Carlos Leitão: “Eu sou um pessimista mas também sou um realista. Também sei o que valho”

 

 

 

Carlos Leitão actua no Santa Casa Alfama a 29 de Setembro, próximo sábado. O Restaurante do Museu do Fado acolhe este espectáculo, na sexta edição deste festival. O Museu do Fado que recebeu o Infocul e Carlos Leitão para uma entrevista na qual além deste espectáculo foi abordado o disco “Sala de Estar”, a digressão baseada neste disco. Nesta entrevista participaram, além de Carlos Leitão: Henrique Leitão, Miguel Ponte e Fernando Pereira. Elementos que integram, em diferentes áreas, a equipa que acompanha o fadista.

 

 

A ligação humana existente todos os elementos que integram o projecto de Carlos Leitão é um dos factores, talvez o mais importante, que suporta tudo o resto. Homem de fortes convicções e com extrema sensibilidade, humana e artística, Carlos Leitão transparece uma dureza que se ‘desmonta’ nas primeiras palavras que fazem a conversa fluir ao ritmo com que se apreciaria um bom vinho alentejano.

 

 

Ao redor de uma mesa quadrada organizámos um semicírculo que permitia um desobstruído contacto visual entre todos. O ‘mano’ de Carlos, Henrique Leitão, revela que este disco “nasce da experiência dele, da experiência que tínhamos em casa e continuamos a ter, embora não moremos juntos, mas os hábitos mais ou menos se mantêm, e o resultado dessa habituação e experiência de vida dele”, acrescentando que a “digressão tem corrido bem, os lugares onde temos ido temos sido bem recebidos, temos divertido muito em palco, somos muito amigos uns dos outros, e isso facilita o resto, e o saldo é francamente positivo”. Revela que Carlos lhe pede “vários” conselhos. Desvenda ainda que “eu sou muito emotivo a tocar e ele diz muita vez ‘pá, menos é mais’. Ou seja, se calhar eu sou extremamente emotivo a tocar, contudo e a minha tentativa é sempre essa, tocar com as palavras. Se ele chorar, eu não vou rir a tocar. Tenho que chorar também. Mas o conselho que ele dá é ‘divirtam-se’ e esse divertimento partilhado com toda a gente em palco, e quem participa nesse palco”.

 

 

Quando questionado se alguma vez lhe apeteceu ‘apertar o pescoço’ ao irmão, responde de pronto que “nunca. O meu irmão é mais novo que eu, e quem cá não está dizia-me ‘olha pelo teu irmão, ele é mais novo que tu’. Aliás, ai de alguém que lhe queira apertar o pescoço”. Henrique Leitão referia-se ao pai, que faleceu. Caso estivesse fisicamente presente o que diria ao ouvir este disco? “Não diria. Faria aquele sorriso, que o meu irmão conseguiu herdar dele. Era aquele sorrisinho para o lado, meio maroto, era um homenzarrão mas tinha aquele sorriso meio maroto para o lado e ele herdou esse sorriso dele. Por acaso, é uma das coisas que me faz mais confusão, mas ele herdou esse sorriso dele, curiosamente”, revela.

 

 

 

A Fernando Pereira, o alfaiate, cabe a responsabilidade de vestir Carlos Leitão. Uma possibilidade que surge da “entrada no nosso ateliê, e na nossa vida, de uma pessoa profissional, estou a falar da Vanda, que trazia com ela uma mala de coisas boas que abriu e eu gostei. Não faz muito a imagem da nossa marca este tipo de exposição mas de facto foi irrecusável. Primeiro, pela forma como entrou. E entrou muito bem. E quando me apresenta o artista, então a manta fica completamente estendida. Nós temos uma relação, que eu sei e sinto de volta, que é muito mais emotiva que outra qualquer. Tudo é emoção. Faz-me bem ao coração vesti-lo, faz-me bem ao coração ouvi-lo, faz-me bem ao coração estar com ele. E depois, todos os que estão com ele, ou foram feitos num papel químico ou foram todos muito bem trabalhados à mão, porque como o Henrique acabou de dizer, a amizade é muito pouco nisto, sente-se um amor muito grande quando eles estão a trabalhar. E esse amor que eles têm quando estão a trabalhar, algo melhor é que transborda. Portanto, para mim mais não é do que um prazer fazer toda a cobertura, elegante, do Carlos. Tentarei ser o melhor possível porque tem muito a haver com a imagem que ele irá passar a quem o está a ouvir, e não só na voz, mas que imagem ele passará também”.

 

 

Miguel Ponte é o técnico de som e revelou nesta entrevista que, embora sendo portista e Carlos benfiquista, “não, de modo algum”, teve vontade, de em algum momento ‘tirar o pio’ ao fadista. Até porque “é engraçado que maioria dos meus amigos e dos profissionais com quem trabalho são benfiquistas, portanto não tem a haver”. Diz que “com o Carlos é diferente. Gostamos de nos picar um ao outro, de vez em quando, com umas mensagens mas não passa disso. Ele teve em altas alguns anos mas agora já voltou ao normal”, diz, não escondendo o sorriso.

 

 

Em termos técnicos consegue-se sempre o que se pretende. Eu pessoalmente gosto mais dos espectáculos maiores, o de Corroios, no ano passado, e este agora em Cascais, no festival do Montepio, foram muito bons”, diz-nos sobre os espectáculos, desta digressão, que foram mais desafiantes. “O Carlos nunca nos pede nada de especial, é muito fácil trabalhar com o Carlos e com os músicos que fazem parte do projecto”, completa. Ficou o desejo de um dia levar este espectáculo ao “Estádio da Luz…ou ao Estádio do Dragão

 

 

 

 

Carlos Leitão é o responsável maior por esta sala de estar na qual pontificam as suas gentes, as suas emoções e este segundo disco. “Eu não nivelo as expectativas por baixo. Eu sou um pessimista mas também sou um realista. Também sei o que valho. Não ponho é as expectativas num patamar exacerbadamente deslumbrado. Eu acho que todos os artistas, sejam eles de que área for (fotógrafos, músicos, alfaiates, técnicos de som…), tem as suas expectativas, as suas ambições, e na maior parte das vezes nunca as divulgam, são de cada um. Eu, no meu caso, embora o meu volume corporal seja grande, embora bem menor do que há dois anos atrás, eu acho que sou um tipo transparente, salvo o exagero. E quem me conhece, bem, sabe que as minhas expectativas estão sempre no ponto certo: nem de mais, nem de menos. Para haver margem para recuperar. Se for para baixo para recuperar, se for para cima para me puxarem para a terra”, diz-me quando questionado sobre o balanço, perante as expectativas iniciais, deste disco.

 

Nesta entrevista, e por motivos profissionais, não puderam marcar presença duas pedras essenciais neste trabalho e também na vida de Carlos Leitão: Luís Pontes e Carlos Menezes (viola e contrabaixista).  Sobre eles diz-nos, Carlos, que “enquanto eu tenho dificuldade em dissociar o músico do amigo, enquanto espectador eu teria a mesma dificuldade em dissociar as mesmas coisas. É mais fácil eu dizer-te como os vejo e quais as características. O Carlos Menezes, excluindo a minha família de sangue e porque o considero família, é certamente o meu melhor amigo há muitos anos que me aturou muitas coisas boas e outras más, mas principalmente está sempre lá quando é preciso, seja na música seja fora dela. É um tipo com um sentido de humor próprio, que eu não consigo comparar com ninguém, mas que tem um grande sentido de humor, que as pessoas à partida podem achar até um tipo á minha imagem, um bocado carrancudo, sisudo. É exactamente o oposto. Um tipo com um grau de afectividade raro. Quanto ao Luís Pontes é mesmo família. Quando olho para o Luís Pontes lembro-me logo do tio dele, o Carlos Pontes, que tu não conheceste porque não tens idade para isso. O Carlos Pontes foi uma das personagens mais carismáticas que eu conheci no fado porque, até visualmente, era um tipo diferente. Com uma barba branca gigante, um bigode arregalado (como o do Fernando…) todo branco, chapéu à mazantino . Era um personagem único e eu não consigo olhar para o Luís sem me lembrar do Carlos. E eu gostava muito do Carlos, portanto é normal que eu goste também muito do Luís. Eu olho para o Luís e revejo-me, totalmente, na postura de vida que o Luís tem. Um palhaço que é palhaço quando tem de ser palhaço, na melhor acepção da palavra, e quando se diz ‘vamos trabalhar!’ acaba a palhaçada e torna-se no maior profissional que eu conheço. E tudo isso, com o meu irmão, com o sangue e com tudo aquilo que eu preconizo para cima de um palco, e fora dele, que é as pessoas serem leais umas com as outras, serem sérias, verticais e basearam isto na afectividade e no amor. Até podemos sair do palco e, tecnicamente, as coisas não terem corrido bem, mas estar com eles no palco é motivo de sobra para que aquilo seja pelo menos único”.

 

Estando em Alfama era uma pergunta obrigatória. O que está a ser preparado para o festival que ali realizar-se-á? “É a mesma coisa que eu dizer que tenho uma prenda para te dar no natal, tu perguntares qual é e eu não te vou dizer, obviamente. Posso dizer-te que o alinhamento que está preparado, e já está feito, é mais do que qualquer outro alinhamento que eu tenha feito, baseado no fado tradicional. Isso claramente. É curioso que hoje estive a almoçar com um amigo meu, conceituado fadista também, e estávamos a falar exactamente sobre isso. Independentemente dos caminhos que cada um leve na sua carreira, e as pessoas acotovelam-se para colocar o rótulo se aquilo é fado ou não é e tu já me conheces e sabes que é uma discussão na qual não entro. Já não me apetece. Prefiro qualificar aquilo como música e se é bom ou não. Facto incontornável é que independentemente dos caminhos que cada um tome, a raiz é a mesma para todos, que é o fado tradicional. E quando me surgiu o convite por parte do Museu do Fado, para o representar neste festival, ainda para mais nesta envolvência do bairro de Alfama, eu pensei ‘ok, ainda que em qualquer espectáculo meu o fado tradicional prevaleça, neste apetece-me que ocupe a totalidade do alinhamento’. E depois terá, como disseste e muito bem, uma ou duas surpresas que obviamente as pessoas terão que me dar o privilégio da sua presença para saber quais são”, disse-nos, sem desvendar nada.  

 

 

Carlos Leitão, que em breve actua também em Carnaxide, revela já ter decidido o nome do próximo disco. “Eu aí ia dar-te mais uma inconfidência. Posso assegurar-te que o terceiro disco já tem nome e que também tem haver com a casa. Os mais afoitos no humor barato chamariam já a casa de banho para o barulho, mas esse trabalho sujo não é para mim. Mas é uma divisão da casa que eu gosto muito, que tem a ver com os convidados que eu recebo na minha casa e que é giro e que me ocorreu numa conversa, completamente, inusitada, e que nada tinha a ver com o assunto. Surgiu numa conversa entre mim, a Vanda e a Carolina, que está atrás daquela câmara. E foi unânime entre os três, ‘é um grande nome e que seja o nome do disco’”, contou sobre o momento em que decidiu o nome a dar ao terceiro disco a solo.

 

Carlos foi jornalista durante muitos anos. Agora estando do outro lado revela que “o processo tem sido impecável (risos). As pessoas que têm criticado o disco na imprensa têm sido muito simpáticas e a aceitação é boa. Aí sim, entram as minhas expectativas, que por norma ficam abaixo daquilo que as pessoas apreciam em relação ao disco. Precisamente porque também já fui jornalista. E isto acho que é uma coisa da nossa portugalidade mais pequena, a palavra ‘crítica’ está imediatamente associada a uma carga negativa, e não tem que o ser. E eu quando fui jornalista fiz muitas críticas sobre vários assuntos. Uma das críticas que mais gosto me dava fazer, e que felizmente foi há anos suficientes atrás antes de eu conhecer o Fernando, eram críticas gastronómicas. E para um tipo que viveu e é apaixonado pelo Alentejo fazer críticas gastronómicas e vínicas é um trabalho muito giro…recomendo vivamente (risos). Mas em relação ao disco, para não me desviar muito, eu sei o que é estar desse lado e sei que, muitas vezes, quem está deste lado também não facilita. Mas eu acho, pelo menos luto por isso, que apesar de as pessoas terem uma ideia, que eu assumo, completamente errada a meu respeito (de um tipo arrogante, altivo e não sei que mais…). Eu sou assim, não tenho que me rir e andar de sorriso rasgado só porque sim. Quando acho piada, e quem me conhece sabe que sou parvo e sou palhaço, não tenho problema nenhum… Quanto ao disco acredito que até a minha própria postura possa influenciar a critica ao disco mas também não tenho dúvida nenhuma que as pessoas depois de me entrevistarem ou conversarem comigo, se vão embora, pelo menos, a achar que o tipo é porreiro. Tenho certeza absoluta do quão boa pessoa eu sou, disso eu não tenho dúvidas absolutamente nenhumas. Quanto à imprensa, da minha parte há sempre uma relação especial. Eu tenho um cordão umbilical que faço questão de não cortar, ad eternum, com a imprensa. Eu continuo a querer fazer relatos de futebol, depois de acabar a minha carreira como fadista. Ainda vou fazer o relato o Benfica a ser campeão europeu, tenho a perfeita convicção disso”.

 

 

Num momento inusitado e nada preparado questionei-o sobre o momento em que pensa parar, pese ter apenas 39 anos e dois discos editados. A resposta foi naturalmente assertiva. “Quando é que vai chegar o momento de parar? Bolas! Eu acabei de fazer 39 anos. Parar? Não faço ideia, não te sei responder a isso. Não vai ser até que a voz me doa, isso garantidamente. Eu vou dizer-te aquilo que gostava, não sei se vai ser assim. Gostava de chegar ali aos 55/60 anos, pegar na minha mulher (os miúdos nessa altura se Deus quiser já estão encaminhados e não precisam ir connosco, vão lá visitar-nos) e enfiar-nos num monte alentejano rodeados de rafeiros alentejanos. Isso eu gostava. Se isso coincidir com a paragem, como tu dizes, da minha carreira, seja isso o que for, em relação ao fado, tudo bem mas também me pode apetecer fazer um palco num monte alentejano.  Pode acontecer”.

 

 

Olha há um passo que já foi dado, passámos a ter um Ministério da cultura. O que foi óptimo! Agora falta que haja coragem politica para se dar um orçamento condigno para a cultura. Eu não defendo que o estado é a solução de todos os problemas culturais mas é o estado que tem de dar o exemplo, disso não tenho dúvidas absolutamente nenhumas. Pelo menos é o que eu defendo. E se o estado der o exemplo, o efeito contágio surgirá por entre as várias entidades hoteleiras, de restauração… E tens o exemplo de Alfama, é o melhor exemplo. Há cinco anos atrás eu não me lembro de ver Tuk Tuk’s no Largo do Chafariz de Dentro, e agora não conseguimos passar basicamente. Esse é um investimento que tem de ser feito da parte de todos, mas há alguém que tem de dar o exemplo, tem de incentivar, de dar o primeiro passo. Porque o Alentejo é provavelmente a região com maior potencial turístico, nesta altura, em Portugal. Pela sua própria imensidão, pelos recursos naturais, pelo espaço que dispõe para que se invista. A única coisa que eu peço, e desejo ardentemente, é que não desvirtuem aquela pureza e casticidade do Alentejo. Isso é coisa que espero que não aconteça”, disse quando questionado sobre o que podia ser feito para o desenvolvimento cultural do Alentejo, tendo em conta a inexistência de muitas casas de fado e até da impossibilidade que permita a um fadista ali ficar e construir carreira.

 

 

 

A equipa que acompanha Carlos Leitão nesta digressão é composta por: Henrique Leitão, Luís Pontes, Carlos Menezes, Miguel Ponte, Victor Azevedo, Vanda Salgueiro e Cátia Garcia, além das habituais presenças de Fernando Pereira, Carolina Monteverde, Paulo Maria e Nuno Silva.

 

 

 

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