Bruno Chaveiro: “A nossa palavra vale mais que qualquer outra coisa”

 

 

‘Desatino’ é o nome do primeiro disco de Bruno Chaveiro, músico português nascido na Suiça, mas que cedo veio para o Alentejo, Montemor especificamente. Em entrevista a Rui Lavrador, e depois de já nos ter revelado em traços gerais o que esperar deste disco, Bruno Chaveiro dá a conhecer um lado mais pessoal que reflecte-se na música que cria.

Na verdade acho que é um registo instrumental de canções, de melodias, que foram criadas e arranjadas no sentido de fazer música instrumental, mas que na sua génese são canções”, começa por analisar o seu primeiro disco, acrescentando que “a primeira ideia que tive sempre, sendo canções, era que as melodias fossem cantadas e depois é que comecei a fazer experiências com a guitarra (porque as compus à viola e depois é que comecei a fazer experiências com a guitarra), e começámos a construir os arranjos nessa vertente instrumental”. Disse que “seria maravilhoso”, se no futuro visse os seus temas interpretados por alguém.

Bruno Chaveiro nasceu a 30 de Agosto de 1993, em Morges, uma pequena localidade na Suíça. Com apenas 7 anos, já de volta a Portugal, começou a aprender viola de Fado, na terra de origem dos seus pais, Montemor-o-Novo. Aos 11 anos apresentou-se pela primeira vez em palco e nunca mais parou. Com 15 anos, atreve-se a experimentar a Guitarra Portuguesa e apaixona-se de imediato. Começa então a estudar e a debruçar-se sobre o instrumento e ,cada vez mais, a Viola de Fado foi ficando para trás.

Neste trabalho conta com temas compostos por si e outros de pessoas que são referência, desvendando que “todos os temas que foram gravados, tantos os compostos por mim, como aqueles que foram escolhidos, foram seleccionados tendo em conta obviamente os compositores, pretendi prestar homenagem a algumas das minhas maiores referências e no fundo também a agradecer a algumas pessoas, momentos e alturas que foram cruciais na minha vida”, daí que “gravei o José Nunes, José Fontes Rocha, Domingos Camarinha, Casimiro Ramos e Custódio Castelo, claro”.

Tendo em conta o seu percurso de vida (nasceu na Suiça, cresceu em Montemor e actualmente trabalha maioritariamente em Lisboa), pedi a Bruno Chaveiro para atribuir um tema do disco a cada uma destas localidades. “Montemor claramente ‘Saudades’, porque fiz esse tema a pensar em Montemor, porque apesar de ter nascido na Suíça, é a minha terra, foi lá que cresci e é lá que é a minha casa, e portanto saudades por razões óbvias, porque andamos numa correria de um lado para o outro e tenho muito pouco tempo para estar…”, acrescentando que ‘Desatino’ “seria provavelmente Lisboa que é onde se passa toda a correria e onde trabalho efectivamente e Suiça, não por ter nascido lá, mas em consequência disso ter vivido lá algum tempo, ‘Guitarra perdida’”.

Em 2011, começa a ser requisitado por algumas casas de Fado em Lisboa, sendo que já na altura (deste 2007) era músico residente da Casa de Fados O Bota Alta, em Évora. Em 2013, ingressa na licenciatura em Guitarra Portuguesa na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART) do Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB). Tornando-se discípulo do Mestre Custódio Castelo (considerado um dos maiores e mais virtuosos Guitarristas da actualidade). Termina a licenciatura em 2016 com distinção e nota máxima (20 valores), na execução do instrumento. É nesta altura que, depois de já tocar regularmente em algumas das mais conceituadas casas de fado em Lisboa (Luso, Adega Machado, Faia, etc.), assume Lisboa como a sua morada certa.

Desde 2016 que tem vindo a colaborar com alguns dos mais conceituados artistas do panorama musical português como Raquel Tavares, Mísia, Pedro Moutinho, Fábia Rebordão, Jorge Fernando, Celeste Rodrigues, Carminho, Cuca Roseta, Buba Espinho, Marco Rodrigues, Ana Laíns entre outros. Paralelamente, é músico residente numa mais mediáticas casas de fado, a Casa de Linhares – Bacalhau de Molho, onde trabalha regularmente com Jorge Fernando (um dos mais reconhecidos fadistas, músico, compositor e produtor da História).

Mas será que agora mudaria algo no disco? Bruno Chaveiro é de convicções fortes portanto “em termos de conteúdo não, acho que estou muitíssimo bem resolvido e muito contente e orgulhoso com o reportório que escolhemos e com os arranjos e a forma como foram trabalhados”, mas revela que “claro está, quanto mais vezes ouço mais imperfeições noto e hei-de ter sempre, há questões e até técnicas que já melhorei desde então e que se calhar num próximo serão aprimoradas, e portanto é óbvio que alterava algumas coisas, mas não em conteúdo”.

A produção do disco foi responsabilidade também de Bruno Chaveiro, até porque “é um mundo que me fascina e gostava muito de um dia poder ser produtor e produzir outros artistas e servi-me de mim como cobaia para explorar esse mundo e acho que neste caso em concreto ninguém melhor que eu, até porque a maior parte das composições são minhas e eu é que tinha a ideia de como gostava que fosse o resultado. Este disco acaba por ser uma coprodução de todos os músicos, porque todos os músicos foram importantíssimos e inclusivamente o Naná e foram importantíssimos na tomada de decisões de alguns arranjos, pormenores mesmo em termos de linguagem, de cor dos arranjos, se assim quisermos dizer… Eu assumi a produção, mas obviamente que cada um dos músicos contribuiu e foi quase uma coprodução”.

Nome incontornável do seu percurso é Custódio Castelo de quem diz que “o maior legado que me deixa é enquanto pessoa, foi na transmissão de conhecimentos, como a nível de carácter e atitude, e aí acho que está o maior legado que o Custódio me deixou. Enquanto músico, efectivamente eu descobri uma guitarra portuguesa que eu não sabia que existia, tocava de uma determinada forma se calhar muito mais tradicionalista, muito e quase exclusivamente ligado ao fado e com o Custódio percebi que a guitarra tem uma voz própria, claro que desde sempre existiram solistas e guitarristas que se destacaram nesse campo, mas efectivamente acho que o Custódio desde sempre, é a minha opinião, foi aquele que realmente deu voz à guitarra e que extrapolou e deu o salto para outro nível”.

A Casa de Fados ‘Bota Alta’ em Évora foi o ponto de partida para Bruno Chaveiro. Sobre esta mítica casa de fados evorense diz-nos que “o meu percurso no Bota Alta é curioso, eu comecei a ir ao Bota Alta tocar viola e a Esperança, que é a dona do Bota Alta, às vezes era complicado encontrar músicos para assumir a residência lá e então o “contrato” que eu tinha com ela era, quando precisavam de alguém para tocar viola eu ia tocar viola e quando precisavam dum guitarrista eu ia tocar guitarra e acabava por estar lá todos os dias e foi importantíssimo para mim, porque comecei a conhecer pessoas diferentes e fadistas que realmente eu não conhecia e isso obrigou-me a aprender repertório que não dominava e tocar numa casa de fados é essencial para qualquer guitarrista e acho que faz parte do percurso, acho que temos de passar por lá”.

Uma das imagens que melhor define Bruno Chaveiro é o seu forte carácter que revela-se na sensibilidade que demonstra nos mais distintos momentos. A vida foi a sua escola maior, até porque “ao longo da vista nós aprendemos a construir esse carácter, e a construir a nossa personalidade, algumas vezes posso ter tomado decisões erradas, ou ter falhado a compromissos e as pouquíssimas vezes que isso aconteceu, eu aprendi que não podem acontecer e assumi sempre responsabilidade sobre todas essas acções que foram menos positivas ou erradas, e eu acho que desde sempre esses princípios foram muito claros, que é, se prometemos cumprimos, se damos a nossa palavra, vale mais que qualquer outra coisa”.

E ao longo da vida, “há duas pessoas que são os pilares da minha vida em todos os aspectos e obviamente na música, são a minha mãe e a minha irmã, são as duas pessoas que efectivamente estiveram sempre comigo e apoiaram-me sempre, independente de quais fossem as decisões que eu tomasse e qual fosse o percurso que eu imaginaria, e ainda hoje eu não tomo uma decisão sem falar com a minha mãe primeiro e ela não percebe absolutamente nada deste mundo, no sentido até mais comercial, mas ainda hoje me sinto na obrigação de pedir opinião, mesmo que já a tenha formada”.

Bruno é um defensor acérrimo de Montemor, e decidi provocá-lo…com as bifanas de Vendas Novas, ex-libris da gastronomia portuguesa. Mas para Bruno Chaveiro, “a grande qualidade das bifanas de Montemor… são melhores que as de Vendas Novas, mas é a minha opinião. Há esta coisa entre Montemor e Vendas Novas, que é uma espécie de rivalidade e eu na verdade nem tenho motivos para isso, mas desde sempre ouvi falar nesta disputa entre Montemor e Vendas Novas, e agora quando dizem que o ponto de atracão máxima de Vendas novas é a Bifana e que são as melhores do mundo, pois tenho de discordar e as de Montemor são francamente melhores”. Mas Bruno Chaveiro é um ‘bom garfo’ e não se fica pelas bifanas, até porque “as migas, as sopas de feijão é uma infinidade de coisas que são incríveis… os enchidos…se a entrevista durasse três horas poderia apresentar-te uma lista...”

De palco em palco, é pouco o tempo de descanso, “ainda há pouco tempo pensava nisso… eu não tenho nenhum ou quase nenhuns hobbies, porque realmente a nossa vida é uma azafama e passamos muito tempo fora do palco a ensaiar, a preparar repertório, a gravar em estúdio e às vezes quando conseguimos a dormir,um bocadinho e claro que é muito complicado para mim neste momento e no estágio de carreira em que estou ter tempo para fazer outras coisas” mas “o pouco tempo que tenho livre, gosto muito de jantar fora e de me juntar com os amigos, normalmente a tocar e cantar também num registo informal. E na verdade o meu tempo livre é ocupado a comer, a estar com as pessoas de quem gosto”.

Bruno Chaveiro é um bom contador de histórias e quando convidado a revelar o mais embaraço tido em palco recuou aos tempos do ‘Bota Alta’ em Évora, pois “tocávamos nuns bancos baixinhos e que não tinha encosto e quem me conhece sabe que me mexo muito a tocar e recordo-me de estar a tocar de olhos fechados e quando abri os olhos estava de costas para o publico e virado para a parede”.

Sendo jovem, assume que “até há bem pouco tempo tinha uma relação muito desligada das redes sociais, simplesmente por falta de interesse e se calhar até há bem pouco tempo nunca precisei das redes sociais para trabalhar. Agora claro, pensando a ter uma carreira a solo e a promover o meu trabalho é claro que começo a pensar nisso, pois é um meio de comunicação importantíssimo”, mas “nunca é demais sensibilizar as pessoas para irem aos concertos, comprem discos, não enquanto artista no sentido comercial, mas no sentido da experiência que é ouvir um disco, é completamente diferente abrir o disco, abrir o booklet e saber como foi feito e o que ali está empregue e claro ir aos concertos, porque nada como ir ao concerto e apreciar a música e simplesmente fechar os olhos e desfrutar do espectáculo”.

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