André Carvalho lança novo disco: “Um dos desafios foi ter um bom balanço entre a música composta vs improvisação”

 

 

 

“The Garden of Earthly Delights” é o terceiro álbum do contrabaixista e compositor André Carvalho, natural de Lisboa, actualmente a residir em Nova Iorque. O músico concedeu entrevista ao Infocul para falar sobre este disco, com edição a 17 de Maio.

Neste disco conta com a participação de importantes músicos da cena internacional como Jeremy Powell, Eitan Gofman, Oskar Stenmark ou Rodrigo Recabarren.

André Carvalho venceu o prémio “Carlos Paredes” em 2012, ou ainda o prémio de “Melhor Grupo” no Bucharest International Jazz Competition, na sua carreira.

Este disco tem inspiração na obra de Hieronymus Bosch, tendo André escrito uma suite musical em vários andamentos. “The Garden of Earthly Delights” foi gravado em Abril de 2018 no The Bunker Studio em Brooklyn, Nova Iorque e foi misturado pelo pianista, engenheiro e produtor Pete Rende, e masterizado pelo multi-instrumentista Nate Wood.

 

 

Qual a importância da obra de Hieronymus Bosch para si e de que modo influenciou este disco?

A obra de Hieronymus Bosch foi determinante neste disco. Este pintor sempre foi um dos meus preferidos por ser tão misterioso, usando imenso simbolismo em cada detalhe e por ter uma imaginação tão fértil. Muitos dos seus quadros são intrigantes, deixando-nos boquiabertos com os universos que cria. Como é que é possível um pintor que viveu há 500 anos atrás criar tantas personagens fantásticas, cenários inimagináveis e cenas tão interessantes. Inspirado num dos seus mais famosos quadros – “The Garden of Earthly Delights” – escrevi uma suite com vários movimentos. Tive de fazer uma selecção de momentos do quadro, para os quais escrevi um movimento. Por isso, o início do processo de escrita foi muito visual, partindo da imagem e recria-la com a minha linguagem musical.

 

Dizermos que este disco é de música erudita é correcto?

Acho que antes de tudo, este novo disco é um disco de música original em que a influência mais forte é o Jazz. A improvisação é essencial nesta música e os músicos que a tocam provêm desse idioma. Obviamente que há muitas outras influências como a música contemporânea e o rock.

Como é que o André o define?

Defino como um disco bastante diferente dos meus discos anteriores. Talvez por isso estive alguns anos sem gravar música minha. Sinto que passei por várias fases chegando a esta fase actual, também ela, espero eu, transitória. Já vivia em Nova Iorque quando este disco foi idealizado e sinto que há muita influência do meio musical desta cidade, o que julgo normal. Espero que o 4º disco seja diferente deste!

Contudo acaba por ter ‘pinceladas’ de vários géneros musicais neste disco. Quais foram os maiores desafios?

Sim, oiço muitos tipos de música diferentes. Acho que isso depois acaba por transparecer no resultado final. Um dos desafios foi ter um bom balanço entre a música composta vs improvisação, dando espaço suficiente aos músicos para improvisarem e criarem no momento. Há movimentos com bastante música escrita, outros em que há muito pouca coisa escrita e outros um misto. Gosto de procurar esse equilíbrio. Muitas vezes gosto de pensar em mim enquanto compositor como uma espécie de cenógrafo em que “desenho” um cenário mas não quero dar todos os detalhes aos actores para que estes criem a sua própria história.

Quais os músicos que o acompanharam neste disco?

Começando pelos sopros: Jeremy Powell (saxofone soprano e tenor e flauta), Eitan Gofman (saxofone tenor, clarinete baixo e flauta) e o Oskar Stenmark (trompete e fluegelhorn). Depois temos o André Matos (guitarra), o Rodrigo Recabarren (bateria) e eu (contrabaixo). Ao longo do disco, a instrumentação vai variando, assim como quem toca em determinado movimento. Por isso, há um pouco de tudo, trio, quarteto, etc.

 

Uma edição de autor é uma aposta arriscada ou um grito de liberdade?

Sempre editei através de editora, por isso não tenho experiência suficiente para responder. Contudo, é uma opção a ter em conta e tem os seus prós e contras. Estou bastante satisfeito por o novo disco sair pela editora americana Outside in Music, não só porque o catálogo tem vários músicos que gosto de ouvir, como também é gerida por um músico – Nick Finzer – que é um verdadeiro entrepreneur.

Este disco poderá ser melhor entendido por melómanos ou pensa que qualquer pessoa o entenderá?

Mais do que ser entendido, espero que a música desperte curiosidade no ouvinte, assim como o quadro gera controvérsia e interesse a quem o observada. O quadro poderá ser visto em 2 segundos, como passarmos horas a observá-lo e estarmos sempre a descobrir detalhes. Gostava que a música tivesse esse poder.

Qual a principal mensagem que tenta transmitir?

Primeiro, simplesmente a minha versão musical do quadro de Hieronymus Bosch, dos vários cenários, paisagens e ambientes, a intriga, o mistério e o bizarro que pintou. A um nível mais profundo, sinto que o quadro tenta transmitir a mensagem de que os Homens são responsáveis pelos seus actos e que o que fizerem agora terá consequências no futuro. Gostaria que, de alguma forma, a minha música tivesse esta componente mas não de um ponto de vista moralista, mas sim de responsabilidade e com a esperança que, no nosso mais profundo Ser, somos conscientes do meio que nos rodeia e dos outros e que nem que seja no último momento faremos a coisa certa.

 

Em termos de espectáculos onde o poderemos ver?

Assim que o álbum sair (dia 17 de Maio pela editora Outside in Music), teremos uma série de concertos pelos Estados Unidos. Entre estes, destacaria o concerto no Blue Note em Nova Iorque e Bop Stop em Cleveland. Depois, estarei em Portugal e Espanha: Hot Clube de Portugal (Lisboa; 1, 2 e 3 de Agosto), OutJazz (Lisboa; 4 de Agosto), ASEJAZZ (Sevilha, 6 de Agosto), Clarence Jazz Club (Málaga; 9 de Agosto), Festival de Jazz de Moaña (Vigo; 13 de Agosto), Quebra-Jazz 2019 (Coimbra; 23 e 24 de Agosto), Reitoria da Universidade do Minho (Braga; 5 de Setembro) e Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa; 6 de Setembro). Depois disto regressarei aos Estados Unidos, onde estou a planear alguns concertos em Nova Iorque, na costa oeste e possivelmente no Chile e Argentina. Ainda há algumas coisas por confirmar, especialmente durante o Verão, por isso sugiro seguirem as minhas redes sociais e a minha newsletter para estarem a par das últimas novidades. Alguns destes concertos terão alguns apoios de consulados locais e Antena2.

Dedica muito tempo às redes sociais? Onde pode o público interagir consigo?

Ultimamente, tento estar mais presente nas redes sociais de forma a partilhar as últimas novidades, coisas interessantes sobre o disco, etc. Estou no Facebook, Instagram e Twitter, obviamente o meu site pessoal e tento escrever uma newsletter regularmente para quem a subscrever através do meu site.

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Se puderem, oiçam o novo disco quando sair. O primeiro single – “Evil Parade” – já saiu e está disponível nas várias plataformas. Venham aos concertos que teremos em Portugal e venham dizer olá a seguir!

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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