António Manuel Ribeiro: “A música, e a Cultura em geral, desprotegida, sabe reinventar-se”

Foto: Arlindo Homem (Concerto na Aula Magna, 2018)

Os UHF marcam o ano de 2020 com o lançamento do disco ao vivo na Aula Magna, concerto realizado em 2018, e ainda com a celebração dos 40 anos do tema ‘Cavalos de Corrida’.

16 de outubro de 1980! O dia em saiu o single ‘Cavalos de Corrida dos UHF’

Nas palavras de António Manuel Ribeiro “na altura só pensei que a canção tinha pedalada e as palavras tinham a força da realidade. Ponto final.” Mas, ainda antes de ser editada em single, Cavalos de Corrida era a música que os UHF tocavam mais ao vivo “começou a ser um caso sério, antes mesmo do disco ser editado. Tínhamos que a tocar 2/3/4 vezes – a malta nova queria abanar o capacete, literalmente. E nós também. Tornou-se a música que mexe com várias gerações. Algo terá no seu âmago.”

Para AMR, o tema continua “actualíssimo. É uma música urbana que fala da vida nas grandes cidades, onde somos impulsionados pelos horários e tolhidos pelo trânsito.

A letra é de António Manuel Ribeiro e a música de Renato Gomes.

Já o CD duplo “Aula Magna – 40 Anos Numa Noite” foi gravado em dezembro de 2018.

São 20 canções neste disco duplo, algumas com a participação dos convidados Frankie Chavez, João Pedro Pais, Paulo Furtado e Renato Gomes.

Deixamos de seguida a entrevista a António Manuel Ribeiro:

António, novo disco dos UHF ’40 anos numa noite’. O espectáculo na Aula Magna foi colossal (estivemos lá). Ao ouvir o disco sente que o mesmo faz jus ao espectáculo?

Pessoalmente, gostaria de ter o som do público mais alto, aquele vulcão que ali se viveu durante duas horas e meia. Mas o meu ímpeto foi refreado pela subtileza técnica do João Martins, o técnico que fez a gravação e a mistura. É um excelente documento da energia que um concerto pode proporcionar.

Já com o devido distanciamento, como analisa aquele espectáculo?

A somar à intervenção do público, que rumou de todo o país e da Europa, junta-se as características dos 4 convidados – foi um momento único e assim permanece para mim. Os UHF foram muito profissionais.

E estes 40 anos, passaram rápido, lentamente ou no compasso certo?

Por vezes é estranho, tenho uma boa memória do trajecto, de muitos pormenores que vivi ou presenciei, e depois olhos para trás e constato que já passaram 40 anos. Parafraseando Pablo Neruda, acrescento: confesso que vivi.

Acredito que cada disco possa ser como um filho. Mas há algum disco que sinta ser o melhor dos UHF?

É assim que os vejo e sinto, algo que sai de mim e que vai fica para os outros. É difícil escolher um disco como ‘the one I love’, mas a ópera-rock “La Pop End Rock” é um momento alto da minha vida como autor, compositor e arranjador.

Este ano marca também o 40º aniversário do single ‘Cavalos de Corrida’. Sentiu sempre que este tema seria emblemático e ia perdurar por várias gerações?

Não, nunca, veio por aí. Penso que reúne as qualidades que determinam as obras para lá do seu tempo de nascimento, hoje posso dizer que é intemporal. É um tema não datado, logo actual, e abriu a porta para muita produção musical. Mudou a forma como os jovens eram vistos enquanto músicos.

Este tema já era tocado antes de ser gravado e actualmente continua a fazer todo o sentido. Quando se escreve uma canção destas, sente-se que será intemporal?

Isso é muito difícil de classificar. O que nós demos à canção “Cavalos de Corrida” foi o melhor que sabíamos naquele tempo. E essa entrega, essa garra, superou inclusive o desempenho técnico dos músicos. Talvez seja um exemplo daquela máxima quando se diz que “vai de alma até Almeida”.

As transformações que os UHF foram sofrendo alteraram de algum modo o ADN da banda?

O ADN não me parece, porque desde muito cedo me revelei como autor e compositor. Mas houve músicos com quem trabalhei que acrescentaram novidade ao som de cada época.

O que é que o António de hoje diria ao ouvir os UHF no início?

 Atrevidos, curiosos e muito, muito teimosos. Queríamos ir, mesmo sem saber para onde iríamos. E fomos sempre. É isto um desígnio? Talvez.

O repertório para este concerto, que dá origem ao disco, foi pensado durante quanto tempo? Houve alterações de última hora?

Foi um trabalho de selecção que a sala de ensaios naturalmente determinou. Pedimos aos convidados que escolhessem as canções em que queriam participar.

Foi difícil segurar a emoção perante uma Aula Magna em perfeita e plena comunhão com a banda e os convidados naquela noite?

Em certos momentos, para mim foi. A emoção embargava-me a voz, são momentos únicos. E depois as lágrimas de felicidade, saber que valeu a pena tudo o que passei/passámos. E manter com esta diatribe de emoções o canto e a presença.

Durante a pandemia, que ainda atravessamos, tivemos oportunidade de ter uma conversa sem regras, online. Nesta altura como está a agenda dos UHF em termos de espectáculos?

Muito curta. Ainda mantemos em agenda o dia 26/12 na Casa da Música do Porto, mas acho que também vai passar para 2021, como o resto da digressão passou.

Tem sido difícil manter a estrutura, tendo em conta a falta de espectáculos?

Não, os UHF são um grupo estabilizado, estruturado como uma empresa. Apesar da empresa não ter recebido até agora qualquer apoio.

O António tem escrito vários textos durante a pandemia. Sente que a sua escrita tem servido de motivação e paz a quem o lê?

É o que leio nos comentários, tenho o cuidado de procurar matérias que esclareçam e ajudem as pessoas que estão isoladas e até baralhadas com esta estranheza. Pediram-me que compilasse os textos em livro – vai sair com um CD que gravámos do MMC (Momento Musical Caseiro) de 26/09, quando um estúdio móvel esteve na minha casa. Vai sair antes do Natal.

O que haverá de novidades, pelo menos pensadas, dos UHF para 2021?

O disco novo e estrada, a frescura da estrada mesmo no calor mais seco.

Actualmente falamos muito da cultura e da fragilidade do sector em Portugal. Para o António, o que é que devemos definir como Cultura?

Cultura é o conhecimento de cada momento que deve ser preservado. Quando aprendemos e vamos pela curiosidade, quando estamos atentos e tomamos posição – uma canção pode ser mais importante do que se pensa como radiografia de um tempo – evitamos no futuro repetir os erros do passado. A cultura é o estado evolucionário do conhecimento de uma nação, da Humanidade.

Há algum tema dos UHF que tenha escrito e pensado: ‘Isto vai ser um estrondo’ e depois não tenha pegado de estaca?

Uma ou outra vez aconteceu. Mas também houve alturas em que o tempo me deu razão, o tempo e os fãs.

O futuro é sombrio ou um mar de oportunidades?

Sempre um mar de oportunidades. A música, e a Cultura em geral, desprotegida, sabe reinventar-se. Sabe, a Cultura subsidiada tem sempre um problema: não pode desagradar à bolsa financiadora. Quando a cultura – a canção – é inquietação.

Um verdadeiro fã dos UHF que características deve ter, segundo o líder da banda?

Não faço ideia, mas estar atento às palavras dá jeito.

Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?

De momento, sigam as regras, evitem contagiar terceiros, mas vivam sem medo. Portugal precisa de nós.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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