Carla Pires: “Sempre dei muita importância à escolha das palavras que canto”

 

CartograFado’ é o 4º disco de Carla Pires. Sucede a Ilha do Meu Fado (2005), Rota das Paixões (2012) e Aqui (2016). Em entrevista ao Infocul.pt, Carla Pires dá a conhecer este novo trabalho e também todo o processo criativo que envolveu a sua concepção.

O disco conta com 13 temas, produção musical e edição de André M. Santos, direcção artística de Amélia Muge e produção executiva de Joaquim Balas.

Quando começou a ser concebido este disco?

Este disco começou a ser concebido em Setembro de 2018, tendo como ponto de partida um primeiro encontro que tive com a Amélia Muge!

Qual a sua principal mensagem?

A forma como continuo a acreditar e a defender a música como linguagem universal, sem muros ou barreiras, respeitando o fado na sua forma mais tradicional e abraçando sempre novas sonoridades e a fusão das mesmas.

Quais os maiores desafios na sua gravação, produção e também escolha de repertório?

O André Santos, que assina a produção musical e a Amélia Muge que fez a produção artística do disco, conseguiram estruturar muito bem todo o planeamento de estúdio e acabou por ser fácil seguir esse plano, visto que tivemos alguns ensaios com os músicos que nos ajudaram a chegar ao estúdio com metade do trabalho feito.

Para mim, pessoalmente o maior desafio em estúdio foi conseguir entregar-me de corpo e alma!

Considero-me uma cantora de palco e acho sempre que nunca consigo transmitir nos discos aquilo que me define enquanto artista. Penso que a falta do público, das emoções, serão algumas das razões e neste disco prometi a mim mesma que me ia levar ao limite!

Em relação ao repertório, foi surgindo de forma muito natural após alguns encontros com a Amélia. A ideia que lhe sugeri como base deste disco foram as “Viagens” e a partir daí tudo se foi construindo com os convites feitos aos autores e compositores.

Porquê ‘Cartografado’?

Antes de definirmos o nome do álbum, resolvemos fazer um exercício que foi retirar de cada poema/letra, uma pequena frase ou palavra que nos fizesse sentido para um possível título.

Para mim em cada obra, seja literária ou musical é sempre possível mais do que um título e às vezes o mais difícil é escolher o que melhor a define!

De todos os nomes que tínhamos em cima da mesa, “Cartografado” era para mim uma das escolhas mais assertivas e acabou por ser o nome escolhido por todos!

“Cartografado” é o registo da minha passagem pelos vários países do mundo, das viagens que já fiz e daquelas que ainda quero fazer levando o fado na voz!

O que é mais importante numa letra que cantes? O que te impacta mais?

Sempre dei muita importância à escolha das palavras que canto. Por um lado é a mensagem que um poema ou uma letra podem  transmitir, por outro lado e não menos importante são as emoções que consigo passar às pessoas através dessas mesmas palavras.

Qual a importância de Amélia Muge neste disco?

Posso dizer que a Amélia foi a âncora deste projeto.

Há já muito tempo que tinha uma enorme vontade de conhecer a Amélia mas até aqui as nossas vidas nunca se tinham cruzado. Sou grande admiradora do seu percurso enquanto cantora, autora e compositora e apesar de ter uma sonoridade muito própria em tudo o que compõe e uma identidade única em tudo o que escreve, a Amélia conseguiu ler-me a alma e compor e escrever para mim tendo em conta a minha essência, a minha forma de cantar! E não deixando de ter o seu carimbo, consegui fazer delas, minhas!

A Amélia teve também um papel fundamental na  escolha dos restantes autores e compositores e na forma exemplar como a partir da ideia das viagens conseguiu ir mais além na concepção do projeto.

A sua sensibilidade tão próxima da minha foi também uma mais valia neste disco.

Quais os músicos que te acompanharam neste disco?

Este disco teve como base musical a guitarra portuguesa a guitarra clássica e o contrabaixo à qual introduzimos mais um quarteto de cordas em dois dos temas.

Assim tive comigo em estúdio na Guitarra portuguesa o Bernardo Couto, na Guitarra clássica o André M Santos, no Contrabaixo o João Novais. O António Barbosa e o Otto Pereira e o Kyriakos Gouventas nos Violinos, o João Barata na Viola de arco e a Raquel Merrelho no Violoncelo.

Os arranjos e produção musical foram assinados pelo André Santos que fez um trabalho exemplar enquanto produtor e o facto de andar na estrada comigo há já alguns anos fez com que os seus arranjos fossem de encontro ao que me define enquanto cantora!

O que traz este disco de novo ao teu percurso?

Este é na minha humilde opinião o meu melhor disco, não desfazendo os anteriores que tiveram um papel fundamental no meu percurso e crescimento.

Como disse anteriormente, dei tudo de mim neste trabalho levando-me ao limite das emoções!

É um disco muito mais maduro em que consigo perceber o meu crescimento enquanto cantora, em que consegui o que me é extremamente difícil, que é passar para uma gravação de estúdio muito mais de mim.

Este disco traz também uma maior proximidade ao fado tradicional, não querendo dizer com isto que alguma vez me tenha afastado porque o tenho sempre presente nos meus concertos. Por opção tive vontade de gravar mais fados tradicionais.

O que tentas transmitir com o design da capa?

A minha visão do mundo através das minhas viagens e da minha música, da minha convivência com todas as pessoas com quem me cruzei ao longo dos tempos. Espelha também as minhas emoções mais profundas e o desejo de continuar a viajar, a fazer mais concertos levando a minha música na voz.

Em termos de espectáculos, já há luz ao fundo do túnel? Algo que possas anunciar?

Há uma luz que embora muito ténue já se vai vislumbrando com a prespectiva do reagendamento de concertos adiados que já estavam previstos em França, Espanha e Alemanha, assim como o concerto de lançamento do disco aqui em Portugal que por enquanto ainda não têm novas datas.

Quero acreditar que aos poucos tudo vai melhorar e que este disco do qual me orgulho tanto é motivo mais que suficiente para continuar a persistir, a acreditar com resiliência, empenho e acima de tudo com verdade!

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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