Cândido Esteves: O som dos artistas passa por ele…

candido

 

Nas 15 entrevistas que preparámos para o dia do primeiro aniversário do Infocul, quisemos dar a conhecer historias e percursos de pessoas que não sendo artistas ou figuras publicas conhecidas, acabam por ser essenciais a que um espectáculo se realize.

 

 

Cândido Esteves é um dos mais requisitados técnicos de som no panorama nacional e em entrevista ao Infocul aborda um pouco do seu percurso e também o actual estado da cultura em Portugal.

 

 

Cândido quando é que começou esta vida como técnico de som?

 

Bom é uma história longa… Tudo isto começou num teatro, no Tetro Intervalo que era em Algés que depois passou o Grupo I Acto- Intervalo. E tudo isto quando ainda era menor e idade num grupo amador de teatro, é definitivamente onde começa o bichinho do som.

 

 

Isto remonta a que ano?

 

Remonta ao ano de 1993. E tive a primeira internacionalização em 1994, para Cabo Verde.

 

 

Entretanto criaste a tua própria empresa…

 

Uns anos mais tarde surgiu uma nova empresa no mercado que se chama CEPA.

 

 

Ao longo destes anos quais têm sido os maiores desafios?

 

Os desafios é sempre o dia-a-dia, trabalho a trabalho. O maior desafio é sempre pagares aquilo que não recebes, mas isso é uma nova guerra.

 

 

É complicado ter uma empresa na área da cultura?

 

É. Não é propriamente fácil. Discutem-se tostões no dia-a-dia. Os orçamentos são discutidos a tostões. Não é um mercado grande, a concorrência é grande e saudável, mas há um problema que é não haver orçamento.

 

 

Chegas a ter meses em que as despesas superam os lucros?

 

Sim. Muitas vezes.

 

 

Qual é que é a motivação nesses momentos?

 

(risos) É pedir ao São Pedro que traga bom tempo.

 

 

Num dia de espectáculo à noite qual é a tua rotina?

 

Começamos por carregar (o material), quando não é feito no dia anterior, somos sempre os primeiros a chegar e últimos a sair. No local é montar o material, afinar e depois iniciarem-se os trabalhos, pois normalmente os ensaios são à tarde.

 

 

Durante um espectáculo há coisas que consegues alterar, mas outras nem tanto…

 

(risos) É a velha história…Eu faço som e Nossa Senhora faz os milagres. Continuamos com esta regra e com este contrato.

 

 

Ao longo destes anos já tiveste muitas historias caricatas, peculiares… Qual a mais curiosa?

 

(Pensa…) A mais caricata foi montar tudo uma aldeia antes (da localidade do evento). Ou seja montar na aldeia antes, desmontar e voltar a montar tudo na aldeia a seguir.

 

 

Há pedidos especiais que os artistas te façam?

 

Não propriamente. Há musicas com alguns enfeites específicos porque se criam outras dinâmicas, nada de fora do normal.

 

 

Há pessoas que acham que os técnicos de som são os anjos da guarda dos cantores.

 

Eles acham…mas nós não somos. Só acompanhamos e ajudamos naquilo que podemos…

 

 

Vocês não conseguem salvar um mau cantor…

 

Não! Não há salvação possível! Há o caso da Maria Leal agora…

 

 

Mas conseguem potenciar um bom cantor?

 

Isso sim. A fonte é o mais importante de tudo. A regra é: uma boa fonte sonora, a seguir um bom microfone, um bom cabo, uma boa mesa, e o técnico fica em ultimo da escala, até chegar o acústico.

 

 

A meio do concerto o som falha. O que é que fazes?

 

Pânico! (risos) Se falhar o som ai já temos vários motivos. O porquê de falhar o som? Temos que tentar perceber o que aconteceu.

 

 

Mas aqueles minutos em que tentas descobrir…

 

São tentativa de resolução. Reages na altura. Depende de uma quantidade de factores. Se foi corrente que faltou, faz-se uma coisa… Agora com as novas tecnologias, tem acontecido a muito boa gente falhar o som por problemas com cabelagem. Com a era digital está a acontecer muito, até em grandes concertos e tudo.

 

 

Em termos emocionais como geres isso tudo que pode acontecer?

 

Com muita tranquilidade. Dois gritos para a esquerda e dois gritos para a direita e logo se vê o que há-de acontecer.

 

 

Há salas que até devido ao modo de construção, não são boas em termos acústicos. Nesses casos, o teu, vosso, esforço é inglório?

 

Sim é um esforço inglório. Não há milagres. A acústica manda sempre. A acústica das salas é a base principal.

 

 

Nesses casos, no final do espectáculo, em que percebes que fizeste tudo o que podias, mas ouves o público dizer que o som estava péssimo. Reages ou calas e esboças um sorriso?

 

Não me tem acontecido (risos). Ainda não me aconteceu mas há-de acontecer um dia. Há uma historia de um colega nosso que um dia num sound check ao ar livre, olhou para a esquerda e um velhote chegou lá e disse “o senhor está a fazer um esforço muito grande mas o som está uma miséria…”. Isto pode aacontecer…

 

 

O colega reagiu?

 

Riu… Achou piada ao velhote e tinha sentido de humor.

 

 

Já fizeste o som de vários artistas. Há algum que gostasses de fazer, e ainda não o tenhas feito, por ser um desafio?

 

 

Assim de repente…Não. Já fiz de todos os que gostava de fazer. Já fiz Rui Veloso em algumas situações… Gosto muito de acústicos. Este ano fiz Ala dos Namorados, em substituição de um colega, e foi uma experiência magnífica. Tenho tudo!

 

 

Os acústicos obrigam-te a maiores desafios. Quais?

 

Desafios de captação e depois adaptares e transportares tudo para o espaço em que estás seja ele grande ou pequeno.

 

 

Sendo tu também um agente da cultura. Sentes que desde 93 houve evolução ou regressão?

 

A nível técnico andámos para trás por incrível que pareça. Os orçamentos hoje em dia é que mandam. Não há como dar a volta à questão. Voltámos para trás, a parte técnica continua a trabalhar com cachets iguais aos de há 20 anos, algumas situações até menores…

 

 

Há muita gente a recibos verdes?

 

O mercado funciona a recibos verdes. A cultura trabalha a recibos verdes seja do artista até ao técnico. Não há volta a dar!

 

 

Ou seja em termos sociais quase não têm direitos…

 

Não têm direitos, só deveres!

 

 

Com todas estas adversidades, o amor à arte é o que continua a mover as pessoas ligadas à cultura?

 

É claramente gostar daquilo que se faz.

 

 

Mas é possível em Portugal viver-se daquilo que se gosta, mesmo com estas adversidades?

 

Sim é possível!

 

 

Mas dá vontade de desistir?

 

Sim, mas isso é só às vezes (risos). No dia a seguir acordas e é um novo dia.

 

 

Para 2017 quais serão os maiores desafios da tua empresa?

 

Manter a carteira de clientes e fazer o mesmo ou até o dobro.

 

 

A concorrência é desleal?

 

Em algumas situações sim. Mas por norma é uma concorrência saudável, excepto um ou outro novo no mercado e que seja mais agressivo, mas nada por ai além.

 

 

Continuas a utilizar o ditado “a antiguidade é um posto”?

 

Não, apenas na tropa.

 

 

Há alguma sala que gostasse de ir e ainda não tivesses oportunidade? Qual o artista que levarias a essa sala?

 

 

Um coliseu Romano e levaria Marta Pereira da Costa, porque se adequaria ao espaço.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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