Armando Carvalheda fala em “aventura” no Viva a Musica e diz que ainda lhe “falta fazer tudo” na rádio

O Viva a Música, programa de música ao vivo da Antena 1 comemora em 2016 um percurso de 20 anos, tempo em que Armando Carvalheda e Ana Sofia Carvalheda promoveram o que de melhor (e é muito) se faz na musica nacional.

Após conversarmos com Ana Sofia Carvalheda, apresentamos agora a conversa com Armando Carvalheda, ele que é um dos nomes maiores da rádio nacional. Para muitos é um exemplo a seguir, contudo para Armando Carvalheda “ainda me falta fazer tudo”, deixando no ar a possibilidade e o desejo de mais “20 anos do Viva a Musica”.

 

 

Dizes bem, é uma aventura. Uma aventura que começou com algum cepticismo, desde logo da equipa. Não tínhamos a certeza de conseguir, nomeadamente a equipa. Em convencer os músicos que era bom para todos. Para a rádio e para eles. Para virem actuar na rádio ao vivo e em directo. Era uma experiência que não havia e a nossa grande dúvida residia ai, se aceitariam ou não o convite. Lentamente, com mais ou menos relutância, lá fomos conseguindo e quando chegámos ao final da primeira temporada dissemos um para o outro que isto “para já” tinha pernas para andar” começa por nos revelar sobre o inicio desta aventura, acrescentando “não tínhamos ideia que íamos andar tanto e tem sido feito com alguns sobressaltos, às vezes, pois nem tudo é linear. As canções entram numa hora e parece tudo fácil mas nem sempre é assim. É muito complicado. Há um capital único que se ganha. A confiança dos músicos pois ao fim de pouco tempo perceberam que a rádio tinha capacidade e competência para fazer o som à medida do que era o desejo deles e do público que vem sempre acorrendo aos eventos que nós fazemos e depois porque devolvemos a toda a rádio o prazer de transmitir música ao vivo. Tem sido uma aventura”.

 

 

Vão chegando propostas como deves imaginar. Por outro lado, há uma pesquisa permanente da parte da Ana Sofia. Anda muito pela net a perceber as novidades. A elaboração assume um pouco da fusão destas três vertentes. Não é fácil. Para este mês que fecha a vigésima temporada tínhamos em cima da mesa dezenas de propostas. Tivemos que fazer uma selecção mas não há nenhum critério. Procuramos sempre ter rock, fado, ligeira ou tradicional. Procuramos fazer esta rotação mas nem sempre conseguimos. Por exemplo, este ano fomos confrontados, alegremente, com o lançamento massivo de discos de fado. Torna-se complicado ter só um momento de fado por mês. Não abdicamos de ter este momento ao vivo. Procuramos que os nossos convidados apresentem propostas que vão muito além do normal” conta-nos sobre a difícil tarefa de planear os alinhamentos mensais do programa e respectivos convidados.

 

 

Sobre a adesão e reacções que têm sido obtidas por parte do público, Armando Carvalheda explicou-nos que “nos cinco ou sete primeiros anos tínhamos uma receptividade por parte do público em crescendo. Temos os espectadores que assistem ao vivo. A partir daí estabilizou-se no número de espectadores a um número mais ou menos fixo. Estes podem variar em função do convidado que é mais ou menos do agrado de grupos etários mais baixos ou de outros mais novos. Temos sentido uma grande receptividade, mesmo ao nível de exibição. Vão nos chegando, semana a semana, mensagens através das redes sociais com palavras de incentivo e de apoio ao que estamos a fazer. Sentimos que através do “Viva a Música” reactivámos uma relação intima e de proximidade com o público”.

 

 

Falta tudo. Nós não estamos no topo. Estamos apenas a fazer um programa de rádio. É esse o nosso estilo. Somos profissionais de rádio. Estamos na posição que podemos ter. Queremos seguir o nosso trabalho, que seja bem-feito e por isso quando perguntam o que falta fazer, falta fazer tudo. De emissão em emissão o programa reinventa-se. Temos convidados diferentes. As abordagens e as conversas que temos com os músicos são diferentes. Falta apenas tudo! Venham mais 20” diz-nos.

 

 

Muitos foram os concertos já realizados no Viva a Musica, tendo nós questionado se havia algum que o tivesse marcado, tendo Armando nos dito “alguns marcaram-me de uma forma muito emotiva. Recordo-me de um concerto do Carlos do Carmo, por ser quem é. Tínhamos já falado com ele há muito tempo mas ele estava a passar uma fase menos boa em relação à sua saúde. Vi-o combalido, já não o via há muito tempo. Ele disse-me para marcar no dia X às tantas horas,  que ia lá estar. Disponibilidade e o sentido de responsabilidade. O Carlos do Carmo não precisava de vir ao “Viva à Música” para ser quem é mas ele faz questão e de nos dar a honra de estar aqui”.

 

 

O seu olhar para o actual momento da rádio e da comunicação social em geral é critico pois “não a vejo com bons olhos. Acho que a rádio está a caminhar para o momento de grafonola ou dos discos. Actualmente têm uma playlist de dezenas de músicas. A rádio genericamente tende-se a instalar nesse formato. Não é esse o meu formato. Eu vejo a rádio como um veículo de promoção mas é bem mais do que isso. Não entendo uma rádio onde apenas se toque música e não se troquem ideias. Felizmente, a Antena 1 mantém isso. É uma rádio que se honra e preza ser uma rádio de palavra. E ao falar de palavra não falo só da informação pura e dura com os noticiários desenvolvidos e com comentadores especializados. Falo da rádio falada por onde passam durante 24 horas por dia muitas pessoas. É coisa para dar aos ouvintes, os diferentes aspectos da vida. Essa é a minha rádio. Não estou certo de ser esse o modelo que está actualmente instalado na rádio portuguesa”.

 

 

Haverá muitas pessoas que têm na rádio a sua maior companhia, e disso Armando Carvalheda diz “não tenho dúvidas. Felizmente tenho percorrido o país e tenho esse feedback com muita regularidade. Para muita gente a rádio continua a ser a principal companhia no período diurno e à noite, em casa, as telenovelas são o objectivo de distracção das pessoas”.

 

 

Armando Carvalheda conta com 40 anos de rádio. Uma vida. E falar de uma vida não é fácil. “Olha, falar de um foro profissional que têm mais de quarenta décadas é sempre complicado. Foi sempre muito diversificada e algumas marcaram-me muito. Lembro-me de, na década de 90,ter ido à Bósnia e ao Kosovo. Marcaram-me muito. Marcaram-me desde logo pela forma como fomos recebidos em condições que não eram as melhores. Mais do que não serem as melhores, eram condições muito complicadas e tocou-me a forma de como aquele grupo de portugueses fez questão de nos sentir parte do grupo. Penso que esta seja uma característica muito portuguesa. Quando fomos fazer o espectáculo à Bósnia, umas semanas antes tinham saído para a Bósnia apenas cinco aviões C130 com medicamentos e nós fomos num C130 de abastecimento. Era um voo regular que era feito para as tropas que lá estavam e que levava o equipamento que as tropas necessitavam mais aquilo que precisávamos. Nesta diferença entre a grande vontade de fazer… esta foi uma das coisas que me marcou e gostaria que a rádio andasse mais por fora. No limite das minhas forças tenho capacidade de intervenção e tenho feito sentir isso junto da direcção da Antena 1 e da Rádio e Televisão de Portugal, mas sei que há constrangimentos mas há formas através das quais é possível por em prática emissões feitas do interior e que chegue à população”.

 

 

Num programa de afectos é quase impossível não questionarmos como tem sido trabalhar com a sua filha, Ana Sofia Carvalheda. Armando começa por nos dizer que “a Ana Sofia Carvalheda antes de ser produtora do programa é minha filha. A entrada dela para a rádio não se fez através da Antena 1. Ela começou por trabalhar na rádio Energia e a uma dada altura um grupo da qual ela fazia parte deixou a rádio Energia para vir para o grupo RDP para formar a Antena 3. Não foi nada que agendasse particularmente porque é inevitável quando se estabelece uma relação profissional com alguém da família há um facto muito sensível que é a relação de sangue. Quando começámos há 20 anos havia um grande receio que o programa ao evoluir gerasse confrontos ou desentendimentos mas fomos crescendo gradualmente e tudo é mais fácil do que pensava. Se calhar eu é que era o complicado. É claro que há opiniões diferentes sobre um músico ou outro mas não é uma cena de telenovela. Cada um defende as suas posições mas chega-se sempre a um entendimento que por vezes pode não ser fácil. Numa relação profissional há sempre opiniões diferentes sobre um tema e aqui também. Não há unanimidade mas uma vez definidas as linhas de cada programa e de como o vamos concretizar tudo se torna mais fácil” confessa-nos.

 

 

O Infocul agradece a Armando Carvalheda todas as condições facultadas para a realização da reportagem.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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