António João Ferreira: “Tenho expectativas muito positivas para o meu regresso. É uma corrida atractiva”

O regresso de um toureiro, após uma grave lesão é dos momentos mais difíceis, se não o mais difícil, da carreira que quem desde muito jovem dedicou a sua vida ao “mundo dos touros”.

A profissão de matador de touros em Portugal tem muitas restrições, quanto à sua plenitude, o que faz com que, desde muito cedo, os jovens que desejam seguir esta profissão, tenham de mudar de pais, ou estar por longas temporadas, fora de Portugal.

António João Ferreira é um destes jovens, que desde cedo dedicou toda a sua vida, a uma profissão dura e só quem é emocionalmente muito forte consegue chegar atá à alternativa. “Doutoramento” o qual, tem de ser realizado, nos restantes países taurinos, já que em Portugal a morte do touro está proibida desde 1840.

Este matador, com 12 anos de alternativa (prova de alternativa tirada em Mont-de-Marsan, França a 22 de Julho de 2008), conta no seu percurso com todos os momentos altos e baixos que esta profissão pressupõe. Toureou em todos os países taurinos, brindou brilhantes faenas aos aficionados de vários pontos do mundo, foi e é professor nas mais importantes escolas de toureio em Portugal, mas também já provou o sabor dos momentos amargos, duros e exigentes da profissão.

A 23 de Agosto do ano passado, na Praça de Touros do Campo Pequeno, aconteceu um destes amargos momentos, o matador, sofreu um dos momentos mais difíceis da sua carreira, uma grave lesão (fratura tripla na cintura pélvica) que o deixou durante um mês imobilizado numa cama de hospital, seguindo-se de muitos meses de reabilitação física e superação a si mesmo. Levou tudo isto com uma força mental e uma entrega, digna de quem compreende e é efectivamente toureiro em todos os sentidos e prismas desta profissão.

Para ser toureiro há que nascer toureiro e fazer-se toureiro, pelas qualidades psicológicas e físicas que esta profissão exige, por estes motivos, muitos ficam pelo caminho e a seleção vai sendo naturalmente feita.

A poucos dias do seu regresso, à mesma praça onde toureou pela última vez, António João Ferreira regressa moralizado, com vontade e principalmente preparado.

O ano que passou possibilitou ao matador, realizar todo o processo de reabilitação física e inclusive mental, para sarar as feridas que normalmente não se veem e são mais graves que as visíveis. Voltou a tourear a ganadaria que o lesionou e com isso, considerou desde esse momento, estar preparado para voltar a tourear.

Tenho mantido a mesma preparação para a corrida do Campo Pequeno, já fiz várias tentas e inclusive já toureei na ganadaria que me lesionou (Ganadaria Calejo Pires), estou totalmente preparado para o meu regresso. O tempo de espera para voltar foi longo, mas foi devido a esta temporada atípica… Contudo fico feliz, pela corrida do meu retorno ser no Campo Pequeno porque é a praça mais importante do país”.

Sobre os aspectos emocionais, António João Ferreira, convicto, explica-nos: “Não sinto o peso emocional de voltar a tourear na praça onde me lesionei, porque não sou muito supersticioso, mas não vou voltar a usar o mesmo traje de tourear…até pensei em voltar a vesti-lo para essa corrida, mas não o vou fazer. Jamais voltarei a vestir esse traje de tourear branco bordado a prata com remates a negro. Irei com um traje igualmente branco mas para o meu regresso, o traje será branco bordado a ouro

António João Ferreira é um matador que vê esta profissão, fora dos estereótipos da modernidade…levando pela sua muleta a verdade, dentro e fora da arena. Inclui-se dentro de uma linha de toureio pura, buscando a verdade e o risco, pois só assim se sente completo. Mais que uma profissão, ser matador de touros, para António João Ferreira “é uma forma de estar na vida”.

Pessoa de poucas palavras e que poucas entrevistas concede, para não se perder o misticismo de uma profissão que não considera uma profissão mas sim a essência do seu Ser, transmitiu-nos que aquilo que o fez superar esta lesão e sentir-se preparado para regressar aos ruedos foi o “Querer voltar a tourear”.

Sobre a corrida de quinta-feira o matador argumenta: “Tenho expectativas muito positivas para o meu regresso. É uma corrida atractiva, porque tem um cartel com força e categoria, onde actuarão os cavaleiros António Ribeiro Telles e Francisco Palha. Estes dois cavaleiros têm muita importância no meio taurino português, cada um com o seu género de toureio. Outro aspeto importante é o facto da ganadaria Vinhas celebrar 70 anos de existência. Esta é uma ganadaria com um dos meus encastes preferidos, o encaste Santa Coloma…agora espero ter sorte com o lote e que este, permita-me fazer o que mais gosto…tourear com pureza, entrega e emoção.

Sobre o aspeto de ser o único matador desse cartel, o matador considera que cada vez que toureia tenta superar-se a si mesmo, por isso o facto de ser o único espada não o acomoda e defende, a “corrida mista como um género de corrida que defende o toureio apeado em Portugal, porque tanto o modelo mista ou apeada, ambas defendem o toureio a pé em Portugal”.

Tendo em conta a situação de saúde pública que estamos a viver, o matador considera que esta situação não veio fragilizar ainda mais o toureio apeado português, porque isto fragilizou toda a temporada, todos os artistas e globalmente o mundo inteiro. “Cabe agora, como antes, aos empresários apostar nas corridas mistas, de forma a apoiar o toureio apeado português, tal como antes, agora e no futuro”.

Entrevista e Texto: Sónia Batista
Edição: Rui Lavrador
Fotografia: João de Sousa

Sónia Batista

Sónia Batista iniciou a sua formação na escrita taurina na revista luso-espanhola Ruedo Ibérico em 2004 e desde aí procurou formação na área, em Portugal e Espanha. Ao longo dos anos colaborou com quase toda a imprensa taurina nacional e tem-se especializado na imprensa taurina internacional. Iniciou o seu percurso internacional no burladero.com em 2010, passando por vários órgãos de imprensa espanhóis até chegar em 2013 à prestigiada revista 6TOROS6, a qual considera a maior escola da escrita taurina.

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