‘Bandida’ junta Marta Dias e Carlos Barreto Xavier: “O músico-merceeiro fica, mais cedo ou mais tarde, ligado à sua mercadoria principal: o azeite”

 

 

 

“Bandida” é o nome do disco que junta Marta Dias e Carlos Barreto Xavier. Um disco que começou no tema “Esse meu amor”, que integrou o Best Of, de Marta Dias, na celebração dos 20 anos de carreira.

 

Os dois músicos concederam uma entrevista ao Infocul onde falam sobre o disco, as emoções, o percurso e analisam o actual momento da música em Portugal. Todos os temas deste disco contam com letra de Marta Dias, excepto um da autoria de Luís Vaz de Camões.

 

 

Quando surge a ideia deste disco?

Marta: Em 2017 celebrei 20 anos de carreira. Para assinalar a efeméride, a minha editora e eu tivemos a ideia de lançar uma compilação digital, um Best Of, para o qual o Carlos e eu compusemos um original, chamado “Esse Meu Amor”. Nessa altura, compusemos mais umas quantas canções, fomos compondo e ao fim de termos um número razoável, decidimos avançar para um disco de originais.

 

 

Desde à ideia até ao resultado final, as expectativas foram cumpridas ou superou o inicialmente previsto?

Marta: Expectativas cumpridas e superadas! Como disse, fomos compondo, sem grandes pressões, e ao fim do processo de composição, tínhamos um bom conjunto de canções.

Carlos: Foram cumpridas e superadas. O processo de composição foi muito feliz. Surgiu num momento em artisticamente conseguimos sincronizar as nossas emoções e criamos algo que nos unia e definia numa linguagem coerente.

 

 

Qual o critério usado para a escolha deste repertório, todo em português?

Marta: Queríamos compor originais. Pegámos em várias letras minhas e num poema de Camões, para o qual eu já tinha a melodia completa, e partimos daí. Para as outras letras, o processo foi praticamente o mesmo: eu trazia uma melodia completa, o Carlos ajustava pormenores, compunha a harmonia e definia a estrutura (salvo em excepções, como o Esse Meu Amor ou Talvez Amar, em que a música está toda registada em nome dele).

 

 

É possível associar este disco a apenas um género musical?

Marta: Não. Este disco traz blues, um fado e navega por vários ambientes, também por causa dos músicos que gravaram connosco (Yuri Daniel, no baixo eléctrico, Ruca Rebordão, nas percussões, e Pedro Zagalo, no Hammond).

Carlos: Não. Para além do que a Marta referiu, acrescento que a sonoridade construída também é o reflexo dos nossos percursos e escolhas individuais.

 

 

 

Este disco viaja muito pelas emoções. A arte só faz sentido quando permite a quem dela usufruiu e a cria emocionar-se?

Marta: Sim.

Carlos: Talvez…por vezes as emoções associadas às canções são antagónicas entre o criador e o ouvinte…depende do contexto emocional de cada um.

 

 

 

Marta Dias assina todas as letras deste disco, exceptuando uma da autoria de Luís Vaz de Camões. O que a inspira?

Marta: Comecei a escrever letras por intimação do produtor do meu primeiro disco, Jonathan Miller. A empresa correu bem, e continuei. Ao fim de vários anos, encontrei um enquadramento mental que me permite recuperar emoções passadas e condensá-las em letras de hoje. O que me inspira é a possibilidade de criar boas imagens numa letra de canção.

 

 

 

Quais foram os maiores desafios na gravação e produção deste trabalho?

Marta: Correu tudo muito bem. A parte da gravação e produção, apesar de cansativa, e disso falará o Carlos, corre sempre muito bem connosco. Os desafios começam normalmente depois.

Carlos: Na gravação o maior desafio foi, perante o pouco tempo que tínhamos em estúdio, proporcionar e captar o melhor momento artístico e emocional de todos os envolvidos. Ao nível da produção, foi a preocupação em validar e seleccionar os melhores takes de forma a preservar toda a dimensão artística de cada interveniente, tal como construir uma linguagem emocional e compreensível.

 

 

Qual a mensagem, ou as mensagens, que pretendem transmitir?

Marta: Resistir sempre.

Carlos: Encontrar forma de ultrapassar as contrariedades.

 

 

 

Em termos de concertos de apresentação deste disco, o que já podem revelar relativamente a datas?

Marta: Teremos alguns showcases nas FNAC em Setembro e preparamos alguns concertos para os meses seguintes.

 

 

Como analisam o actual mercado musical em Portugal?

Marta: Tudo mudou. Por essa razão, não podemos ficar agarrados às velhas maneiras de fazer as coisas. O meio está muito influenciado pelos “eventos mediáticos”, que obtêm grandes audiências… Por isso, quem faz o que nós fazemos tem apenas uma opção, como eu digo acima: resistir sempre. A recompensa, para um músico, vem do poder tocar e poder criar. É isso que eu faço. O músico-merceeiro fica, mais cedo ou mais tarde, ligado à sua mercadoria principal: o azeite.

Carlos: Vivemos um tempo com diferentes reconfigurações e práticas ao nível das editoras, management e agenciamento… mas, a verdadeira relação com a música proporciona-se ao vivo e não na internet e assim, embora tenhamos que utilizar as ferramentas de comunicação em vigor, não descuramos o privilégio do contacto com o público nos espectáculos.

 

 

 

Há muito artista para pouco concerto?

Marta: Não, mas é o que querem que pensemos. É preciso abrir alternativas, criar possibilidades para as pessoas voltarem a pensar pelas suas cabeças e perceberem que também podem exigir música nova nos locais que habitam.

Carlos: Não. Falta aos managers e agentes voltarem a contactar com as diferentes realidades do País e saírem do escritório e das reuniões.

 

 

Qual a mensagem que pretendem deixar aos leitores do Infocul?

Marta: Ouçam. Sei que hoje há pouco tempo, mas ouçam. Em CD, no Spotify, download, como quiserem, e ouçam.

Carlos: Gostaríamos de vos receber nos nossos concertos.

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Notícia publicada a 17/07/2018

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