maria da Fé e com a voz, e ao ritmo do Fado Bailado e Corrido que nos fez mergulhar em águas fadistas numa purga perante qualquer maleita que afectasse a alma. Foi bálsamo vital, sol radioso em dia escuro e chuvoso. As cadeiras foram locais nos quais o corpo pousou enquanto as almas viajavam guiadas por uma voz que demonstrou ter uma vida que provoca e almeja a eternidade. Mesmo que, por vezes, a realidade nem sempre o demonstre.

E nesta espécie de sonho acordado foi chamando ao palco convidados surpresa como Gaspar Varela (bisneto de Celeste Rodrigues, na guitarra portuguesa) e ainda a filha Carolina Varela Ribeiro. Dois jovens que demonstraram que o futuro lhes pertence se não se perderem no presente.

Recordou o projecto SAL, que integrou em 2006/2007 ao lado de Vicky Marques, Fernando Júdice e José Peixoto, chamando-os ao palco e partilhando alguns temas com eles. Os temas para este projecto contaram com letras de Tiago Torres da Silva, sendo as músicas de Fernando Júdice e José Peixoto. Ana Sofia Varela recordou que apenas um tema tinha assinatura, na letra, de João Monge.

Num momento de intensidade e beleza, junto de João Filipe (na viola de fado) cantou ‘Na Rua dos Meus Ciúmes’, para logo de seguida brindar o público com uma passagem pelo disco ‘Fados de Amor e Pecado’, em que os temas contam com assinatura de João Gil e João Monge, na música e letra.

Ana Sofia Varela foi coerente na qualidade apresentada e soube, com naturalidade, conquistar o público com a sua voz. Na verdade com a sua vida, que por sua vez é Fado. ‘Porque voltas de que lei’, com letra de Amália Rodrigues e música de Mário Pacheco, é um momento que extravasa qualquer palavra que possa ser escrita porque nem sempre se adjectiva o pulsar de um coração, mesmo que seja através da arte do canto.

Antecedeu o encore com o Fado Varela, ‘Aqui’, com letra de Mário Rainho e que foi celebrizado por Fernando Maurício, regressando a palco para fechar em beleza com ‘A janela do meu peito’, ‘Marcha da Mouraria’, e encerrando o espectáculo cantando a Lisboa.

Em palco esteve acompanhada por José Manuel Neto na guitarra portuguesa, João Filipe na viola de Fado e Daniel Pinto no baixo. Como convidados contou com Gaspar Varela, Carolina Varela Ribeiro e o projecto SAL.

Destaque, ainda, para a qualidade do som e o desenho de luz, a cargo de Becas do Carmo e Aldeia da Luz, respectivamente.

 

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rodolfo Contreras

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6219 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.