Annia: “o medo é o maior destruidor de sonhos que conheço”

 

 

 

“Chuva” é primeiro single de Annia e o tema com o qual a cantora se dá a conhecer ao público. O R&B é a ‘sua onda’ e a sua voz promete conquistar os amantes de boa música, mesmo que este género musica não tinha um grande historial no nosso país.

 

 

Em entrevista ao Infocul, Annia fala do seu percurso, da sua versatilidade artística, dos seus gostos e dos seus objectivos.

 

Quando é que surgiu o gosto pela música e pelo R&B em particular?

Acredito que o gosto pela música tenha muito que ver com ser filha de um músico. Aos 3 anos subi a palco pela primeira vez.  Desde então fui desenvolvendo uma série de aptidões e conhecimentos que me trouxeram até aqui.  Aos oito anos concorri a um concurso local da Câmara de Almada de  poesia infantil e ganhei o terceiro lugar com um poema sobre o mar que chegou a ser editado em livro juntamente com os dos outros meninos. Aos 10/11 anos com a ajuda do meu tio, também músico, guitarrista, fiz o meu primeiro “Ep” que ofereci no Natal a toda a família. Aos 13 anos comecei a brincar com programas de produção. O que me trouxe alguns conhecimentos básicos que me ajudam até hoje.  Acredito que graças a isto, se torna mais fácil co-produzir os meus temas com os maravilhosos produtores que me aturam.  Estudei música, piano, canto e acabei por estudar também teatro musical. Essencialmente por necessidade, também, comecei a fazer misturas básicas. Péssimas numa primeira fase! Mas que hoje considero aceitáveis para pré-mistura. Mesmo na base da necessidade neste último caso. Venho muito da escola do hip Hop onde tens de te virar sozinha e fazer música mesmo quando não há dinheiro. Por este motivo, aprendi a fazer de tudo um pouco. O RnB surge algures no início da minha adolescência e foi um amor que preservo até hoje.

 

 

Sendo o R&B ainda um género musical com pouca expressão em Portugal, quais os seus objectivos?

O RnB em Portugal infelizmente não teve grande expressão, tivemos o maravilhoso Gutto como percursor “oficial” e “assumido” e mais alguns nomes incríveis como  Tó Cruz, podemos encontrar alguns grupos que tem alguns temas rnb como Expensive Soul, HMB, mas infelizmente, mulheres são apenas gotas num oceano, mas recordo-me perfeitamente da Diana Lucas e da Lady V, que colaborou com o TT, também artista rnb. Mas há imenso espaço no mercado e a altura é propícia ao desenvolvimento do género, dado o crescimento de urban music e a popularização de géneros como o hip hop. O meu objectivo será sempre fazer a música que amo, escrever sempre com mensagem, manter-me fiel ao que acredito e poder fazer juz aos géneros que mais gosto. Apesar de R&B ser o meu género de eleição, posso rever-me em alguns géneros vizinhos como o soul, o funk, o pop e o hip hop.

 

 

É preferível manter a sua identidade do que apostar num género musical que pudesse ser de consumo mais imediato?

Sem dúvida é essencial sermos fiéis a nós mesmos. Mas não me considero purista e não tenho qualquer tipo de aversão a outros géneros mais comerciais. Há espaço para todos e é da diversidade que surgem as mais incríveis fusões. O rnb ele próprio é um género de fusão entre soul, pop, hiphop, funk e dance music. Nos primórdios, o rnb nem sequer se referia a um género em si, mas sim a uma corrente de géneros musicais, cujas características eram uma batida mais marcada e serem de origem afro-americana. Neste leque de géneros, rotulados pelas labels, como rythm and blues, podias encontrar desde blues, jazz até ao rock. No entanto, entendo que será mais fácil furar com outros géneros, mas acredito que devagar se vai longe e essencialmente com verdade, para já, estou sem pressa.

 

 

Cantora, letrista, compositora e produtora musical. Qual a função ou arte que mais desafios lhe coloca?

Bom, o que mais amo fazer é criar. Compor e principalmente escrever são a minha terapia. É assim que exorcizo todos os meus males e que celebro todas as minhas alegrias. Por este motivo talvez seja a parte mais fácil do processo. Todo o trabalho de estúdio desde a produção à mistura, para mim é sempre o mais frustrante. Desde miudinha que faço as minhas cenas e estes foram skills que eu tive de desenvolver por necessidade e não por amor genuíno. Produzir e mixar são processos lentos que requerem imensa paciência e consequentemente um amor que eu não nutro por eles. Esquivo-me sempre a este trabalho, e ou passo a pasta ou faço-o em conjunto. Cantar foi algo que apesar de ter procurado desenvolver e ter estudado música, me é natural. Eu acho que na sua maioria, os cantores já nascem cantores.

 

 

Sente-se melhor a cantar as suas letras? Ou prefere escrever pra outros e que outros escrevam para si?

Cantar as minhas letras, por dois motivos. Primeiro porque tenho dificuldade de expressar alguns sentimentos e pensamentos na minha vida e a minha música diz tudo o que o meu orgulho, ou alguma timidez não me permitem dizer. Vou usar novamente a palavra “terapia”. E segundo porque como as letras são minhas reflectem sempre fielmente a minha posição, pensamento ou sentimento relativamente a cada tema especifico. Costumo escrever para outros artistas e adoro fazê-lo porque permite-me sair um pouco de mim e encontrar personagens que não eu. Um pouco à semelhança dos heterónimos do Pessoa que no final das contas eram nada mais que reflexos exagerados dele mesmo, ou partes dele.  No entanto, se a canção for bem escrita e tiver imenso a ver comigo, eu terei todo o gosto em cantar um tema de outra pessoa.

 

 

 “Chuva” é o single com que se dá a conhecer ao público. Qual a mensagem que pretende transmitir e qual a história por detrás deste tema?

Eu estava a viver sozinha no Brasil na altura que escrevi o chuva. Namorava à distância porque ele estava cá. Então a história de juntar dinheiro para nos podermos ver e o sufoco de querer estar junto e não poder, aconteceu mesmo, tal como no vídeo. Lá existem as chuvas quentes e num desses dias em que a chuva estava a bater na minha janela estávamos a falar e sem querer eu soltei essa frase que abre o meu tema. Quando dei por mim a ideia foi ganhando forma na minha cabeça e acabei por ficar a noite inteira a trabalhar naquilo e no dia seguinte estava a enviar-lhe a primeira demo da musica por WhatsApp.  O chuva é essencialmente sobre amor, na sua mais pura forma, assim, “papo recto”, sem dançar. Acho imperativo que se fale abertamente de amor, sem tabus, nem preconceitos. E sou super lucky por nascer numa geração em que apesar de ser mulher posso exprimir livremente os meus pensamentos e sentimentos sem ser censurada por isso. A liberdade sexual feminina ainda é um pouco assombrada por uma nuvem de desconforto quase que socialmente imposto por um conservadorismo resultante de gerações e gerações de um papel social atribuído e exigido da mulher, que temos vindo a ampliar lentamente. O objectivo do chuva também é um pouco despir essa capa e ser real, nós pensamos e sentimos estas coisas. A ideia purista e púdica da mulher socialmente é uma máscara. It’s Ok! Acho que é suposto podermos expressar-nos, “já passou”! Porque para mim música, é cultura. E músicos são formadores de opinião. A cultura tem o poder e o dever de educar a sociedade. E acho importante fazermos música consciente que passe mensagens valiosas que signifiquem sempre uma transformação positiva. Seja a abordagem delas Dolorosa ou não. E este foi o motivo pelo qual eu escolhi também, um desfecho menos feliz para o meu videoclip, que retrata ali uma situação de “catfish”.

 

 

Em termos de redes sociais onde pode o público interagir consigo?

 

Podem ir a www.facebook.com/anniaoficial e a www.instagram.com/anniaoficial também. Venham sem medos, que eu respondo sempre a toda a gente. Ah é claro, o meu canal VEVO no YouTube  www.youtube.com/anniaVEVO

 

 

Quais são os seus objectivos na música?

Gosto de pensar faseado, para já, lançar o meu álbum é o meu maior objectivo.

 

 

Como analisa o mercado musical em Portugal?

Um pouco viciado. Acredito que podemos muito mais, temos muito mais e espero que sejamos muito mais.

 

 

 

 

Quem é Annia fora da música e o que gosta de fazer?

É difícil esta. Porque não sei se existe Annia fora da música. Provavelmente a Annia é filha e é amiga, mas o tempo para ser outra coisa que não um músico é reduzido ou quase inexistente. Desde miúda trocava as festas por noites a escrever e a compor, sempre estudei em paralelo com a minha musica e acredito que está sempre presente. Hobby, trabalho, lazer e amor são musica. Musica, sempre!

 

 

Como foi o seu percurso até aqui e o que pretende dar a conhecer de si ao público?

O percurso foi longo, com pedras no caminho, desilusões, trabalho árduo, sacrifícios, mas também cheio de amor. “Quem corre por gosto não cansa” não é? Acredito que todas as profissões sejam difíceis, considero-me sortuda, pois desde a adolescência que a música tem sido patroa e amante. Infelizmente vi muita gente talentosa desistir pelo longo e árduo caminho e considero-me abençoada por conseguir subsistir até hoje fazendo aquilo que mais amo. Ao meu público prometo dar tudo de mim, afinal a minha música expressa sempre o mais profundo dos meus sentimentos.

 

Qual a mensagem que pretende deixar aos leitores do Infocul?

Que não tenham medo, porque o medo é o maior destruidor de sonhos que conheço. Que tudo tem um tempo para acontecer. E quando definimos objectivos e nos mantemos fieis a eles e a nós mesmos, eventualmente acabamos por atingi-los. O “Rocky Balboa” tem uma linha que diz que “não se pode vencer uma pessoa que nunca desiste”. Por isso não desistam dos vossos sonhos e objectivos seja qual for a vossa luta. O importante não é ir rápido, mas ir longe. Godbless Yall e mantenham-se firmes nas vossas caminhadas. Obrigada ao Infocul por esta entrevista. Estou muito feliz por falar convosco.

 

 

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Notícia publicada a 11/06/2018


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