Antonio Caixeiro

 

 

 

 

António Caixeiro conta com 26 anos, é natural de Cuba do Alentejo, e toda a sua vida esteve sempre ligada e/ou rodeada de Cante Alentejano. Actualmente integra vários projectos ligados a este Património Imaterial da Humanidade. O Infocul entrevistou-o, em Lisboa, para saber um pouco mais sobre a ligação ao cante e também para desvendar alguns dos gostos de uma das melhores vozes, da nova geração, do Cante Alentejano.

 

 

 

António tem um gémeo, o Luís, e sempre viveram rodeados do Cante. Mas o contacto mais directo aconteceu aos 13 anos quando foi convidado a ir a um ensaio dos Ceifeiros de Cuba, um grupo coral alentejano. Antes disso já tinha ligação à musica pois integrava, juntamente com o irmão, a Banda da Sociedade Filarmónica local. Mas foi aos 13 anos que começou a ligação, cada vez mais intensa, que tem com o cante.

 

 

 

Acho que a responsabilidade deve ser sempre encarada e sempre tendo em conta o respeito que temos pelos outros cantadores. Eu agradeço esse teu elogio mas quando nós somos reconhecidos por aquilo que fazemos é sempre muito bom mas também temos que ter cuidado e particularmente neste cante alentejano onde nós somos uma mais-valia enquanto grupos de cantadores. É claro que dentro da estrutura do canto alentejano há sempre o alto ou o ponto que se destaca porque faz parte que assim seja mas gosto de saber que as pessoas reconhecem esse trabalho mas não faço disso bandeira porque acho que os alentejanos não são assim” diz-me quando o confrontei com a minha opinião acerca da sua voz e ser dos melhores desta nova geração.

 

 

 

Podem ser muito bons naquilo que fazem mas não são vaidosos em demasia. É claro que toda a gente tem que ter um bocadinho de vaidade naquilo que faz, é claro que toda a gente tem que ter um bocadinho, como hei de dizer…de tentar superação pessoal acima de tudo, querer ser sempre melhor que o alto. Acho que o cante alentejano só consegue sobreviver se conseguirmos ser todos unidos. O cante alentejano é um canto colectivo e não um canto individual onde uma ou duas pessoas possam ser consideradas umas das maiores referências porque grandes referências já morreram e eu tive pena de não os conhecer. Conheço-os em cassetes e discos editados lá de Cuba. Falo de Cuba porque essa é a realidade que conheço e esses sim eram grandes referências que levavam o canto alentejano a troco de nada e era mesmo nada naquela altura em que o trabalho era duro no campo e eles ainda tinham vontade em ir cantar mesmo sem comer na mesa e isso ai eram referências, isso ai é que a gente pode dizer ‘aquela malta fica perpetuada de certeza a absoluta porque vivia-se outra realidade que não se vive agora’. Hoje nós temos acesso a tudo e conseguimos ter influências deste ou daquele porque gostamos e naquela altura eles não saíam dali. Quer dizer, ir a Lisboa era quase como uma viagem ao mundo e então vivia-se num ambiente muito mais limitado. Esses eram realmente as grandes referências do cante alentejano e que eu tenho muitas e é nesses que eu me inspiro todos os dias” completa sobre a importância das gerações mais antigas do Cante Alentejano.

 

 

 

Como qualquer criança com 13 anos… Qual é a criança que não gosta de cantar e estar com os amigos?! Mas desde cedo eu senti que era aquilo porque aquilo só existe ali. O cante alentejano é do mundo mas só existe ali no Alentejo e agora aqui em Lisboa com os alentejanos que foram obrigados a virem viver para aqui para a diáspora mas os alentejanos têm esta cultura tão rica que fazia sentido… Como disse inicialmente antes disso não me imaginava a fazer aquilo e então a partir desse momento eu senti essa responsabilidade que podia ser um seguidor daqueles mestres que me estavam a ensinar na altura. O património trouxe muito mais respeito daquelas pessoas que o ouvem da parte de fora mas acho que internamente o cante alentejano continua igual” começa por nos falar sobre a importância da elevação a Património Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

 

 

 

Acrescenta ainda que “antes de ser património do mundo já era património do nosso mundo. É para nós uma riqueza extrema enquanto falamos de poetas populares que no anonimato escreviam coisas lindíssimas e que hoje se cantam e ninguém sabe a sua autoria. Algumas conhecem-se mas o cante alentejano vai muito para além da musica que é cantada pelos 20 ou 30 velhotes juntos mas voltando um bocadinho atrás…estavas a perguntar-me que o cante alentejano era visto por velhos…E era. Ainda há muita malta a pensar que assim o é. Não podemos estar aqui a tirar, a dizer o que não é mas o cante alentejano não é só dos velhos, costumo dizer isso. Às vezes a palavra “velhos” a malta não gosta muito mas o cante não é só dos velhos e a prova disso sou eu, por exemplo, que com 13 anos quisemo-nos afirmar neste cante e dizer aos outros que a gente não esta aqui em concorrência com os mais velhos. A gente quer é tê-los por perto para poder aprender e conseguir sermos nós a divulgar como eles fizeram connosco. Agora o problema que aqui está é que os jovens também têm um papel preponderante neste cante porque o cante alentejano tem que passar desta geração para a próxima geração. Esse é o grande objectivo porque se não… este património do mundo vai se acabar”.

 

 

 

A juventude está agora mais disponível para aderir e valorizar o cante mas isto é também uma consequência do avanço da mentalidade das gerações mais antigas, como explica António Caixeiro: “É mais fácil do que quando eu entrei até porque os velhotes também estão mais predispostos para que isso aconteça. Quando eu entrei no grupo coral com 13 anos não havia jovens na formação do grupo e foi complicado à entrada lá porque nós fomos convidados, já sabíamos cantar alguma coisa, já sabíamos algumas noções musicais adquiridas na sociedade filarmónica e quando nós começamos a cantar e a querer fazer o ponto, a querer ser o solista, a querer ser o alto para eles foi um choque. Porquê? … Imagina, havia um homenzinho que cantava há 50 anos e chega ali um puto de 13 anos e vai-lhe tirar o lugar. Vai tirar aquela parte que lhe competia a ele fazer. Essa mudança não foi fácil até porque a mentalidade dos mais velhos em relação à nossa chocava logo porque a minha abordagem aquele cante era totalmente diferente daquela que uma pessoa de 50 anos já levava de uma vida inteira a cantar. Foi difícil essa entrada no meio do grupo. Agora é claro que é muito mais fácil”.

 

 

 

Eu nunca pensei em desistir porque tinha muita gente que me apoiava. As namoradas da altura é que não…a sério! Vai de encontro à nossa conversa. Os jovens não se identificavam. Os jovens não se identificavam com o cante alentejano. Na altura tinha 13 anos, namorava uma rapariguinha ali de Beja e ela ‘agora vais para ali. Deixas-me aqui e vais para ao pé de 20 velhos’ e o que era certo era que nós temos tanta coisa a fazer durante o nosso dia, durante a nossa vida, e eu costumo dizer que há sempre tempo para tudo, basta nós querermos dispensar algum do nosso tempo para que os nossos sonhos e os nossos objectivos aconteçam e os jovens começaram a perceber que o cante alentejano também podia ser cantado com eles” diz-nos sobre como foi feita esta inserção no cante.

 

 

 

Quando estes jovens que entraram no cante antes desta história toda da candidatura… Os jovens…viram nestes jovens, que éramos nós, que também era possível serem cantados por eles e haver um movimento jovem em torno do cante alentejano… A partir daí ate vir o primeiro falatório da candidatura se calhar passou-se 5 ou 6 anos, não passou muitos mais, e foi relativamente pouco tempo mas a malta a partir do momento que ouve que o cante alentejano pode ser património da humanidade e que estes jovens já o cantavam há muito tempo, eles disseram assim ‘Eh pá! O que ele faz não é afinal uma coisa assim tão foleira’ e então levou outro e outro levou outro e começou a haver uma maior afluência dos grupos de jovens. Lembro-me que a primeira grande manifestação jovem no cante alentejano foi criado em Beja com um Grupo Coral que eram os “Bubedanas”, que entretanto já acabaram, onde juntaram 12 rapazes. Também sem querer havia na altura um movimento de apoio a uma colega que tinha um problema de saúde grave e eles para angariarem dinheiro juntaram-se, vestiram umas camisas brancas e umas calças e uma boina e foram concorrer a um concurso qualquer que havia na Escola D. Manuel I, em Beja, e a partir dai foi o mote para eles continuarem. Foi o primeiro grupo integralmente criado por jovens, autónomos de qualquer outra pessoa mais velha a cantarem por todo o país. “Os Bebedanas” correram tudo e foi a partir daí que o resto do pessoal mais novo” começou a querer ir atrás do reconhecimento que este grupo teve naquela altura, participando inclusive em vários programas televisivos. Foi o rastilho para uma maior adesão dos jovens ao cante.

 

 

 

Estou envolvido em vários projectos, todos eles de cante alentejano. O que me ocupa mais tempo, eu não gosto de dizer mais tempo, todos ocupam um tempo importante na minha vida porque todos eles se complementam uns aos outros mas aquele que requere mais tempo disponível ao longo das semanas e dos dias é um projecto que estamos a desenvolver nas escolas de Beja” que se chama “Cante nas Escolas” e que é liderado por Pedro Mestre.

 

 

 

Esse projecto é liderado pelo Pedro Mestre  e em que chegamos às escolas e vamos sensibilizar quase 300 crianças no Agrupamento de Escolas n1 de Beja. E então é magnifico conseguires ter ali…eu dou aulas a 80 crianças todos os dias. Crianças a cantar. Estamos a falar de meninos da pré-escolar ao quarto ano do ensino básico. É importante ser nestas alturas porque é de pequenino que se torce o pepino e é agora que é importante conseguir trazer a eles esta riqueza porque vivemos num tempo em que tudo é muito rápido e para eles não se agarrarem a um tablet e só ouvirem músicas do outro lado do mundo e é importante estes projectos acontecerem, estes projectos continuarem a acontecer para que esta tradição não se perca e somos nós os responsáveis para que ela continue” diz-nos não escondendo o brilho nos olhos, tal a dedicação e amor que tem ao cante.

 

 

 

Depois, tenho também outros projectos musicais que desenvolvo, nomeadamente onde sou o responsável por um grupo de malta de Cuba que se chama “Grupo Coral Bafos de Baco”, que tem cerca de 25 jovens até aos 25 anos, que eu sou um dos mais velhos. Há um com 28 um outro com 30 mas a média de idades anda por volta dos 15/16 anos e a rapaziada agarrou isso tendo sempre como exemplo o que se passou antes” relembrando novamente a importância dos Bubedanas para os mais jovens.

 

 

 

Não queremos aqui imitar ninguém, não queremos aqui ser iguais a alguém mas queremos mostrar que também podemos cantar esta tradição que temos tão rica e tão bonita e depois também tenho outro projecto em torno do cante alentejano que é os “D’ Empreitada” onde conseguimos, sempre em modas alentejanas, incluir outros instrumentos. Ou seja, imagina, influências de outros mundos, de outros países que são ali inseridas em contexto de cante alentejano. Convido-te a ouvires porque, eu sou suspeito disso, acho que vais gostar e é sempre em torno do cante” acrescenta sobre a sua outro dos projectos que integra.

 

 

 

Mas António Caixeiro revela também que “faço algumas participações em vários projectos de amigos que me convidam para ir cantar, nomeadamente com o Pedro Mestre, que me dá muito gozo porque ele é um dos grandes embaixadores também deste cante alentejano”.

 

 

Recentemente levou, juntamente com Buba Espinho, o cante alentejano a Timor, uma experiência que “correu muito bem. Sabes que naquele país nunca tinha havido qualquer programa só relacionado com cante alentejano ou de cante alentejano. Nunca tinha acontecido e então havia uma expectativa alta e ainda por cima um pezinho atrás porque eles perguntavam-se antes do nosso concerto, tivemos acesso a esses anseios pelo pessoal da organização, ‘Ok. Vêem aqui dois rapazes cantar alentejano mas o cante alentejano não são 20 velhos a cantar?’. Se nós aqui o consideramos assim, no outro lado do mundo não é diferente” começa por nos revelar.

 

 

 

Eu e o Buba Espinho… o Buba Espinho começou a cantar nos “Bubedanas”, é um miúdo que tem uma vida longa no canto por causa do pai, dos “Adiafa” e tudo mais, e eu a um certo ponto convido-o para a Moda Mãe e desde ai a ligação no cante alentejano tem sido continua e então quase não é preciso grandes coisas para nos juntarmos, pegar numa guitarra e cantar à alentejana como fazemos nas tardes em que temos disponibilidade e sentamo-nos numa mesa com amigos e cantamos à alentejana. Foi o que nós transportámos para esse espectáculo. Foi um espectáculo mais intimista onde não levamos 20 homens a cantar mas fomos divulgar acima de tudo este cante, ainda por cima dois rapazes novos, ao outro lado do mundo, Ao início havia esse receio que não estavam ali 20 homens a cantar, estavam só dois rapazes e no fim a reacção do público foi muito boa porque foi realmente para eles outra realidade que começaram a ter e o cante alentejano começou a mudar em termos de visão para quem está de fora. Dizer também que já estão outros concertos marcados. As conversas são todas iguais, o que custa é sempre o primeiro passo porque a partir dai consegues ter sempre retorno daquilo que fazes se for bem feito, com certeza que ai ainda terás mais retorno”.

 

 

 

Embora o Cante actualmente pise grandes palcos nacionais e internacionais, onde se sente a pureza do cante é nas tabernas alentejanas e pensar assim “Não é um erro. Não é um erro de todo. Até é uma grande verdade. O cante alentejano espontâneo tem o seu expoente máximo nas tabernas alentejanas e isso é inevitável. Convido-te a ires a Cuba e tu vês isso com os teus próprios olhos que isto é verdade” acrescentando que “não é errado dizeres que o cante alentejano vive-se verdadeiramente nas tabernas mas é necessário apresentar às pessoas este cante e não pode ser nas tabernas porque as pessoas não se vão deslocar às tabernas e não é um sítio tão apelativo a fazeres espectáculos, até porque não dá”.

 

 

 

Contudo, “tenta-se sim, cada vez mais, retratar aquilo que que passa na taberna ou seja, o cante espontâneo onde se juntam, onde eu vou sozinho e peço um copinho de vinho, chega outro e junta-se a mim e a seguir vem mais dois ou três e estamos ali sete ou oito e já se consegue cantar à alentejana. Esse é o espirito do cante alentejano e as tabernas no Alentejo não é só um espaço onde tu vais beber vinho com 4 ou 5 velhotes que estão ali só para se embebedar. Não. As tabernas no Alentejo são quase como uma casa de cultura. Lá, para além de claro irem beber o copo de vinho, para além de se cantar à alentejana contactas com muitas vivências e vive-se muitas experiências nesta vida porque há velhotes a falar que quando tinham a minha idade faziam isto ou aquilo… Estamos ali a trocar umas histórias de vida de cada um e a receber conselhos deles que são mais velhos e isso ai é com certeza o grande folgo e o grande sitio onde nós podemos ir recuperar energias dos espectáculos em palco e é ali com certeza que aquilo faz todo o sentido e quando ouço falar que cada vez mais há menos tabernas, que cada vez há mais restrições para que essas tabernas possam estar abertas… Se as tabernas um dia fecharem vai ser muito mau para o cante alentejano. Não digo que acaba mas vai ser muito mau porque aquilo que se vive numa taberna é muito mais do que ir beber um copo de vinho” diz-nos como quem sente o que faz.

 

 

Mas desengane-se quem acha que o cante é apenas para homens. “O cante tanto é cantado por homens como por mulheres. O cante alentejano foi criado, pudemos dizer assim, no campo onde homens e mulheres trabalhavam de solo a solo para poderem sustentar a sua vida e então quem trabalhava no campo eram homens e mulheres e eram esses homens e essas mulheres que o cantavam. Se agora há gostos, se eu gosto de ouvir mais os homens ou de ouvir mais as mulheres, ai é compreensível, mas o cante não é só dos homens. O cante é de um povo que quer mostrar a todo o mundo que esta cultura desta região é muito mais do que uma simples letra e uma musica de qualquer alentejano. O povo quer mostrar bem alto esta bandeira, que o cante alentejano é de todos e acho que essa energia que eles nos passam através das expressões enquanto cantam, através da alma enquanto cantam é muito importante e isso de haver homens e mulheres a cantar é muito importante porque o cante alentejano não deve ser rotulado, não deve ser só deste ou só daquele. O cante alentejano é de todos. Se todos quiserem cantar melhor”, completa.

 

 

 

Mas se António Caixeiro é cada vez mais reconhecido pela sua arte, não deixa de ser um jovem de 25 anos, muito embora nos diga que “podem pensar que é mentira mas eu vivo para o cante e vivo do cante porque bem dita a hora em que entrei naquele grupo e comecei a lidar com pessoas em torno deste cante alentejano. Ainda falta muita coisa a aprender, ainda falta muita coisa a pesquisar, ainda falta muita coisa a ter noção, ainda falta recolher muito mais. Quero-te dizer que o que vivemos no Alentejo todos os dias não chega para nós termos a noção da imensidão que é este cante. Nós somos uma expressão da música da maior região de Portugal e imaginas que existem várias maneiras de cantar. Ou seja, nós em Cuba temos uma maneira de cantar muito particular, em Serpa canta-se de uma outra maneira, do lado de lá do Guadiana… Quer dizer, existem muitas coisas a aprender e é por isso que eu vivo exclusivamente para o cante alentejano e o que é que eu sou fora do palco?!… Continuo a ser a mesma pessoa. Em cima do palco consigo transmitir às pessoas aquilo que aprendo todos os dias” antes de acrescentar que “tenho também outros gostos. Gosto de assistir a concertos, gosto de viajar dentro do nosso país, gosto de descobrir surpresas que existem dentro de terras alentejanas e também em outras terras portuguesas, gosto de ver o Benfica, campeão se possível, gosto de música, fui muitos anos músico na banda da sociedade Filarmónica de Cuba. Gosto de ver, não compreendia quando passava, quando ia tocando o meu bombardino, quando passava às ruas e as pessoas choravam ao ouvir a banda da sociedade e eu hoje já consigo chorar porque tenho pena de não ter tempo para lá estar. Nós temos que ter objectivos e quando os temos alguns têm que ficar para trás, algumas das coisas que fazíamos, e hoje quando ouço a banda comovo-me porque eu também fiz parte daquela história. Gosto de namorar, gosto de estar com amigos, gosto de estar, e tu que não és alentejano, no Alentejo numa mesa sem horas. Não quer dizer que estejas a beber. Gosto de estar sentado a conversar com amigos sem ter horas para fazer nada. Gosto de muita coisa. Gosto de estar lá no Alentejo”.

 

 

 

Revela-nos também que “não gosto quando as pessoas interpretam mal aquilo que nós fazemos. Não gosto quando as pessoas desrespeitam aquilo que nós fazemos. Lá porque sou cantador alentejano, e isto ainda não é profissionalizado, não é por eu saber cantar bem que as pessoas podem aproveitar-se disso. Também dizer-lhes que eu sou músico, cantador alentejano, e que vivo disto. Se eu quiser dar alguma coisa a alguém eu dou porque não sou egoísta mas fazer lembrar as pessoas que se elas têm que sobreviver com o dinheiro que ganham do ordenado ao fim do mês, eu também tenho que sobreviver disso. Mostrar às pessoas que este cante mudou um bocadinho e que há pessoas que trabalham nisto todos os dias e que precisam disto, para além de ficar confortado emocionalmente, precisamos disto para sobreviver durante o nosso dia-a-dia”.

 

 

Daqui a 50 anos gostava de ser recordado “da melhor maneira, mas não te posso dizer como gostaria de ser recordado até porque não sei o que vai acontecer até daqui a 50 anos. Acho que as pessoas devem ser vividas e não devem ser recordadas porque quando nós recordamos é porque alguma coisa já passou”, acrescentando que prefere que as pessoas “me vivam e que eu as faça viver através das modas que canto”.

 

 

 

Além do cante revela que gosta de música com influência árabe, de Fado, sendo que aqui revela a curiosidade de “o fado ser a canção de Portugal e cada vez há mais alentejanos a cantar fado, o que não é mau de todo. Mas queria também dizer que eu e o Buba conseguimos outra coisa. Conseguimos todas as primeiras quintas-feiras do mês estar em Lisboa a cantar, o que era impensável se calhar há 10 anos atrás, cante Alentejano numa Casa de Fado, a Bela Vinhos e Petiscos”, sendo isto a “prova de que o cante está a mudar todos os dias e ai pudemos ser recordados: Olha, naquele ano existiu cante alentejano numa casa de fado” diz-nos visivelmente satisfeito.

 

 

 

António Caixeiro revela ainda as diferenças entre uma taberna e um casa de fados: “Na taberna eu posso gritar quando eu quiser, na casa de fados não. É claro que nos na nossa casa, e falando na Taberna, na minha casa, e na Casa de fados, a casa dos outros, é claro que na nossa casa estamos sempre mais à vontade. É um espaço que é nosso e quando vamos à casa de fados é um espaço onde temos que nos preocupar também com outro tipo de público. A casa de fados tem pessoas que vão de propósito para assistir a este nosso cante e na taberna nós temos os cantadores connosco, portanto, numa taberna a maior parte são cantadores e aqueles que não são tentam ser porque com um copo de vinho ou outro já toda a gente quer cantar. Mas é interessante e fazes-me lembrar que há uma lacuna muito grande no Alentejo que é precisamente não existir casas de cante. É uma temática muito controversa até porque as tabernas o são mas tentar fazer como uma casa de fados, fazer una casa de cante não era de todo uma ideia de outro mundo nem uma ideia de se jogar fora mas era importante existir um espaço onde as pessoas… pudessem ter acesso ao cante, como acontece com o fado

 

 

 

Muito embora tenha apenas 26 anos, António Caixeiro tem já muito para contar, muito para ensinar (e para aprender), mas descreve todo este percurso realizado como “aventureiro”. Que possamos continuar a assistir de perto às suas aventuras.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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