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“Silêncio” é o segundo disco de António Vasco Moraes. O fadista que habitualmente canta no Restaurante “Guarda-Mor” concedeu uma entrevista ao Infocul em que além deste segundo disco revela um pouco do seu processo de construção artístico e onde duas características saltam à vista: timidez e perfeccionismo.

 

 

Alguns dos temas deste disco foram apresentados no espectáculo que concedeu no CCB, em Abril, no ciclo Há Fado no Cais. Um disco que prima pela elegância e simplicidade do seu canto, pelo magnetismo dos poemas e pelas composições que nos fazem viajar pela vida, pelo Fado. Do México traz-nos um bolero, “La Barca” de Roberto Cantoral.

 

 

Neste trabalho discográfico conta com dois convidados especiais: Maria Ana Bobone que toca ao piano em “Ai Esta pena de mim” e Silvestre Fonseca em “La Barca” com a sua guitarra clássica.

 

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Um disco de Fado:

 

O que eu quero é cantar Fado, quanto mais Fado melhor, o que não impede que faça outras coisas com graça ou que eu ache que tenham a ver com Fado, mas que não são Fado. Sempre com a ressalva de dizer que não é Fado. No meu primeiro disco gravei o “Porto Sentido” do Rui Veloso ou o choro de Marisa Monte [De mais ninguém] e neste tenho o bolero. Mas não são Fados. Se em 16 temas há cerca de 10, 11 ou 12 temas que são Fados tradicionais, é um trabalho de Fado.

 

 

Carreira iniciada na década de 90 e apenas dois discos editados:

 

Não há esse prazo mas está sempre na retaguarda do pensamento, existe sempre essa preocupação, embora essa preocupação não se sobreponha à realidade. E a realidade é que se calhar preferia ter feito estes discos mais cedo ou talvez já gostasse de estar a ir para o terceiro disco mas depois há os factores condicionantes, um deles é que estive fora de Portugal quatro anos, deixei o fado um pouco para trás, e todo esse processo atrasa pois eu já cantava em casas de fado, e deixamos de contar porque as pessoas dizem ‘este já não está cá’, mas depois quando regressamos, as pessoas também demoram a assimilar que já voltámos e que já estamos outra vez operacionais. A outra é que sou super perfeccionista pois é uma agustia lançar um disco., pois nunca nenhum está perfeito, até este podia estar melhor.  Depois existem condicionantes objectivas e mundanas, de financiamento, de originais, da selecção de temas, por exemplo eu tenho cinco letras minhas (três no disco anterior e duas neste) mas se calhar, para ter coragem de as mostrar (a estas 5 letras), escrevi uns 80 poemas ou mais.  Portanto tudo isto são condicionantes tal como o tempo, a dedicação, pois tinha outra profissão e dividia-me entre as duas e não conseguia colocar todo o empenho e dedicação que são precisos para efectuar um disco. Mas as coisas acontecem quando têm que acontecer. Podiam ter acontecido antes sim, mas eu acho que as coisas têm uma razão de ser.

 

 

Timidez e Perfeccionismo na vida profissional:

 

É uma boa pergunta. Eu socialmente não sou tímido. Eu socialmente conto muitas anedotas e piadas e gosto de rir. As pessoas chegam a fazer fados humorísticos e eu não consigo. Eu no Fado não brinco. Há aquela ideia de o meu amigo canta então vamos para a praia e fazemos uma fogueira, com uma viola e ele canta um fadinho. Eu não consigo. Nunca alinho nessas coisas. Tem a ver com a seriedade no Fado.  Por um lado eu sou divertido e tenho sentido de humor, por outro as pessoas não me reconhecem no Fado. Talvez eu não seja a melhor pessoa, mas por causa desse perfeccionismo e tudo ter que sair bem eu esteja um pouco nervoso.  Talvez o nervosismo se junte a essa timidez, porque eu quero ser perfeito na quantidade de palavras que digo, as pessoas não estão ali para nos ouvir falar mas para ouvir cantar, não quero ter piada de mais, não quero falar de mais nem de menos. Não sou antipático nem sóbrio demais. É muito complicado o ponto de equilíbrio. Eu não sou a melhor pessoa para ser o centro das atenções, por isso o Fado é a melhor canção para mim pois cantamos de mãos nos bolsos e de olhos fechados. Eu não sou a melhor pessoa para dar show público Em privado tudo bem.

 

 

Recriar em palco o ambiente da Casa de Fados:

 

Sim eu gosto muito disso. Eu gosto muito do ambiente de casa de fado. O que eu gosto mesmo é de sentir as pessoas a respirarem perto de mim, pontualmente olho, embora eu me sinta incomodado com os olhares. Mas é desta proximidade que eu gosto. Nunca me senti muito em casa nos auditórios grandes e acho que grandes auditórios não têm muito a ver com o Fado. Eu acho que Fado não é um espectáculo, é uma partilha de um sentimento e fazer Fado em palcos e salas grandes é complicado. É um contra censo.

 

 

Público da casa de fados vs Público em sala de espectáculo:

 

Talvez seja mais genuíno. Porque as pessoas não pagam para nos ir ouvir cantar. Estão a jantar e ouvem-nos e num espectáculo pagam propositadamente para nos ir ouvir cantar. A casa de fados é onde estreamos algumas coisas e onde muitas vezes cantamos para os colegas e amigos. Onde estamos mais despidos, onde o Fado é mais cru. Não há encenação. Não há ensaios. Se sair mal saiu. No espectáculo há uma preocupação maior, há um ensaio, uma encenação. Todos nos empenhamos um pouco mais porque é uma vez na vida, vai acontecer e já está. Na casa de fados não. Se hoje me enganei na letra não faz mal, amanhã há mais.

 

 

Escolha de repertório para “Silêncio”

 

É sempre difícil. Eu penso muito nas coisas apesar de gostar de simplificar no fim e de sintetizar. Eu vou pensando nas coisas mas descomplicando porque como tenho tempo, como não tenho nenhum compromisso, não tenho a tal pressão dos dois anos para um novo disco ou seja lá o que for. Este é o segundo disco e eu já estou a pensar no quarto sendo que o terceiro não está acabado. Eu estou sempre a pensar em coisas mas intuitivamente e não por obrigação, é quando for. Mas eu começo sempre com uma lista enorme e vou cortando aquilo que não faz sentido ou considerando vários factores. Eu quero ter sempre originais e quero ter sempre fados tradicionais, quero ter fado canção com refrão e fado tradicional só com estrofes. Tenho sempre a preocupação de ter quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos, septa sílabos, são coisas que podem parecer indiferentes mas vou sempre tentando compor o repertorio assim, o que não quer dizer que consiga sempre. Vou tentando ter sempre um bónus para os ouvintes. Há sempre uma preocupação de equilíbrio. O equilíbrio é sempre uma constante na minha vida em todas as áreas. Tento sempre não maçar as pessoas, tento sempre não ter fados muito longos, tento sempre manter um ritmo, tenho também um fado declamado, que era uma coisa que existia, tento sempre ter músicos fora do fado, tento sempre ter instrumentos fora do fado ou que foram e já não são, a temática tem sempre que me dizer qualquer coisa por exemplo se eu não gostasse de Lisboa (que adoro) não cantaria Lisboa, se não gostasse de touradas (não me identifico) não canto fados de touros como é o caso. Portanto é sempre uma angustia, mas é uma angustia boa, é um processo longo.

 

 

Cantar o Fado é cantar a vida?

 

É. Obviamente cantar o fado é cantar a vida. Mas eu acho que o próprio Fado é a própria Vida. Eu considero fadista uma pessoa que o canta e que o sente, mas que pode ser a pessoa mais desafinada do mundo e que pode nem conseguir cantar uma quadra como a pessoa que o canta de uma forma mais afinada mas mais adaptada a outro género musical. O Fado é uma maneira de estar na vida, há muita gente que vive o fado, vive na boémia, que está sempre nas casas de fado, que escreve, ouve, consome, que gosta, sofre, chora…mas que nunca cantou. Mais que uma canção, o Fado é a vida.

 

 

Como surge um bolero neste disco?

 

Então, eu tenho vários projectos e sonhos na vida. Alguns são mais concretos na minha cabeça que pode ser um disco ou um espectáculo daqui a cinco ou dez anos, quem sabe, que podem vir a conhecer a luz do dia ou não. Um deles, eu gosto muito da cultura espanhola, vivi em Espanha, gosto muito de falar espanhol e tenho muitos amigos espanhóis, adoro musica espanhola e latino-americana, gosto de tango, bolero, flamenco. Havia várias possibilidades, eu ouço vários tipos de musica, vou sempre cantarolando e há uns que fazem sentido colocar num disco de fado e outros que não. Se fosse um jazz ou um blues eu acharia que não. Tratando-se de um bolero e dos mais antigos e conhecidos , dos anos 50 acho, e que eu sei a letra e a melodia melhor do que muitos fados que eu gostaria de cantar. É um tema que me diz muito, chama-se “La Barca”, fala de paixão, de amor, de viagens e deslocações e eu gosto de tudo isso. Uma das coisas que eu gosto muito junto com o fado é viagens. “La Barca” e outros fazem parte de mim.

 

 

Este disco é uma viagem pelos sentimentos através do Fado?

 

Eu gosto quando as pessoas me dizem isso. Que ao ouviram o meu fado, começaram a divagar o pensamento, a viajar. Gosto dessa ideia de a pessoa viajar no espaço fisicamente mas também no tempo através do pensamento. Quer dizer que está exclusivamente dedicada aquilo que está a ser cantado e muitos dos fados têm poesias muito boas, com nível poético elevado e que nos transportam no tempo ou para uma cidade ou para um cheiro. Gosto da ideia de uma pessoa viajar sentada, estando sozinha, quieta, no seu sofá, no escritório ou no computador. Acho que pode ser isso, é uma boa imagem!

 

 

Neste disco conta com dois convidados: Maria Ana Bobone e Silvestre Fonseca. Quando pensou neles para a temática deste disco?

 

As coisas vão acontecendo um bocadinho naturalmente ou seja a pessoa começa por ter uma ideia específica de uma coisa e acaba por acontecer outra coisa. No caso da Maria Ana não. Eu já a conheço há muito tempo e sou amigo dela, acho-a uma excelente musica, toca muitíssimo bem piano, acho que é uma pessoa que tem um excelente equilíbrio entre esta dicotomia do pensar e do fazer, do perfeccionismo e daquilo que tem que ser feito. É uma pessoa intelectualmente honesta e por quem tenho muito respeito tanto pessoal como profissionalmente. Já trabalhei com ela no Clube de Fado, conheço há muitos anos, temos um percurso até um bocado parecido, ela cantou em coros de igreja e eu também, e eu acho que ela se encontrou muito naquele disco “Fado & Piano” e eu disse-lhe isso. Encontrou o território dela, onde ela é perfeita pois está a cantar e a tocar, onde compôs, e portanto é um disco muito dela. Nós cantamos bem em harmonia se calhar por causa dos coros de igreja, eventualmente. Isto não é uma coisa original, é fruto de um trabalho que eu fiz do Ricardo Paes na Lisboa Capital da Cultura em 1994, nesse espectáculo existiu este momento em que a actriz Maria Amelia Mata, que é uma actriz do Teatro Nacional D. Maria II, dessa altura, declamava este poema com o Manuel Faria ao piano e portanto eu acho que declamar poemas tem a ver com fado e já Alfredo Marceneiro fazia isso, havia tertúlias de fado onde se declamavam poemas e o fado tocado por trás é o “Recado a Lisboa” que a Maria Ana toca muitíssimo bem e que eu já cantava há imenso tempo, enquanto eu declamo um poema da Amália que é o “Ai esta pena de mim”. Eu fui falando com varias pessoas e tinha outras ideias de parcerias especiais e que acabaram por não acontecer por motivos vários.  O Silvestre Fonseca surge de maneira diferente, conheço-o há menos tempo e como toda a gente saberá ele é um exímio tocador de guitarra clássica, mas eu conheci-o no fado, ele é um apaixonado pelo fado e veio várias vezes aos fados, amigo de uma amiga minha que nos apresentou, a Margarida Soeiro, e ele acabou por aparecer muitas vezes e fez-me criticas, não levianas, criticas objectivas, simpáticas todas elas, poderiam não ser, mas felizmente foram. Por exemplo ele falou da estética da voz, o timbre da voz, que era bonito, e eu obviamente agradeci mas disse-lhe que ai eu não tinha mérito porque cada pessoa tem a sua voz e é o que tem, ao que ele me disse “isso é um engano, não é uma coisa subjectiva a pessoa gostar de um timbre de voz, a estética é uma coisa objectiva”. E tivemos conversas muito giras, ele é conhecedor, tem também muitos temas gravados, é um solista, e eu achei que ele seria a pessoa ideal, tinha que ser um tocador exímio para tocar um bolero, fiz-lhe o convite e ele acedeu e fiquei muito contente porque foi a primeira pessoa a quem eu pedi.

 

 

Este disco será apresentado ao público no próximo dia 13 de Outubro pelas 19:00 no Auditório do Museu do Fado.

 

Texto Actualizado às 10:19 de 10.10.2016

 

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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